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Discurso de Formatura do Ensino Médio da Escola Damasco (2006)

 Discurso de Formatura da Turma do Terceiro Ano do Ensino Médio
da Escola Professora Francisca Salles Damasco
(Caçapava, 20 de dezembro de 2006)

Senhoras Diretoras, Senhores Professores, Senhores Pais, Senhores, Senhores Convidados, Meus queridos afilhados, boa noite.
Minhas primeiras palavras não poderiam deixar de ser de agradecimento por vocês terem me escolhido como Paraninfo da Turma. Muito Obrigado.
Por outro lado, quero crer que essa escolha faz de mim uma espécie de exemplo para vocês. Então, mais uma vez obrigado pela deferência, porém se o meu raciocínio for verdadeiro, isto é, se sou mesmo um exemplo para vocês, acho que preciso me mostrar um pouco mais e assim, quero aproveitar esse momento para fazer uma comparação e deixar a minha mensagem.
Há 33 anos atrás, em dezembro de 1973, eu também tinha 17 anos (já faz muito tempo) e estava acabando o Ensino Médio, concluindo o meu Curso Científico. Naquela época o Brasil vivia sobre a égide de um Governo Militar Autoritário, não eram tempos políticos bons. Por outro lado, estávamos passando pelo chamado “milagre econômico”, e assim eram bons tempos econômicos. O tempo do “Brasil: Ame-o ou deixe-o”, do “Esse é o Brasil que vai para frente” e “da mulher brasileira em primeiro lugar”. Enfim, o tempo das inúmeras máximas, daquele “bom” momento que o país viveu.
Minha geração e a geração que antecedeu a minha, viveram marcadas pelo SNI, pelo DOPS, pelo AI 5, pelo 477 e a Lei de Segurança Nacional e por outras agressões a liberdade individual e coletiva, que vocês jovens, ouviram falar e apesar de terem estudado em História com as Professoras Januária e Irene, nem são capazes de imaginar o que efetivamente significavam, pois não sentiram aquilo de perto. Vocês não tiveram que correr da polícia e nunca tomaram algumas bordoadas, como eu e outros aqui presentes, que talvez também tenham tomado, pelo simples fato de sermos estudantes e de querermos nos reunir para estudar e também por objetivarmos um país melhor. Nós não podíamos pensar diferente dos governantes. E mesmo quando pensávamos da mesma forma deles, tínhamos que provar o nosso pensamento era verdadeiro. É aquela história da mulher de César que não tinha apenas que ser séria ela tinha também que parecer que é séria, senão estaria mentindo.
Até mesmo para fazer o meu Curso de Mestrado numa Universidade Federal, alguns anos mais tarde, em 1978, me foi exigido um documento absurdo denominado: “Atestado de Antecedentes Políticos”, documento esse, que graças a Deus, hoje não existe mais, onde alguém do governo tinha que declarar que o indivíduo, no caso eu, estava politicamente limpo para poder ingressar numa Universidade Federal. Até hoje, não sei por que tive meu nome registrado no DOPS.  Mas, isso são águas passadas e não é disso que eu quero falar. Só comentei para vocês verem como aqueles tempos eram difíceis e quantos absurdos existiam.
Naquela época a mão forte dos Generais do Exército Brasileiro tentava nos impedir até mesmo de pensar. Muitos inocentes morreram, outros foram exilados, outros ainda torturados e humilhados sem saber o motivo. Não havia nenhuma liberdade sócio-política e nem a quem recorrer, o governo era soberano e mandava como queria. Entretanto, por pior que a situação fosse, tínhamos trabalho, a nossa LDB recém aprovada naquela época (5692/71), incentivava a formação de Técnicos de Ensino Médio e assim o país entrava finalmente na era industrial. As Universidades Federais davam os primeiros passos rumo ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Finalmente o Brasil ingressava na direção do futuro e dava mostras de seu potencial.
