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EUCLIDES DA CUNHA AND JAMES JOYCE: A COLISÃO DAS CONSCIÊNCIAS

                         PROJETO


             “II CONGRESSO REGIONAL DE EDUCAÇÃO”


TEMA: A FORMAÇÃO DO PROFESSOR E A REVOLUÇÃO INFORMACIONAL (1)


                 PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
              Presidente Científico do Evento




            PRÓLOGO: A colisão das consciências *

     Seguindo as pegadas dos bandeirantes, dos jesuítas, dos vaqueiros, dos trilhos da Mogiana, à margem da história e à beira do rio Pardo, onde rumoreja a água fria, Euclides da Cunha, engenheiro e arquiteto da palavra —espírito no qual se formou o escritor —, cataloga, poeticamente, fauna e flora brasileiras e, propondo a retificação da natureza, enraíza signos. Vítima do poder intolerante, o escritor exilado, qual novo Hermes, informa aos homens a mensagem descoberta: delineia uma cartografia e “explica como se constrói um deserto, como se extingue um deserto (...). Ao mesmo tempo tapuia, celta e grego, contacta o caboclo que à procura das ‘terras grandes’ imagina próximos o Rio, a Bahia, Roma e Jerusalém” (Murilo Mendes).
     Por vilarejos cartogramados e por planaltos empoeirados, por flores e por estepes, sobre o curso de um rio, a ouvir estrelas, o engenheiro-poeta erige monumentos. Lança suportes de sustentação, obra aberta, passagem de conexão, travessia: a ponte sobre o Pardo. E arquiteta, engenhosamente, a admirável escritura-mundo: prosa crôniconépica, que flui caudalosa, por faunos e por floras, e que reponta no mítico labirinto textual da criação euclidiana. Na virada dos séculos, e navegando pelas correntezas do século 20, dois romancistas... suportes fixos, romance-rio, obra-em-andamento, corrente mítica universal. Um brasileiro: a multiplicidade expressa na linguagem clássica de Euclides da Cunha. E um irlandês: a multiplicidade expressa nas combinações de palavras de James Joyce.
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fwread@libyrinth.com.riverrun... “rolarrioanna e passa por Nossesenhora d´Ohmem´s, roçando a praia, beirando ABahia”. Para o tradutor do sem-mais-preâmbulo-joyciano “Work in Progress”, quem visita Dublin anda sobre o corpo de um gigante adormecido (Donald Schüler). Com ‘efeitos’, a tradução é conexão com outros universos... montagens, e um rio universal atravessa o Brasil, e o Sertão é o mundo! Revolução nos planos das línguas, explosão dos signos em frases torrenciais, dilúvio, desterritorialização das mensagens... e a territorialização de um Nilo de palavras a transbordar os pátrios domínios e a inundar outros “nomes de domínio”, outras plagas, outras páginas, misturando-se a outras gotas do vasto oceano mundial de signos flutuantes (Pierre Lévy).
     Naveguemos à pena do bardo, no fluir das águas... riocorrente, beirando o Pardo, rumo aos alvores do tempo-a-caminho-está.

