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Um breve olhar...

Quem me conhece, ainda só um pouquinho, sabe ou pelo menos já percebeu que tenho muitas reservas em abordar determinados assuntos, que para muitos seriam deixados de lado, por serem considerados técnicos, chatos, caretas, sem utilidade ou mesmo de pouco interesse público. O que não significa que tenha fechado os olhos ou ignorado os fatos e os comportamentos ao meu redor. Apenas silenciei um pouco, em respeito aos que não querem ouvir. Mas vejo aqui um espaço aberto, um terreno fértil para plantarmos sementes que farão brotar novos olhares frente a uma realidade que instiga e provoca o debate.

Percebendo esse meu silêncio involuntário e lendo na minha alma um desejo invisível aos olhos dos passantes, minha querida Rosa Pena resolveu cutucar a onça com vara curta. Atiçando minha sede e minha paixão pelo assunto, entre uma prosa aqui, uma crônica ali, lá vem ela abrindo as portas para o debate sobre as nossas atitudes e o nosso compromisso enquanto cidadãos. Assim sendo, peço desculpas antecipadamente aos que aqui chegarem na expectativa de um daqueles textos que falam dos sonhos, do amor, dos desejos da carne ou do coração. Talvez esse aqui nem tenha aqueles lirismo gostoso, aquela leveza, aquela doçura que vem dos versos e das prosas poéticas. Hoje vim para cutucar, para incomodar, vim exercer o meu direito de ser chata, de ser “mala”.

Quando optei por me dedicar um pouco mais ao estudo sobre a relação entre Política, Ética e Cidadania, foi uma opção fundada nas decepções diante das injustiças, da falta de respeito ao ser humano, ao cidadão. Mais que isso, foi um grito de indignação, um desejo de trazer para o espaço cotidiano a discusssão acerca das razões da nossa incapacidade para mudar os rumos da história, de saltarmos da condição de expectadores a protagonistas do nosso destino. Sou sonhadora sim. Sonho com um mundo diferente aonde os valores éticos como honestidade, respeito e dignidade não sejam abstrações teóricas, não figurem nas listas de “qualidades individuais”, que nos qualificam como “pessoas de bem”. O mundo não vai mudar porque colecionamos adjetivos, mas possivelmente será bem diferente se fizermos dos pequenos atos cotidianos, ações de grande valia ao nosso semelhante. O mundo também não mudará se acumularmos saber teórico, mas apresentará uma nova face se nossas ações caminharem em sintonia com nossos desejos e nossos valores. Não falo de uma atitude ética hoje ou amanhã, mas de um hábito que independe dos sujeitos envolvidos e isso exige mudanças e tomadas de atitude.

Falar de uma atitude ética, exige de nós o compromisso de nos despirmos das máscaras sociais, de não reforçar às máximas do “bateu – levou”, “ do “olho por olho, dente por dente” do ‘toma lá, dá cá”. Exige um esforço individual e coletivo de “fazer o bem, sem olhar a quem”. Fazer o bem a quem nos interessa, não nos qualificará justos. Porque a verdadeira justiça traz em sua essência a condição de igualdade, não a de protecionismo. Protegemos quando sentimos compaixão, não para fazer justiça. Justiça, implica legitimidade, não legalidade. Não precisaríamos recorrer à normas e regulamentos se a defesa da igualdade fosse o alicerce das nossas ações, porque justiça pressupõe igualdade e esta é a condição fundamental de construção da cidadania.

Assim, o ponto fundamental dessa discussão é pensar os nossos pequenos atos e atitudes cotidianas, numa dimensão ética que extrapole e supere as normas de conduta moralistas e maniqueístas, que nos colocam em eterno confronto entre o bem e o mal. Pensar e agir com base nos pressupostos éticos implica acima de tudo, o desafio de olharmos e encararmos as deficiências das nossas ações e a distância que nos separa do nosso sonho de justiça. Implica em mudança e tomada de atitude. Saber, conhecer, enxergar com o olhar ético, não substitui o viver. Contemplar a realidade de fora, indignar-se e nada fazer para mudar, não nos tornará melhores do que aquele que ainda vive escondido na caverna da ignorância.

Foi esse desejo incansável por entender os diferentes olhares sobre a realidade, que fez de mim essa pedra no caminho de muita gente, mas foi também o que me fez quebrar o silêncio, dos versos da madrugada para dar voz ao grito sufocado pela indiferença diante de fatos tão corriqueiros. A pedra foi lançada, resta agora construímos os alicerces que darão sustentabilidade a esse diálogo e que ele não pare por aqui.


“Felizes os famintos de Justiça, porque nunca serão saciados.”
André Comte-Sponville



Boston, Jan/10/2006
11:56 pm

Sandra Mara
Enviado por Sandra Mara em 11/01/2006
Reeditado em 30/11/2007
Código do texto: T97140

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Sobre a autora
Sandra Mara
Estados Unidos
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