Mas, aquela geração não se contentou com o trabalho apenas, pois nada vale mais que a liberdade de pensamento e de opinião. Aliás, como disse Cecília Meireles: “Liberdade é a palavra que o sonho humano alimenta que não há ninguém que explique, mas que também não há ninguém que não entenda”. Pois é, meus queridos afilhados. Hoje, graças ao pioneirismo daquele pessoal da minha época e da época anterior a minha, temos a tão sonhada liberdade, porém está faltando o trabalho. Trabalho, que no dizer de Luiz Gonzaga Júnior, o famoso “Gonzaguinha”, é a própria vida, quando ele cita numa de suas composições, que: “Um homem se humilha se castram seus sonhos, seu sonho é sua vida e a vida é o trabalho e sem o seu trabalho um homem não tem honra e sem a sua honra se morre, se mata. Não dá para ser feliz...”. Aliás, canção maravilhosamente interpretada pelo grande Raimundo Fagner.
Pois é, meus queridos formandos, é exatamente nesse ponto que começo a falar com vocês mais particularmente. Na minha época, quando se acabava o Ensino Médio que era, em certo sentido, unido ao técnico por força da Lei de Diretrizes e Bases da Educação de então, já se tinha um trabalho mais ou menos garantido, pois o país crescia e assumia rapidamente aquela mão de obra. Obviamente, quem quisesse, a partir dali, continuava os estudos e galgava o Ensino Superior, mas era difícil, pois a competição era muito acirrada e poucos conseguiam chegar lá.
Hoje, embora não se garanta o emprego apenas com o Ensino Médio, está muito mais fácil ingressar no Ensino Superior, pois existem mais escolas, mais cursos e assim, a competição é bem menor. Entretanto, após a Faculdade, na maioria das vezes, o indivíduo deixa de ser estudante e, ao se formar, passa a ser mais um desempregado, pois falta trabalho. O emprego está cada vez mais difícil. Mas, como pode faltar trabalho, num país do tamanho do Brasil, com a maior biodiversidade do planeta, com a 5ª maior área geográfica e com a 5ª maior população do mundo? Isso é muito complicado e difícil de entender. Por que será que isso acontece? Há várias respostas.
Por que só existem safados nesse país, dirão alguns... A culpa é do governo, dirão outros... Outros ainda, dirão que não dão sorte e por isso não conseguem nada... Há também quem diga, que a culpa é dos americanos que querem tudo para si e, obviamente, tem aqueles que dizem que o problema é da globalização e do neoliberalismo. Enfim, existem várias desculpas e todas elas talvez sejam até meias verdades, entretanto a verdade absoluta é que os jovens estão devendo a sua participação no processo de desenvolvimento do país e por isso as coisas ou não acontecem ou acontecem muito devagar. O jovem não é o único culpado, porém sua coragem, sua impetuosidade, sua pureza e seu senso de direito e de justiça estão fazendo falta ao restante da população desse país. O jovem precisa se envolver mais nas questões políticas, nas questões sociais, nas questões culturais e mesmo nas questões econômicas e ambientais do país e lamentavelmente isso não tem ocorrido.
A grande maioria dos nossos jovens atuais cresceu num país, sem símbolos, sem valores, sem ideais e sem vontade. Os grandes símbolos e modelos de nossos jovens, lamentavelmente são ex-prostitutas, ex-drogados, ex-bandidos, os principais valores dos nossos jovens são a “Lei de Gérson” e o “Jeitinho Brasileiro”, o ideal precípuo de nossos jovens é ficar rico custe o que custar e doa a quem doer e depois ir embora do país e a maior vontade de nossos jovens é não ter vontade nenhuma. É claro que existem, graças a Deus, muitas exceções e espero estar aqui na presença de algumas dessas exceções, pois sem a força e o ímpeto dos jovens, dificilmente o país sairá do marasmo.
Na época do Governo Militar, apesar da imposição, cantávamos o Hino Nacional com prazer e marchávamos nos Desfiles Cívicos de Sete de Setembro ou outros com a cabeça erguida. A Bandeira do Brasil era ostentada com orgulho, apesar das limitações na liberdade individual e coletiva, as atividades voluntárias eram proporcionalmente maiores e mais significativas. Nós jovens, exaltávamos o país e, apesar de tudo, sentíamos muito prazer em ser brasileiro. Esse foi, talvez, o lado bom do Governo Militar, mas, não sei porquê, essa foi exatamente a primeira coisa que abandonamos com a redemocratização do país, o civismo, o sentimento de brasilidade.