     Proêmio aos deuses da escritura e do discurso!
     E, só então, adentremos na morada euclidiana: São José do Rio Pardo — sertaneja casa dos Átridas. Versos ornamentam o panteão das letras: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”.
     Na tela estendida do século XXI, “do alto da Serra de Monte Santo atentando-se para a região”, contemplemos o mundo, espetáculo high-tech delineado virtualmente. Trata-se de um desmedido anfiteatro, de erosão, na borda do chapadão, e “o contraste é empolgante”.
     Palco construído e apresentado: Admirável Quadro Novo! World Wide Web! Supershow planetário! Cultura e tecnologia: Luzes! Guerra-simulacro! A imagem nervosa do mundo, a erodida “Aufklarüng” em escala planetária. Galáxia em expansão, constelações de imagens, imundície de contrastes, disseminações dos arbustos artificiais nos erosos jardins das Musas: portais, signos flutuantes, links, campos de conexões cruzadas, bordas, flores virtuais...
     Entretanto, para anunciar a circularidade, oportuno é recordar: “os que morrem renascem em feitos, em monumentos, em casas, em livros” (Donald Schüler), habitações da leitura, e Os sertões reflorescem.
     Na revolucionária Canudos, ressoa os ecos de rumores da língua, mistura de pedaços de falas a protestar. E, estranhos à Galáxia de Gutenberg, sertanejos, garimpeiros, jagunços e rudes vaqueiros provaram da sua crueldade na publicística euclidiana em curso... Ao grito Thalassa! Thalassa! convite à flecha e ao escudo da “paidéia” homérica, Euclides da Cunha responde com o eco da turba fanatizada: vivas ao Bom Jesus e ao Conselheiro! Guerra Santa! “E silvos estridentes de apitos de taquara, desdobrada, ondulante, a bandeira do Divino, erguidos para os ares os santos e as armas....”
     Conexões de passagens. 2001: nossa época parte para a exploração de nossa Galáxia. Escudos virtuais, espaciais, flechas em forma de mísseis, de ogivas nucleares. As revoluções técnico-científicas contribuem para sofisticar o ofício de salvar ou deletar. Saltemos do presente ao passado recente e, das páginas da tensa configuração do labiríntico hipertexto benjaminiano, a experiência de um choque provocado pelos acontecimentos tecnológicos da I Guerra Mundial: “uma geração que ainda fora à escola num bonde puxado por cavalos viu-se abandonada, sem teto, numa paisagem diferente em tudo, exceto nas nuvens, e em cujo centro, num campo de forças de correntes e explosões destruidoras, estava o frágil e minúsculo corpo humano” (Walter Benjamin).
     De uma rede conceitual filosófica a outra, fora da aula e dentro da multiplicidade do mundo, colhendo signos da rede técnica de transmissão de dados da década de 50, a professora e filósofa Hannah Arendt, discípula da Bildung (Paidéia grega = formação, configuração) — ou do “testamento socrático alemão” —, é surpreendida, mesmo sem dar crédito excessivo à futurologia, pela antevisão de uma outra realidade. Anunciavam os caracteres da manchete jornalística: “A humanidade não permanecerá para sempre presa à terra” (A Condição Humana).
     O passado também foi cheio de transformações e novidades!
     Saltemos do passado ao presente. Tecnologia hodierna: os espaços se metamorfoseiam, veredas abertas, atalhos, “estríbulo tropel de cascos sobre pedras”. E, na reconfiguração do mundo desfigurado, desconcertado, à sombra de uma revolução digital, ecoa um ruidoso concerto. “A revolução seria mais uma repetição que muda algo, uma repetição que produz o irreversível”, proferem os teóricos da aventureira transversalidade das identidades em mutações (Félix Guattari e Suely Rolnik). A revolução é um processo que nos tira da repetição, das mesmas significações; ela não pode ser programada. As revoluções são imprevisíveis, assim como a História, elas sempre trazem surpresas.
     Apocalípticos e Integrados: duas posições, dois trilhos de trem que nunca se encontrarão. Surpreendidos, em rede, os profetas massmediáticos transmitem os seus temores quanto ao devastador ataque do bug do milênio, à quebra generalizada da bolsa eletrônica da chamada nova economia. Bomba informática! Ciência do extremo: “Civilização ou militarização da ciência?” (Paul Virilio).
     E, em partículas de linguagem semiótica, da “Summa” ao “Finnegans”, em obra aberta, o professor Eco (nem entusiasta nem pessimista, mas realista) constata e responde: “_ A Internet é a revolução do século. O computador e a Internet são a verdadeira revolução do século!” (Umberto Eco).
     
