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LITERALMENTE TATUADA


Somos escrevinhadores e sonhadores. Unimos a realidade à fantasia e tecemos nossos textos - vozes de nossos anseios, perturbações, lembranças e reflexões.
Não é preciso, entretanto, que se durma para sonhar: pode-se sonhar acordado e de várias maneiras, bastando que a imaginação "crie asas" e alce voo. 
Quantas asas temos? Um número musical, um espetáculo de dança, um filme, uma peça de teatro, uma pintura, uma fotografia, uma escultura, um poema, um conto...Qualquer manifestação artística produzida pelo homem pode levá-lo a momentos de pura emoção, criar-lhe uma persona, uma fantasia, tirá-lo da Terra e projetá-lo noutros espaços.
A literatura é uma das formas.
É dela que me alimento.
É ela que respiro, desde a mais tenra idade.
Não há dúvida, porém, que só uma autêntica obra literária é capaz  de levar o homem ao mais pleno e duradouro estado onírico. Quando digo "autêntica" me refiro ao "criar com arte". Uma história oral, mesmo criada improvisadamente, quando rica em detalhes que apelam à imaginação, vira arte, literatura, dá asas e propicia sonhos.
Quando eu era criança meu pai inventou uma história de um aviãozinho vermelho que povoou toda a minha infância. Essa história a cada dia crescia e se enriquecia, pois ao recontá-la meu pai sempre lhe adicionava algum detalhe novo. Fazia isso porque não se lembrava bem da história original, visto que a criara para mim de repente, para matar a fome de uma menina ávida por histórias em momentos sem preparo. Como era bom e me alimentava ! Como era arte e literatura!
O mundo na obra literária, principalmente nas histórias infantis, é muito parecido com o mundo real, mas tem uma vantagem: nele encontramos pessoas, coisas, fatos, que nem sempre condizem com a realidade, são elementos fictícios, próprios da obra literária. Por ser um mundo de fantasia, um mundo idealizado, nele tudo pode acontecer...até o impossível é possível, o inverossímil torna-se verdade aceita. É essa dose de fantasia, de ficção, que carrega o leitor fazendo com que ele se imagine um de seus agentes, um de seus moradores. Em quantas páginas nós já habitamos ? Lembrei-me agora, de imediato, de "O pequeno Príncipe", de "A Náusea" sartreniana e de um livrinho de histórias terríveis, com o singelo nome de "Histórias do Arco da Velha". Ainda no ano passado mandei-o para a reencadernação. Estava puído, com fungos no papel e nódoas de chocolate. Foram as histórias mais cruéis, tristes e tenebrosas que li! 
Claro que na época, sendo criança, não tinha essa consciência. Eram apenas e tão somente histórias. Muito mais tarde é que percebi algumas opiniões e conceitos estrangeiros no meu pensar e conduta. De onde teriam vindo? Sessões de análise me mostraram que vieram dele, do livrinho do Arco da Velha.
Essa viagem da realidade para o mundo literário faz com que o leitor esqueça sua verdadeira identidade, seu endereço, a época em que vive, seus problemas, suas angústias e se transfira totalmente para esse mundo; proporciona-lhe conhecer épocas, costumes e lugares que jamais poderia conhecer em seu tempo. Mas faz, principalmente, com que ele participe de todas as aventuras, de todas as façanhas que compõem a trama contada na obra, incorporando um ou vários dos seus personagens, imaginando-se aquele herói valente ou aquele vilão tão atraente por ser muito esperto; o mergulhador que descobriu no fundo do oceano um tesouro pirata; o cientista que criou uma bactéria perigosa quando, na verdade, buscava a cura para alguma doença; aquela princesa num cavalo branco, abraçada pela cintura a um belo príncipe; o personagem que viveu um grande amor; aquele detento que escrevia poemas atrás das grades; aquele pensador que refletiu sobre a humanidade; uma missionária que dedicou sua vida aos menos afortunados; aquela mulher devassa e cheia de amantes; o poeta amargurado e solitário que trancava seus versos tristes numa gaveta; o colegial que exultou de alegria ao tirar a nota máxima numa prova escolar; o detetive que desvendou um crime brutal; aquela criança que cedo conheceu o preconceito por ser diferente.
Quantos fomos entre as páginas de um livro? Em quantos nos reconhecemos ?
A leitura literária, portanto, é capaz de fazer com que alguém "sonhe acordado", que realize seus desejos reprimidos. Voltamos à máxima de Freud que citei acima.
Encerrada a leitura, o leitor retorna à realidade em geral mais leve, com mais força para enfrentar os problemas cotidianos, para tentar entender o que se passa consigo e com os demais. Outras vezes não. Nesses casos, a leitura provoca uma revisão do mundo e de nós mesmos.
Vale lembrar que ser sonhador e ser alienado são coisas muito diferentes.
Há quem pense que a literatura aliena. Há quem pense que ler perturba. Aqui me lembro do filme de Truffaut "Farenheid 451", em que as pessoas são proibidas de ler...onde os vizinhos denunciam quem tem livros em casa. Uma apaixonada por livros deixa-se queimar juntamente com eles. O final do filme é surpreendente e comovente!
O alienado é aquele que está constante e completamente fora da realidade, sem se dar conta disso; o sonhador é alguém que escapa dessa realidade por algum tempo, por necessidade, por vontade própria, mas que ao voltar tem consciência e visão crítica de tudo que existe ao seu redor .
O ser humano que está sempre "com os pés fincados na realidade" tende à tristeza, à amargura, ao egoísmo, penso eu. É vital para este leitor sonhar, porque é vital que ele seja feliz, mesmo que só de vez em quando, nas páginas de um livro, nos versos de um poema. Como escreveu Calderón de la Barca, "os sonhos, sonhos são".
Inspirado nesta frase, Chico Buarque escreveu musicalmente:
"Em Lisboa
Faz algazarra a malta em meu castelo
Pálidos economistas pedem calma
Conduzo tua lisa mão
Por uma escada espiral
E no alto da torre exibo-te o varal
Onde balança ao léu minh’alma

Em Macau, Maputo, Meca, Bogotá
Que sonho é esse de que não se sai
E em que se vai trocando as pernas
E se cai e se levanta noutro sonho."


Às vezes me ponho a pensar em como eu seria sem a literatura, sem a viagem libertária que ela me sempre me proporcionou. Preciso da fantasia, mesmo da mais ingênua, até para me salvar de mim mesma.
Tatuei a literatura em mim. Tatuagem não se remove. Mesmo com cirurgia plástica, sempre fica uma marquinha...



27/10/2005
KATHLEEN LESSA
Enviado por KATHLEEN LESSA em 12/01/2006
Reeditado em 26/06/2009
Código do texto: T97676
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
KATHLEEN LESSA
São Paulo - São Paulo - Brasil
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