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Se eu pudesse!
Alberto Caeiro


Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria o mais feliz momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...

Nem tudo é dia de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é, e assim seja... 


SE EU PUDESSE!




Arrastava e afogava nos mares do mundo
As tristezas que infestam as terras
Criadas ou aparecidas para certas coisas

Inauditas como homens-feras
Como feras que são mais certas e meigas
Do que muitos homens senhores patetas
Que pensam que sabedoria requer bibliotecas

Mas persistem de olhos fechados às coisas!


30/12/2002

Maria Petronilho
Enviado por Maria Petronilho em 28/11/2006
Reeditado em 28/11/2006
Código do texto: T304102
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Maria Petronilho
Almada - Setúbal - Portugal, 64 anos
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