     Sertões paulistas, descampados mudos. Refluxo para o passado: terra ignota coberta com folhas de vastos cafezais. Mudados os tempos. Fluxo para o futuro: fitando na história, dos muitos pontos da Ponte Euclides da Cunha, façamos ponto no presente. Fixemos nosso rumo. Em caminho para a Educação do novo milênio: reabrir atalhos nos Sertões desterritorializados! Travessia. O estouro da boiada. Palavra ampliada. Trilhas multívias. Desprovincianização. Suportes de sustentação. Territorialização. O propósito de compreender a realidade: clarificações da cena cultural e educacional. Em semanada, em jornadas, as operações de virtualizações: um redemoinho de artigos e rodapés. Conjunto de textos, debates, folhas volantes, remissões, ecos das idéias de quaisquer textos, mini-cursos, pontes, conferências, atualizações conceituais, seqüências associativas, seminários, portais, comandos computadorizados. Hipertexto criado pelo leitor e pelo autor. Passagem de conexão. Palimpsesto: raspagem do texto anterior. Letras impagáveis, escritas anteriores: “I Congresso Regional de Educação: Educação, Ciência e Profissão”. O espaço do calendário: 2000... São João da Boa Vista é tela, é cidade-texto. Desengate da temporalidade do relógio: três passagens. Cidades palimpsésticas. Um triplo palimpsesto. As folhas estão virtualmente presentes na semente: Mococa, São João da Boa Vista e São José do Rio Pardo. Virtual (do latim “virtualis”) responde com “virtus”, com força, com potência. Êxodo: desertos, odisséias, campos virtuais, novos espaços, novos tempos, novas velocidades. Desengate do espaço do relógio. Fixemos o instante! 2001: “II Congresso Regional de Educação: a Formação do Professor e a Revolução Informacional”, São José do Rio Pardo... riocorrente.
     Não é possível avançar melhor para o futuro. Aprendemos com os mortos, deles somos herdeiros. É nosso o comando da navegação. Salvemos as gerações futuras!
     Ergue-se a bandeira da Ópera Aberta!
 

* Dedico à educadora Maria Eugênia Castanho, que observa e procura juntar, com carinhosas palavras de incentivo e lágrimas de admiração, os fragmentos acumulados e originários das colisões, por vias eruditas, provocadas pelos meus intercorrentes exercícios intelectivos.


   

....................



                    JUSTIFICATIVA



“Noventa e cinco por cento do que está sendo apresentado como material educativo é transposição de páginas de livros para páginas em HTML (formato adaptado à Internet) (...). Por isso, deixa-se de lado uma das vantagens da rede de computadores como ferramenta educacional”.
(Eduardo Chaves, professor de tecnologia na educação da Unicamp e membro da Associação Brasileira de Educação à Distância. Entrevista concedida ao “O Estado de São Paulo”. São Paulo, 3 setembro 2000, Caderno Geral, p.A17)


“Numa favela do Rio de Janeiro, o garoto Ednilson Bezerra tem aula de Internet na escola de uma organização não-governamental”.
(“Revista Época”. Mundo Digital. Março 2001)



