Deus na visão de um homem comum (5ª Parte)

Com este questionamento sobre o contra-senso inevitável sobre a teoria da “misericórdia divina” termina Arthur C. Clarke o seu inquietante conto A Estrela.

Com seu romance The Positronic Man (no Brasil conhecido como O homem bicentenário), lançado em forma de filme em 1998, com o ator norte-americano Robin Williams no papel principal, Isaac Asimov lança-nos às investigações sobre a substância de nossa Humanidade criando um personagem-robô que, por razões desconhecidas, talvez por causa de um “defeito” nos elementos que formam seu cérebro e sua mente “positrônica”, começa a desenvolver um sentimento especial por tudo que diz respeito a Humanidades. Das artes as relações familiares, o robô, comprado como mordomo de uma típica família norte-americana do século XXI, em dois séculos de existência, herdeiro de parte da fortuna de seu patrão – que a ele se afeiçoa tratando-o mais como um autêntico ser Humano do que como uma máquina – transforma-se aos poucos, graças aos avanços da biotecnologia, também fisicamente semelhante a um ser Humano, tornando-se mesmo moral e afetivamente melhor que a maioria de seus criadores e reivindicando, finalmente, o direito de também morrer diante de uma Suprema Corte que, então, avalia a autenticidade de sua Humanidade e a legitimidade de seu pedido.

Muito em moda atualmente graças às questões que levantou em seu livro Brave New World (Admirável Mundo Novo, de 1945), Aldous Huxley polemizou sobre a legitimidade e eficiência de uma civilização cuja sociedade é tecnológica e laboratorialmente dividida por castas, graças à sistemática produção de seres cujas estaturas físicas, temperamentos e personalidades são providencialmente condicionados, dos tubos de ensaios aos berços, ao pleno gozo da “felicidade” – quer sejam eles simples serviçais ou representantes dos hedonistas “Alfas Mais”.

Em seu argumento, Huxley trata o fato de que o estado de “felicidade” é impossível de ser conquistado quando podemos gozar de nossa liberdade de escolha. (Aldous Huxley escreveu depois outro livro chamado Retorno ao Admirável Mundo Novo, um ensaio onde demonstrou que muitas das profecias do seu romance estavam a ser realizadas graças ao progresso científico no que diz respeito ao desenvolvimento da manipulação da vontade de seres humanos).

Nos capítulos 16 e 17 do Admirável Mundo Novo desenvolvem-se interessantes diálogos entre um personagem chamado “Selvagem”, representante e defensor de nossa cultura remanescente, e um dos Dirigentes do Mundo Novo – que providencialmente excluiu de sua cultura a Filosofia, a Arte, a Religião e, em conseqüência, “Deus”. E por quê? “Porque”, explica ele, “nosso mundo não é o mesmo de Otelo (personagem de Shakespiere) Não se podem fazer tragédias sem instabilidade social. Agora o mundo é estável. O povo é feliz; todos têm o que desejam e nunca querem o que não podem ter. Sentem-se bem; estão em segurança; nunca ficam doentes; não têm medo da morte; vivem na perene ignorância da paixão e da velhice; não se afligem com pais e mães; não têm esposas, filhos nem amantes a que se apeguem com emoções violentas; são condicionados de modo a não poderem deixar de se comportar como devem”.

Diferente da maioria dos habitantes do Mundo Novo, Mustafá Mond, Dirigente Mundial Regional da Europa Ocidental, conhece tudo sobre nossa cultura, mas mantém seus registros literários – entre eles a Bíblia – trancados em cofres, uma vez que proibidos como “uma coleção completa de velhos livros pornográficos”.

Inquieto com os argumentos perturbadores do Dirigente, o “Selvagem” pergunta: “Mas se o senhor conhece Deus, por que não lhes fala dele?”; ao que Mustafá Mond responde: “Pela mesma razão que não lhes dou Otelo: porque são velhos; se referem a Deus como era há centenas de anos. Não ao Deus atual”. “Mas Deus não muda”, replica o “Selvagem”. “Mas os homens mudam”, lembra-lhe o Dirigente, e então o Selvagem lhe pergunta que diferença isso pode fazer. “A maior diferença do mundo”, responde o Dirigente.

Sobre os avanços atuais da biotecnologia o professor George Steiner nos adverte para o fato de que “Processos como clonagem, transplante de órgãos e o desenvolvimento da vida in vitro inevitavelmente modificarão o próprio estatuto do sujeito e o da primeira pessoa do singular. Exatamente como os processos de implantações de eletrodos e terminais de fibra óptica no córtex. A partir de que ponto o indivíduo deixa de ser identificado como tal?”, pergunta ele sem, contudo, nos apontar qualquer caminho para uma resposta satisfatória.

Menos difícil que descobrir quem essencialmente somos, todavia, é descobrir o que nos torna maus. Na Bíblia judaico-cristã, em Romanos 7:14-15 lemos: “Quanto a nós, que cada um escave fundo até encontrar a raiz do mal que está em nós e a erradique de nossos corações. Ela será arrancada se a reconhecermos. Mas se não a reconhecermos, ela se aprofundará em nossos corações e produzirá nele os seus frutos. Ela nos dominará e nos transformará em escravos. Ela nos transformará em cativos, de modo que ‘não faço o que prefiro, e, sim, o que detesto’”.

Jesus, entretanto, tempos depois, segundo os registros textuais que se atribui a Lucas (9: 55), nos adverte que tudo isso ocorra porque ainda não sabemos, porque não sentimos de que Espírito somos.

Embora particularmente não concorde que sejamos essencialmente bons ou maus – já que, como também partes das expressões materiais da Vida (ou de “Deus”), nossa consciência não seja ontologicamente nem boa nem má – compreendo que existe em nós um potencial para o que denominamos “mal”, sendo esse potencial caracterizado por certa submissão de nossa razão aos desejos ancestrais responsáveis pelo desencadeamento de processos instintivos.

Assim, ao falar sobre “Aquilo”, “Aquele” ou “Aquela” sobre quem propus falar, ao tentar penetrar com sensibilidade e os recursos da inteligência e da reflexão em Sua Verdadeira natureza e dimensões, não devo me ater para emissão de expressões verbais ou, mais ainda no dia-a-dia, a atitudes que sejam propícias à manutenção daquelas ilusões que têm obliterado a grande responsabilidade Humano-existencial que, desde o nascimento, e ainda de forma um tanto inconsciente, aguarda ascender do mais profundo recanto de nossas equivocadas consciências à Luz.

Porque, pelo bem da Verdade libertadora – incômodo lugar-comum a vagar pelos séculos desde a fundação do mundo – precisamos reconhecer que tudo o que, com os maravilhosos recursos de nossa inventiva imaginação, e com nossa milagrosa capacidade de livre-arbítrio, tudo o que decidimos criar ou destruir sobre nossa fértil terra-mãe à realização de nossa civilizada Humanidade, da paz ou da felicidade, tem direta relação com os níveis em que se encontra nossa sensibilidade e nossa consciência.

CONTINUA