Hoje nossa relação com o país é distante. Hoje tudo é festa lá no meu AP, pode aparecer, que vai rolar “bundalelê” e pode até levar a sua “eguinha pocotó”, o seu “bonde do tigrão” e o seu “pancadão”, porque “nós trupica mais não cai”. É lamentável o que estão fazendo com o nosso jovem e de resto com todos nós brasileiros, que só temos maus exemplos e só somos levados a lembrar do país na Copa do Mundo de Futebol e depois voltamos a esquecer rapidamente, principalmente quando perdemos a competição, como aconteceu recentemente. Não é ruim ser o país do Futebol, mas precisamos ser o país de outras coisas também, as quais talvez sejam muito mais importantes que o Futebol e outros supérfluos que a propaganda, das redes “Bobos de Televisão”, dos “Sbesteiras”, das “Bundeirantes” e outras redes menos famosas nos impõem goela abaixo.
Meus preclaros discípulos está na hora de virarmos a mesa e começarmos a reescrever a história do Brasil, que se apagou nos últimos anos, mascarada pelas ações da Ditadura Militar e por governos civis despreocupados com os grandes interesses nacionais, onde só se viu demagogia e corrupção. Nossa Democracia já completou 21 anos, já atingiu a maior idade e até aqui quase nada mudou. O País continua como “dantes no quartel de Abrantes”, um navio a deriva, sendo levado ao acaso pelas correntes e pelos ventos alíseos.
 Vocês aqui presentes, já se constituem numa grande exceção ao restante dos jovens desse país. São exceção, primeiro porque vocês têm pais ou alguém que cuide e se responsabilize por vocês e que procurou colocá-los no caminho certo, encaminhando à escola; segundo porque vocês são jovens saudáveis que se alimentam bem todos os dias; terceiro porque vocês tiveram a oportunidade de estudar e aproveitaram a oportunidade: quarto porque, além de efetivamente estudarem, vocês se alfabetizaram e estão concluindo o Ensino Médio numa escola particular (paga) e de excelente qualidade; quinto porque têm a opção de poder continuar os seus estudos e as exceções vão por aí afora. Ora, embora eu saiba que vocês sabem, sempre é bom relembrar que essa realidade de vocês não é, nem de longe, a realidade da maioria dos jovens brasileiros.
Então, por favor, vocês que já são exceção em quase tudo, atendam a esse velho mestre que vocês mesmos escolheram como exemplo. Procurem ser exceção também na postura ética e trabalhem duro e sério para mudar a cara desse país e para que a regra possa ser exatamente igual ou melhor do que aconteceu com vocês. O Ensino Médio já lhes deu a visão eclética e generalizada do mundo e já lhes mostrou a importância da vivência cidadã. Agora é preciso que vocês trabalhem para que todos os jovens tenham esse mesmo direito.
Por outro lado, a vida profissional de vocês vai ser decidida agora, vocês estão apenas começando e é desejável que comecem bem e que sigam bem, para poderem terminar bem, pois só o bem pode gerar e manter o bem. Desta maneira, amanhã vocês, certamente, serão os dirigentes que o Brasil tanto precisa e o povo brasileiro educado poderá ser capaz de discernir um pouco melhor entre o certo e o errado. Aí, estaremos vivendo a verdadeira Democracia.
Por favor, não confundam Dirigentes com Governantes, pois os governantes nem sempre são dirigentes, são apenas e tão somente administradores. Mas, quando se vive numa “Democracia Verdadeira”, os dirigentes é quem determinam as ações dos governantes, pois os governantes são eleitos para servir aos interesses da maioria coletiva, os quais são determinados pela ação dos dirigentes em todas as áreas e situações nas suas diferentes comunidades. Pois é, meus queridos sejam os grandes dirigentes do futuro desse país e atuem contundentemente na indicação daquilo que os governantes devem fazer pelo interesse coletivo.