     No mundo contemporâneo globalizado, com a emergência de infinitos instrumentos técnicos (tecnologia de ponta, computadores, informática, linguagens-máquinas, memórias dinâmicas, Internet etc.), novos modos de relações se estabelecem em nossas vidas. O nosso presente passa por mudanças constantes e velozes. A Era da Virtualização traz o fim da lógica das fronteiras. Nesta nova configuração do mundo social altamente tecnificado, o conceito periferia-centro está abalado e o capital relevante hoje é o conhecimento. Nesta Era do Conhecimento, dependendo do nosso grau de integração no processo global, as nossas decisões podem ser tomadas de qualquer ponto do planeta. Diante disso, parece que tudo passa a exigir novas maneiras de raciocínio, de reflexão. Mas, se por um lado, a revolução tecnológica pode mudar os meios de execução, por outro, as nossas responsabilidades continuam as mesmas. Nesse caso, é preciso parar de fingir que nada está acontecendo, pois, em tempos de novas condições de produção de conhecimento e de elaboração de cultura, há urgência de planejar uma agenda ou um plano de ação para o educador.
     O “II Congresso Regional de Educação” — evento sediado na cidade de São José do Rio Pardo e organizado pela iniciativa de três instituições de ensino superior: FEOB, de São João da Boa Vista; IESMoc, de Mococa e FFLC, de São José do Rio Pardo — tem por objetivo reunir um grupo de especialistas em educação para analisar o tema “A Formação do Professor e a Revolução Informacional”, visando construir uma agenda para o educador que o habilite, por meio de instrumentos intelectuais (talvez ainda não disponíveis!) indispensáveis, a refletir sobre e como a força de transformação das novas tecnologias da informação interfere e afeta a formação do professor e a transmissão dos conhecimentos ao longo do processo educativo.
     Pensadores e estudiosos do contemporâneo já comparam a Internet à revolução da imprensa promovida pelos tipos móveis de Gutenberg, lá no distante século 15. Cá, em meio à atual multiplicação das máquinas informacionais, é sempre difícil avaliar com propriedade, mas a analogia parece proceder. Embora a máquina desenvolvida pelo inventor alemão não tenha alterado a escrita, pois apenas a aprimorou, permitindo-lhe uma difusão não imaginada, é fácil afirmar que os tipos móveis gutenberguianos mudaram o curso da história ocidental e mundial. Da mesma forma que a imprensa dispensava o trabalho do copista, a Internet, secundada por outros avanços tecnológicos, elimina barreiras físicas, geográficas e históricas na divulgação do conhecimento. Em entrevista concedida ao jornal “Liberátion”, em janeiro de 2000, do ponto de vista do escritor, ensaísta e professor Umberto Eco (referência atual em assuntos de novas mídias): “Antes da invenção da prensa de Gutenberg, uma criança não podia ler manuscritos. Hoje, com a Internet, podemos saber coisas que os nossos ancestrais levaram uma vida para aprender”. Nesse sentido, o que se observa é que uma das mais fortes repercussões da revolução tecnológica que assistimos recai sobre a educação e, por conseguinte, surgem os novos desafios para a ciência educativa em todos os níveis de ensino.
     Em retrospecto, repondo os traços vigorosos da reflexão ensaística — porque circunstancial — atinentes ao tema (e já pelos idos dos anos 80!) do filósofo francês Jean François Lyotard, lemos o seguinte: “a natureza do saber não sai intacta nesta transformação [do saber nas sociedades pós-modernas]. O saber não pode passar pelos novos canais e tornar-se operacional senão quando o conhecimento puder ser traduzido em quantidades de informação” (A Condição Pós-Moderna). Assim, consoante ao pensamento de Lyotard (e ainda seguindo os passos do professor francês para fazer a investigação dos acontecimentos mais recentes), para analisarmos melhor a nossa atual relação com a tríade saber-conhecimento-técnica nas sociedades informatizadas, a educação se torna peça fundamental.
     Diante de tal fato, dos polêmicos escritos filosóficos lyotardianos (mas de afirmativas seguras) surge desafiadora a posição do professor francês no que se refere a traduzibilidade do saber constituído com base nas novas condições da produção do conhecimento (em linguagem máquina) que povoam os cenários erigidos pela revolução tecnológica em nossa modernidade; ela se apresenta nestes termos: “As investigações acerca dessas máquinas-intérpretes estão já bastante avançadas. Com a hegemonia da informática impõe-se uma certa lógica e, portanto, um conjunto de prescrições que incidam sobre os enunciados aceites como pertencentes ao ‘saber’. Pode-se, desde logo, esperar uma forte separação do saber relativamente ao ‘sabedor’, qualquer que seja o ponto que este ocupe no processo de conhecimento. O antigo princípio de que a aquisição do saber é indissociável da formação (Bildung) do espírito, e mesmo da pessoa, cai e cairá cada vez mais em desuso” (A Condição Pós-Moderna).
     Nesse caso, o saber perde o seu “valor de uso” e se torna força de produção. Por conseguinte, indispensável à capacidade produtiva, ao mesmo tempo em que as novas tecnologias promovem a desterritorialização do saber (e aqui o saber não é mais “carregado” pelo “sabedor”, mas organizado e interpretado pelos educadores preparados para decodificar as novas linguagens que emergem do universo digitalizado), pode-se pensar, também, que o saber é a aposta maior na competição atual pelo poder mundial.
     Essas discussões que se abrem no mundo contemporâneo sobre os caminhos requeridos pelas novas tecnologias no âmbito da educação (é evidente que a amplitude do tema requer um espaço maior do que o determinado para a realização deste trabalho) visam mostrar como há muito mais a ser explorado além de simplesmente digitalizar os saberes e disponibilizá-los na rede mundial de computadores.
     Com base no que vai acima e, como procura enfatizar o professor Marcelo Araújo Franco — especialista em informática na educação da Unicamp — em coletânea de textos, técnica e conhecimento são coisas distintas. A rede de conhecimento não é uma funcionalidade tecnológica. Funções e algoritmos são ferramentas científicas e técnicas, conceitos são máquinas filosóficas (Gilles Deleuze). A informática trabalha com funções operacionais, e não com conceitos. Conceitos filosóficos nunca são suficientemente claros para se tornarem operacionais, daí a razão de grande parte do conhecimento revestir-se de noções indefiníveis e de múltiplos sentidos, conclui Franco (Revista de Informação e Tecnologia da Unicamp/ Versão disponível on line).
     Nesse caso, é preciso salientar que a educação não consiste no mero treinar ou no simples transmitir informações, mas consiste em formar pessoas. Embora esse debate perdure há longa data, vale aqui realçar as afirmações — imbuídas de Bildung e avessas ao “cientificismo” moderno — de Hannah Arendt desenvolvidas nas páginas admiráveis da obra Entre o Passado e o Futuro, a qual, além de apresentar a concepção arendtiana da educação, mostra as preocupações da filósofa quanto aos problemas que envolvem a crise da educação no mundo moderno. Desenvolvendo uma teoria de educação que implica no estabelecimento de uma ponte entre a ação educacional e a tradição, fundada na concepção de que a educação deve conservar a herança do saber e da experiência recebida do passado e transmiti-la às futuras gerações, segundo as palavras de Arendt: “o problema da educação no mundo moderno está no fato de, por sua natureza, não poder abrir mão nem da autoridade, nem da tradição, e ser obrigada, apesar disso, a caminhar em um mundo que não é estruturado nem pela autoridade nem tampouco mantido coeso pela tradição. Isso significa, entretanto, que não apenas professores e educadores, porém todos nós, na medida em que vivemos em um mundo junto à nossas crianças e aos jovens, devemos ter em relação a eles uma atitude radicalmente diversa da que guardamos um para com o outro. Cumpre divorciamos decisivamente o âmbito da educação dos demais e, acima de tudo, do âmbito da vida pública e política, para aplicar exclusivamente a ele um conceito de autoridade e uma atitude face ao passado.”
     Dentre os vários rumos que possam tomar as discussões que coloquem a ciência, as novas tecnologias e a educação no centro de nossos debates, procuremos sublinhar alguns pontos fundamentais elencados pelo professor-filósofo Pierre Lévy, em recente obra denominada Cibercultura, caso queiramos encaminhar qualquer reflexão que tome como tema o futuro dos sistemas de educação de formação na cibercultura ou, noutras palavras, com tudo aquilo que se relaciona com a vida digital. São eles:
1. Com a velocidade de surgimento e renovação de saberes e savoir-faire no cenário contemporâneo, a maioria das competências adquirida por uma pessoa, desde o início de sua vida profissional, tornar-se-á obsoleta no final de sua carreira.
2. Como a nova natureza do trabalho está diretamente ligada à comercialização do conhecimento, trabalhar, então, quer dizer, cada vez mais, aprender, transmitir saberes e produzir conhecimentos.
3. Levando em conta que o ciberespaço comporta numerosas tecnologias intelectuais, a amplificação das tecnologias intelectuais tende a modificar as numerosas funções cognitivas humanas. Desse modo, tais tecnologias intelectuais, objetivadas por meio de documentos digitais e compartilhadas entre numerosos indivíduos, aumentam, e aumentarão, cada vez mais, o potencial de inteligência coletiva entre os grupos humanos. Desse modo, é preciso pensar a respeito da lógica das máquinas.

