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Os setenta e sete pecados capitais

        Setenta e sete pecados capitais? Não seriam apenas sete: preguiça, ira, gula, avareza, inveja, orgulho e luxúria? Bem, estes são  os oficiais, catalogados nos tempos medievais e interpretados pelas autoridades eclesiásticas.

A questão pode ser tema de acalorados debates. Por isso, a “priori”, devemos buscar uma acepção para o termo “pecado”. O Dicionário Michaelis define-o  como “transgressão de lei ou preceito religioso”, “transgressão de qualquer preceito ou regra”.  Por outro lado, descobrimos que, em Latim, “pecare” significa errar o alvo, perder o rumo, desorientar-se. Enfim,  basicamente a mesma coisa.

Desta forma, podemos entender que “pecar” significa não obedecer a uma norma prescrita e em pleno vigor. Significa “errar o alvo”.  Ou, então, segundo nosso entendimento, significa agredir, de qualquer forma,  a nossa própria pessoa, aos outros, aos demais seres vivos, à natureza, ao Universo.  Assim, todo ato que cause dano é um ato pecaminoso, nocivo,  figure ou não  no rol dos pecados oficiais. Por via de conseqüência, o número de pecados possíveis pode ser bem mais que sete, que setenta, talvez até mais que setenta vezes sete.

Até uma virtude pode tornar-se um pecado.  Por exemplo, a perfeição, ao transformar-se em perfeccionismo. A referida  virtude, em si, é louvável. Entretanto, quando levada ao extremo, torna-se uma mania, uma loucura. Novamente valemo-nos do Latim: “Summum jus, summa injuria”. Ou, em língua pátria: “Máxima justiça, máxima injustiça”.

        Assim, todos os exageros podem ser considerados pecados. Por exemplo: a pessoa que dedica grande parte do seu tempo à prática de esportes, esforçando-se em demasia, deixando de atender outros compromissos importantes. Neste caso, além de pecar contra sua própria saúde, pelo esforço exagerado, está errando por dedicar pouco tempo e atenção a outros setores, como família e trabalho. Desta forma, ao atender-se uma necessidade, de forma exagerada,  deixa-se de suprir outras necessidades.

        Ao considerarmos apenas os sete pecados capitais, é-nos possível extrair valiosas conclusões. Alimentar-se é algo absolutamente necessário, condição indispensável para a manutenção da vida. Também um prazer consagrado. Ao tornar-se um hábito exagerado, nocivo à saúde, transforma-se em gula, em pecado.

        No mesmo sentido, a preguiça. Descansar por período razoável, praticar a consagrada sesta após o almoço, dormir além da hora habitual num domingo ou feriado, é tudo muito salutar. No entanto, deixar de fazer o que deve ser feito,  deixar de satisfazer as responsabilidades, isto é transgressão das regras sociais, portanto, pecado.

        A emoção denominada raiva, ira ou indignação, é algo normal quando ocorre diante de uma agressão ou injustiça. Ao transformar-se em cólera injustificada,  agressividade excessiva, rancor e ressentimento, a ira torna-se pecado, pois, neste caso, está “fora de rumo”.

        Avareza significa apego demasiado e sórdido ao dinheiro, desejo imoderado de adquirir e acumular riquezas. Ao indivíduo mesquinho falta generosidade, grandeza de espírito, visão de progresso. Exercer o hábito da poupança é algo aconselhado, é uma atitude de bom-senso, uma virtude. Mas, perde-se o rumo quando o dinheiro é trancado a sete chaves, deixando de  circular e proporcionar o desenvolvimento da riqueza social.

        Inveja. A psicanálise a considera uma das principais causas de todas as doenças mentais. Sentir pesar e desgosto pelo sucesso e prosperidade dos outros é algo desprezível,  e causa um grande mal ao próprio invejoso.

        Amor-próprio, auto estima, auto-valorização são legítimas virtudes.  A dose equilibrada de orgulho que podemos ter de nossa pessoa, de nossos feitos, de nosso sucesso, é algo salutar. Deixa de ser uma virtude ao transformar-se em soberba, manifestação ridícula e arrogante de altivez. Quando provoca competitividade exacerbada, quando resulta em afastamento das outras pessoas,  o orgulho  figura no rol dos pecados capitais.

        Por fim, a luxúria. Um tema polêmico, sujeito a controvérsias. Ao tornar-se obsessão, a sensualidade transforma-se em lubricidade, lascívia, luxúria. Afasta-se do rumo correto, “erra o alvo”. De qualquer forma,  é uma questão muito delicada definir-se exatamente onde acaba a sexualidade normal, o sexo sadio,  e  onde começa a luxúria. O bom-senso, como sempre, é que vai mostrar o caminho correto.

        Ao finalizar, enfatizo: a temperança, o comedimento, o bom-senso, a sabedoria são virtudes que nos ajudam a determinar o rumo de nossas vidas, a trilhar o caminho sensato, a fugir dos “setenta e sete pecados capitais”.

Do livro: "A Arte de Viver"
Ramiro Sápiras
Enviado por Ramiro Sápiras em 23/01/2006
Código do texto: T102780
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Sobre o autor
Ramiro Sápiras
São Leopoldo - Rio Grande do Sul - Brasil, 76 anos
57 textos (192526 leituras)
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Ramiro Sápiras