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Inspiração mórbida *


De hoje ficaram muitas coisas, inúmeras coisas, infinitas coisas; e agora tento jogá-las - poderia me desculpar pelo uso do verbo jogar com tão aparente descaso, mas é realmente isso que sinto que devo fazer com as palavras que gritam na minha cabeça: jogá-las - no papel a fim de que não se percam, não se espalhem por aí, que ao menos se espalhem no papel, onde eu posso ter acesso, mesmo que assim tão jogadas não façam o menor sentido pra quem lê, SE alguém lesse.
Os olhos nem piscavam, mal tinham vontade de piscar, mal se lembravam de piscar, muito embora o ar gelado do lugar, os fizesse lacrimejar, sendo vez ou outra obrigados a se fechar, mesmo que por uma fração de segundo. Agora que tento expressar como me senti na real mesmo, nada parece muito claro, e eu como de costume não consigo organizar as idéias de forma contínua, de modo que estas possam fazer algum sentido; nem quero que faça sentido, pois aqui, nesse contexto, servem pra congelar um momento que por sua singularidade não deve nunca ser esquecido.
O que importa é que existem algumas coisas que, no mínimo, mexem e bagunçam tanto com a gente ("bagunçam" no bom sentido, no sentido de bagunçar pra depois poder botar no lugar, assim como uma faxina no armário) que mesmo que nós tentássemos ficar indiferentes, nunca conseguiríamos, e mesmo que eu não estivesse de alguma forma dando corda escrevendo sobre isso, mesmo assim, ainda estaria aqui, bagunçando o meu "armário" interior. É engraçada a nossa percepção sobre as coisas, e as coisas existem independente da nossa permissão e vontade de falar sobre elas.  Ao mesmo tempo em que eu me deixei envolver de tal modo que mal podia piscar, outras pessoas até muito próximas de mim apenas bocejavam, olhavam as horas, ou balançavam a cabeça como quem diz que "sim, é exatamente isso"; mas exatamente isso o quê? Detesto ser tão reflexiva, detesto mesmo, e sei que sou em 101% das vezes, mas detesto; porque quase sempre levam a quase nada, e quase sempre é egoísta, de satisfação pessoal mesmo, satisfação besta de me sentir menos vazia e, ao mesmo tempo mais esvaziada, sem nada pendente comigo mesma, you know? É como a moça bonita da peça igualmente bonita disse: "(...) porque de alguma forma, se eu não escrevo, é como se não tivesse acontecido".  No caminho de volta pra casa eu não queria dizer mais nada, estava só tentando segurar aquela vontade toda de fotografar mentalmente cada idéia, até finalmente poder escancarar no papel tudo que com certeza não faria mais o menor sentido a partir do momento que deixasse de ser pensamento e se tornasse palavra, frase, texto. Não me importo, é nessa falta absoluta de sentido que eu vejo as coisas coloridas do meu jeito, já me habituei a isso.

"Há momentos em que olho pra mim mesma, e não consigo encontrar nada que não estivesse ali, exatamente do mesmo jeito no dia anterior".

"E ao mesmo tempo é tudo tão lindo... a vida".

Essa minha anotação desesperada de idéias perdidas, essa falta total de concordância, acentuação e organização textual, justificam-se pelo medo de que tudo pudesse se perder, ou que se deixados pra outra hora qualquer, não tivessem o mesmo efeito colorido em mim. Com a lógica, deixa que eu me entendo.
rere
Enviado por rere em 22/04/2006
Código do texto: T143629
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Sobre a autora
rere
Piracicaba - São Paulo - Brasil, 28 anos
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