     De outra parte, e seguindo o raciocínio de Gilberto Dupas em Ética e Poder na Sociedade da Informação, apesar dos grandes avanços da ciência no século passado, a sociedade informatizada que se avizinha ainda não conseguiu solucionar alguns dos problemas fundamentais das sociedades modernas: o desemprego, a violência, a crise do aparelho estatal são, dentre outros, os paradoxos que se instalam nas sociedades chamadas pós-modernas. Se por um lado, vemos o florescimento de novos recursos e um surto de criatividade e inventividade, por outro, disseminam-se as contradições do progresso, da inovação tecnológica e do desafio ético da atualidade, as quais se convertem, na medida em que demandam por ética e preceitos morais, nos desafios éticos propostos pelo mundo contemporâneo.
     Em breve, todos os dispositivos que ocupam espaços no mapa da tecnologia digital estarão conectados a tudo. A era industrial foi simbolizada pela máquina, mas agora, a base sólida de sustentação desse dispositivo está se desmaterializando. Todas as fronteiras se dissolvem. A velocidade da mudança está cada vez mais acelerada. O mais recente cenário é o sistema biológico, isto é, o mapeamento do corpo humano via projeto Genoma, capaz de identificar e decifrar o seqüenciamento dos genes que existem no DNA das células do corpo humano, armazenando essas informações em bancos de dados.
     Por fim, para que possamos enfrentar o novo século que se abre, precisamos revitalizar o nosso espírito inventivo, para continuarmos a elaborar novas formas de comunicar e novos estilos quanto ao atendimento das nossas necessidades e preferências. Somente a verdadeira inovação abrirá novos caminhos. Educação e treinamento já são sinônimos de Internet em empresas e universidades. E, antes de finalizar, uma mensagem aos navegantes: chegamos ao ensino global e os atuais currículos escolares engessados em conceitos de tempo e espaço já foram superados.
     



