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Ilha Quadrada?

Recebi o seguinte email:

A nova campanha publicitária da Cervejaria Skol, A Experiência é extremamente anticultural e deveria ser retirada de circulação. No comercial, pessoas são levadas para "A ilha quadrada", onde é feita uma experiência. Pretende-se analisar o comportamento das pessoas nessa ilha, que tomarão apenas cerveja quadrada. O resultado obtido é que as pessoas passam a ouvir música clássica, enquanto na ilha redonda toca muito rock"n roll. Nada contra o rock, gosto muito. Mas a Skol quis dizer, em alto e bom som, que a música clássica é quadrada, careta, coisa de nerd ou idiota. O governo gasta milhões de reais anualmente para manter conservatórios e faculdades de música funcionando e para pagar salários de regentes e instrumentistas, tudo para melhorar a cultura no Brasil, levar a música clássica a todos os cantos e aproximar o povo do que há de melhor no mundo musical. Enquanto isso, porém, um grupo publicitário formado por pessoas ignorantes e sem cultura nenhuma, cria uma propaganda de cerveja exibida no horário nobre da televisão, denegrindo explicitamente a música clássica. Mesmo você que não costuma ouvir música clássica, pense pelo lado da cultura brasileira. Nosso povo já é tão ignorante, as pessoas facilmente tornam-se fãs de lixos como a lacraia, o belo e o dylon... Pense nos rios de dinheiro que o governo gasta incentivando a boa música, no esforço dos músicos que passam normalmente 5 horas por dia estudando seu instrumento. Infelizmente, com esse tipo de propaganda, todo esse esforço desce redondo pelo ralo. Conforme consultei no site da empresa, estamos apenas no primeiro episódio de A Experiência. Imaginem o que vem por aí. Seria o Teatro o próximo? Ajudem a impedir a exibição desse comercial. Assine e passe para todos da sua lista. Toda vez que a lista chegar a múltiplos de 50 encaminhe também para: skol@skol.com.br e leonardoferreira84@hotmailcom .

e tenho algumas considerações:

Assim que terminei de ler o email, me veio à cabeça, quase que imediatamente, lembranças do Império de Hitler. Adolph era apaixonado pelas artes clássicas, e tudo o que não gostava era tido na Alemanha como "arte degenerada". Tentou-se construir padrões que não existiam, mitos artificiais. Tentou obstinadamente esmagar as manifestações artísticas que tinha como hediondas, assassinando todo o processo de criação artística espontânea. Hitler chegou ao ponto de construir uma casa, em estilo grego, cujo objetivo era, em pouco tempo, transformar-se em ruínas, dando uma aparente sensação de uma história que simplesmente não existiu na Germânia. Claro que não vingou.
Os europeus inventaram seus instrumentos, inventaram o sistema temperado, com sua enarmonia, inventaram suas danças, sua música. A música que aqui chamamos de clássica é absolutamente tradicional por lá, pois eles viveram (e vivem) aquela realidade. Governo nenhum tem o direito de investir o dinheiro que for e tentar "inventar" essa realidade no Brasil. Soa tão louco como Hitler e seus mitos. Se o governo gasta milhões em conservatórios e salas de concerto, não é para "melhorar a nossa cultura", mas para diversificá-la, e prestigiar a formação de músicos eruditos, estudados, cujo legado clássico nos é recebido com prazer, e assim transmitido. E isso trespassa gerações, e assim será.
Um músico não precisa estudar música, não precisa ler e escrever partitura, nem mesmo tocar algum instrumento sinfônico. Conheço muitos músicos espontâneos que me deixam boquiaberto, e muitos "eruditos" que não querem me dizer nada. Claro que o contrário também acontece, mas entenda-se que fazer música boa não é exclusividade de este ou aquele grupo. A arte vem de dentro, e sempre será capaz de emocionar aqueles que têm bom coração.
Se passo horas do meu dia estudando o meu instrumento, aprofundando-me em sua complexidade, apenas passo a admirar ainda mais o que é simples e belo. Fazer o complicado é, muitas vezes, mais fácil de fazer algo simples e contagiante. As grandes melodias românticas, que até o seu porteiro assovia, são extremamente simples. O virtuosismo sempre foi tolerado, respeitado, admirado, mas nunca entendido e unânime. As coisas simples são capazes de trespassar gerações com imensa facilidade... e chegar aos ouvidos mais diversos, nas mais variadas épocas.
Ouvir música clássica não é obrigação de ninguém; apreciá-la não nos torna mais ou menos quadrados ou redondos. Eu adoro a música clássica, mas me nego a dizer que, pra música ser boa, de qualidade, tem que possuir instrumentos de orquestra. Isso é uma grande bobagem. Sou mais Heart-Shaped Box, do Nirvana, que muita baboseira orquestrada que aparece. Aliás, o que é "música de qualidade"? "Música verdadeira"?

Em segundo lugar, existe uma confusão muito grande com a palavra "cultura". Muitos tendem a associar costumes diferentes dos seus com sub-cultura, ou "falta de cultura". Não existe falta de cultura. Cada povo tem a sua, e se as pessoas mais pobres ouvem músicas que ofendem a classe média, a detentora dos valores morais da sociedade, e possuem vocabulário pouco ou nada atraente a um gramático, então são aculturizadas. Mentira. Eles apenas têm uma cultura diferente, valores morais diferentes, ambições diferentes, alcances diferentes. Logo, falar que o marketeiro não tem cultura não cola. Até porque não existe ninguém que entende melhor do gosto popular do que os publicitários, ainda que eles possuam cultura diferente da popular. Ninguém quer uma propaganda que não caia nas graças do povo, que não seja compreendida, que seja chata. E quem determina a validade desses comerciais é o próprio povo.
Embora eu ame a música como um todo, e gosto de dizer que não importa a que estilo pertence, entendo que as propagandas da Skol fazem uma gozação com outros modos de vida que não os aceitos pelos seus consumidores (a grande maioria dos consumidores de Skol são os jovens), e devo dizer que me amarrei na série da Ilha Quadrada. Até tirei no violão aquela música que eles cantam ("Nós somos jovens, jovens, jovens...") Como também me amarrei naquele sarro que a Audi tirou com a ópera. Vocês lembram? Achei engraçado, jovial, interessante. E, além do mais, o gosto popular é muito relativo. Garanto que, se a propaganda da ilha fosse há uns cinco, sete anos atrás, seria muito provável que o Rock redondo de hoje estivesse na Ilha Quadrada, e a galera da Skol dançaria Axé Music...
Thiago Salinas
Enviado por Thiago Salinas em 02/07/2005
Código do texto: T30413
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Sobre o autor
Thiago Salinas
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 35 anos
40 textos (15564 leituras)
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Thiago Salinas