Hoje, além de tudo, temos outro problema, talvez até mais grave do que os problemas políticos e econômicos quase exclusivos na minha época, que é o problema ambiental. Aliás, sempre tivemos esse problema, mas anteriormente não se considerava algo importante. Na minha época ainda se falava pouco sobre a questão ambiental, mas o governo militar também errou muito nesse aspecto, quando assumiu formalmente no Encontro de Estocolmo, em 1972, que “não estava preocupado com a poluição e a degradação ambiental, pois o Brasil é um país muito grande e desde que venham emprego e recursos financeiros nós aceitamos qualquer negócio”. A noção de crescimento e de desenvolvimento mudou muito daquela época para hoje.
Desde aquela época muita gente morreu e ainda morre envenenada nesse país por causa da afirmativa acima, mas hoje isso é inadmissível e essa hipótese está descartada. Queremos trabalho, mas antes queremos qualidade de vida. A questão ambiental é mais um obstáculo a ser vencido pelos futuros dirigentes e governantes. Entretanto, esse também é um setor que poderá trazer grandes benefícios para toda nação brasileira se esses dirigentes e governantes efetivamente se envolverem na questão. O Brasil é imbatível em biodiversidade e recursos naturais e precisa conhecer bem o que possui para fazer desse potencial um trunfo nas negociações internacionais.
Por fim meus queridos, eu quero dizer, tal qual o grito de guerra das torcidas nos estádios desse país afora: “Eu sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor” e quero me servir efetivamente de exemplo para vocês. A vida é dura, mas vale a pena, aliás, já dizia o poeta, Fernando Pessoa: “tudo vale a pena se a alma não é pequena” e, como Biólogo, tenho certeza de que a vida realmente vale muito mais que qualquer coisa.
Quero que fique claro, que todas essas abordagens extensas, complexas e, para alguns, até chatas que acabei de fazer, foi para tentar demonstrar que os tempos mudam. Entretanto, independente do tempo, quanto mais educação, mais amor pelo Brasil, mais liberdade para o povo e mais trabalho houver no país, melhor será a qualidade vida de toda a nação brasileira. A cada tempo falta alguma coisa e assim sempre há necessidade de algum ajuste, porém existem certas coisas que não podem faltar nunca e os jovens têm que estar atentos para fazer a diferença na hora dessas devidas carências.
Àqueles que vão parar por aqui e tentar o mercado de trabalho que está difícil sejam cidadãos competentes, corretos e responsáveis. Àqueles que vão galgar o Ensino Superior sejam cidadãos competentes, corretos e responsáveis. Àqueles que ainda não sabem o que vão fazer, sejam cidadãos competentes, corretos e responsáveis. Pois é, meus queridos alunos, além da Educação Básica e da formação eclética, que vocês já têm, pois já concluíram o Ensino Médio, o Brasil precisa somente que vocês sejam cidadãos competentes, corretos e responsáveis.
Meus afilhados, nos próximos 50, 60, 70 ou 80 anos que virão eu já terei, muito provavelmente, morrido nos primeiros 20, mas me permitam acreditar que vocês continuarão fazendo as suas respectivas partes, formando outros jovens, exercendo as suas respectivas funções como dirigentes e determinando os caminhos desse país. Ao longo desse tempo, de vez enquanto, dêm uma rápida olhada para trás e lembrem-se da Escola Damasco, dos amigos, dos professores, dos funcionários, dos bancos da escola, do jardim, da cantina e desse velho mestre, o Professor Luiz Eduardo, que um dia serviu de exemplo para vocês e que agora já está com saudades, mas que estará, enquanto viver, sempre atento para auxiliá-los e tentar continuar dando os melhores exemplos na busca constante do Brasil melhor.
O futuro é logo ali, quando vocês menos esperarem, ele já foi presente e já é passado. Vocês só podem mudar o futuro, porque o passado já passou e o presente é efêmero demais. Tenham sempre o futuro como presente, mas lembrem-se dos modelos do passado e sejam muito felizes.

Prof. Luiz Eduardo Corrêa Lima
Prof Luiz Eduardo
Enviado por Prof Luiz Eduardo em 29/08/2008
Reeditado em 15/09/2008
Código do texto: T1151665
Classificação de conteúdo: seguro

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