                        OBJETIVOS

     Não desejando que os educadores sejam apenas empurrados pelos ventos das novas tecnologias, mas, esperando e apostando que as pesquisas pedagógicas indiquem os melhores caminhos para a inexorável união entre educação e informática, em nossa agenda de discussões objetivamos dar ênfase aos seguintes tópicos:

. Compreender melhor as mudanças vividas pela educação em todos os níveis na contemporaneidade. As razões que davam sentido ao saber algo de cor estão desaparecendo. Uma educação voltada para a simples memorização de fórmulas e conteúdos já não cabe mais em um mundo que se transforma rapidamente em virtude da revolução tecnológica. Nesse sentido, a educação requer respostas rápidas e eficientes para seus problemas. O saber, na sua acepção mais original e autêntica, significa saber a que se ater. A solução para todas as áreas do saber necessita de profissionais que tenham uma visão integradora e global da realidade. A educação está mudando porque o professor deixou de ser um simples transmissor de informações; estas nos chegam todo momento por centenas de meios tecnológicos disponíveis até mesmo em nossos lares. Trata-se, portanto, de refletir sobre o papel do novo professor na qualidade de mediador na construção do conhecimento efetuada pelo aluno e de colaborador na promoção da discussão crítica da rede de informações disponibilizadas pelas novas tecnologias.

