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O Amor é Cego

Passei um tempo pensando em uma coisa que um cara disse ontem, na fila de atendimento do médico, e não pude deixar de viajar profundamente. Eu não sei se vocês também costumam tirar várias e várias conclusões a partir de um fato abstrato, mas o que aconteceu ontem foi deveras curioso. Estando o nobre senhor na fila de atendimento, ele chegou pra atendente e perguntou pela Maria Auxiliadora. A moça respondeu que lá só trabalhava a Maria do Socorro. Então o cara disse: "Ah, tá. Enquanto uma Maria socorre, a outra auxilia". Sem graça, óbvio. Mas essa espontaneidade é justamente o que faz do brasileiro um ser fenomenal. Não posso dizer que conheço todos os povos, mas o Brasil tem, sem dúvida, um dos mais receptivos. Como é bonito ver essa simplicidade toda... gente que sofre mesmo, mas que do sofrimento arranca um sorriso. Gente que do pouco que ganha tira o sustento. Digo isso porque sei. Já dei aulas de catecismo para crianças do morro. Era bonito ver a molecada jogando uma bola (o catecismo era entre uma partida e outra; logo depois, tinha um grande lanche, gentilmente cedido pelo padeiro, que dava pães, manteiga, e leite). E era engraçado. A galerinha toda, com a bola nos pés, e muitos sonhos na cabeça. O menor deles era o melhor. Tinha o respeitado apelido de "Pepico". O candanguinho era impossível com a bola. Tinha os seus oito anos, e um sonho bem fixo: ser jogador de futebol, desses que param pra tirar foto, desses que participam de mesa redonda de domingo à noite, e ganham os kits da pastilha Valda. Era um garoto simples e correto, apesar de seu irmão, o Marão, estar trabalhando "em coisa errada", quando eu perguntava sobre a família dele. O tempo passou. A idade dele expirou, e ele teve que sair da catequese. Eu também saí. Alguns meses atrás, eu encontrei com ele. Imaginando estar ele já jogando em um grande clube, fui falar com ele. Tinha os olhos meio vermelhos, e estava com uma rapazeada meio estranha. Perguntei como ele estava. Sarcástico, respondeu que tinha abandonado o futebol, que tinha "mudado de esporte". Saquei na hora qual o novo esporte dele. Mas que merda. Mais um garoto cheio de boas intenções, que foi levado para o caminho da vida. O caminho da sua realidade.
Senti vontade de chorar, confesso. Foi chocante. A realidade dói mesmo. Tem muita gente por aí que não merece o quem tem. Pobre Pepico...
Eu amo o povo brasileiro. Amo e quero ajudar. Essas minhas lembranças só reforçam a idéia de dar aulas num cursinho comunitário. Tenho que aprender o máximo possível esse ano, para poder ajudar já no ano que vem.
O povo tá sofrendo. Sempre sofreu. Talvez esse senso de humor seja apenas um grande fatalismo. Já que não vai mudar nada, vamos beber uma cerveja e assistir à novela. E que se dane o déficit da balança comercial, a greve dos professores universitários, e todo esse mar de lama que ta na área.
Amo o Brasil.
O amor é cego.
Thiago Salinas
Enviado por Thiago Salinas em 02/07/2005
Código do texto: T30409
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Sobre o autor
Thiago Salinas
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 35 anos
40 textos (15564 leituras)
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Thiago Salinas