. Rediscutir o mito do progresso em nossa civilização tecnológica. As novas tecnologias compõem as cenas da vida contemporânea, chegando a ocupar todas as esferas das nossas existências. A tradição filosófica tem questionado a inevitabilidade da transformação da ciência em técnica e, nesse caso, a questão central é o componente irracional do poder tecno-científico quando dirigido por uma economia mundial entregue à sua própria sorte.

. Difundir o conhecimento a partir da integração entre a ciência e a tecnologia, procurando diminuir a distância entre a ciência e a especialização, visando, com isso, a desierarquização da ciência brasileira, rumo à sua comunicação com a sociedade. É contraproducente observar que, no milênio que se abre, enquanto temos a possibilidade de acesso a todos os saberes por meio dos  instrumentos oferecidos pela sociedade tecnológica, o fracionamento do conhecimento ainda tende a promover a formação de especialistas, mestres ou doutores em parcelas mínimas da totalidade do saber.

. Esclarecer conceitos e problemas atinentes ao ensino à distância. Incentivar projetos pedagógicos dirigidos ao desenvolvimento da educação à distância (EAD = forma de ensinar que possibilita a auto-aprendizagem). Viabilizar, com a mediação de novos métodos tecnológicos, uma forma de derrubar as barreiras intransponíveis do ensino convencional que impossibilitam atender as classes menos favorecidas e regiões do país desprovidas de ensino superior. Por extensão, o que significa ensinar para milhares mantendo a mesma qualidade de ensino dos cursos presenciais? Por outro lado, se a Internet amplia os horizontes da educação à distância (EAD), torna-se importante também refletir sobre as linguagens adequadas para veicular conteúdos e informações educativos por meio da rede que vem sendo gradualmente construída. Por conseguinte, se a Internet e a videoconferência têm dado um impulso poderoso e maior na disseminação dos cursos à distância, é preciso pensar, também, sobre os fatores que possam restringir a difusão da educação via Internet.

. Refletir sobre a formação do professor e sobre a utilidade e identidade das instituições escolares inseridas num mundo povoado pela tecnologia de ponta. A partir daí, é preciso perguntar como os professores e os estudantes, com as facilidades da Internet, devem filtrar e aproveitar a abundância de dados disponibilizados pelos novos instrumentos técnicos da Era Digital. Por conseguinte, é preciso perguntar, também, como construir o material didático para a Internet e como separar o joio do trigo nas pesquisas on line comprometidas com trabalhos escolares e programações de aulas.

. Transpor os limites do livro em formato impresso e refletir sobre o futuro do livro e da palavra escrita numa sociedade globalizada e digitalizada. Se, na era da informática, os “e-books” já funcionam como a salvação do livro na tela do computador, é preciso recolocar as questões fundamentais quanto aos meios para se obter o equilíbrio entre a eficiência das técnicas digitais e a qualidade do conteúdo dos livros. Como muito bem observou o escritor francês Gilles Lapouge, o e-book está apenas começando, temos séculos de “códex” e de livros de Gutenberg em nossas cabeças, as ondas de nossos cérebros ainda demandam papel, mas aos poucos novos hábitos irão estabelecendo-se e o livro eletrônico certamente progredirá. Por outro lado, redimensionando tais perspectivas, é preciso ainda perguntar se a Internet estimula o hábito da leitura, além de trazer a lume discussões que girem em torno dos novos rumos da leitura com a utilização dos suportes virtuais e das novas formas de experimentação artística a partir da imersão virtual de inúmeros usuários na rede mundial de computadores.

. Sublinhar a hegemonia das imagens no mundo contemporâneo na medida em que a imagem suplanta até mesmo o ser humano. Se a arte interpenetra-se, cada vez mais, com a ciência e com os avanços tecnológicos, como estabelecer o valor de uma obra de arte cuja imagem pode ser incessantemente atualizada ou reproduzida por meio dos sofisticados aparatos de reprodução tecnológica? Mais à margem dessa preocupação mercadológica, na convergência entre arte, ciência e tecnologia poderá surgir múltiplas manifestações pedagógicas. Com o avanço das novas tecnologias e seus instrumentos de reprodução e multiplicação de imagens, a antiga torre de marfim, que situava a arte como algo distante, foi demolida. Com isso, novos padrões estéticos e éticos ainda estão por vir e certamente já merecem urgentes reflexões.

. Destacar que o capital relevante nos dias de hoje é o conhecimento e que, com base nisso, as produções do conhecimento e de pesquisa são peças indispensáveis em qualquer agenda ou plano de ação que se estabeleça na área da educação. Compreender que o investimento em ciência e tecnologia é decisivo para qualquer país que pretenda acumular os benefícios trazidos pela revolução do conhecimento em curso no mundo. Além disso, refletir sobre os meios e metas da política científica no Brasil é tarefa de extrema importância.

. Refletir sobre as inquietações que dominam, em época de velozes transformações e numerosas incertezas, os meios educacionais a fim de gerar as reformas que preparem os cidadãos às novas necessidades do mundo do trabalho. Nesse sentido, quando nos referimos à nova educação profissional, pensamos que ela deve funcionar como um instrumento eficaz quanto a reinserção do trabalhador no mercado de trabalho. Diante do exposto, refletir sobre a adequação das escolas técnicas aos moldes da nova educação profissional, sobre os novos currículos que devem atender tanto o mercado nacional como às características de cada região, para que o novo modelo educacional possa adaptar-se às exigências dos vários setores produtivos da sociedade contemporânea.

 . Reivindicar uma autêntica política brasileira de ensino em todos os níveis, que, no momento, desafortunadamente, se encontra numa situação de marasmo (desde há longos anos!) e que não aponta para uma posição proeminente num mundo globalizado. Por extensão, discutir a integração ou os pontos de aproximação entre as universidades e as empresas, levando em conta o pouco estímulo à pesquisa no Brasil, visto que, histórica e economicamente, nunca houve uma efetiva correlação entre desenvolvimento nacional e geração de tecnologia.

. Fomentar a necessidade de reforma nacional dos ensinos primário, fundamental, médio e superior por meio de um diagnóstico agudo da situação educacional brasileira e que tome por base a capacidade infraestrutural já instalada, com o objetivo de adequá-la ao desenvolvimento tecnológico feito à escala planetária.

. Ampliar o alcance do ensino à distância, disciplinando o segmento no Brasil e visando melhorar a qualificação profissional, e incentivar a formação — via cursos livres — dos profissionais que pretendem desenvolver competências específicas, sugerindo material didático adaptado ao novo veículo de aprendizagem, isto é, o computador.

. Enfatizar a importância, num mundo complexo e dinâmico como o atual, das prefeituras municipais absorverem em seus quadros de assessoria os especialistas em diversas áreas do conhecimento, que podem dar uma contribuição inestimável no planejamento das cidades. Destacar a importância em se promover uma aproximação entre o ensino superior e o setor público municipal em virtude da falta de visão de certas lideranças locais, elemento que, aliás, tem aprofundado o hiato entre as administrações municipais e o ensino superior.


(1) Projeto elaborado pelo PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS, em 2001, por ocasião da realização do “II Congresso de Educação Regional”, sediado na cidade de São José do Rio Pardo, de 09 a 11 de Agosto de 2001.


NOTAS:
1) Texto de autoria do PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS, publicado no "Caderno/Relatório" do referido evento.
2) Editor responsável: PROF. Ms. JULIO WILSON DOS SANTOS.
 
 

                PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
  São José do Rio Pardo/ Mococa / São João da Boa Vista
                     INVERNO DE 2001

SÍLVIO MEDEIROS
Enviado por SÍLVIO MEDEIROS em 28/06/2006
Código do texto: T183932

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Sobre o autor
SÍLVIO MEDEIROS
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SÍLVIO MEDEIROS