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Herdeiros da Liberdade


ESCONDIDO ENTRE AS SERRAS... O QUILOMBO KALUNGA


São sete horas da manhã na Comunidade Kalunga e o café adoçado com rapadura está quase pronto... Ao redor do fogão à lenha, crianças com o prato na mão, mulheres terminando de fritar o biscoito, jovens e senhores tiram o primeiro dedo de prosa do dia. Daqui a pouco é hora de ir para roça, lavar o vasilhame no rio, torrar a farinha ou ir pra escola. Escondido entre as serras da Chapada dos Veadeiros, numa terra de 237 mil hectares, o quilombo Kalunga abriga mais de 4.500 pessoas.
Quem olha o mapa do Brasil ou viaja pelas rodovias asfaltadas nem imagina o que se esconde às suas margens. A Placa “Para o Vão de Almas, só carro traçado”, numa dessas porteiras antigas, é a entrada para um universo rico de histórias, tradições, festas religiosas e manifestações folclóricas. Em pleno Planalto Central, a 300 km de Brasília, está a maior comunidade remanescente de quilombo do Brasil.
É preciso pedir licença para entrar. Licença a todos aqueles que passaram por lá um dia, que andaram pelas serras e matas – testemunhas de muitas histórias. De um lado, as serras goianas, de outro, o Rio Paranã. Casas de adobe, roças, produção de farinha, cachaça e fumo, festas, raízes do mato, parteiras, homens, mulheres e crianças, luta pela terra, sobrevivência diária: um cenário e uma rotina que não podem ser modificados pelo olhar de quem vem de fora.
Para entender a história desse povo é preciso, primeiro, voltar lá atrás, quando no Brasil não havia estradas, nem liberdade. Eram meados de 1700 quando os Senhores Bartolomeu Bueno e João Leite da Silva iniciaram a colonização na região de Goiás (que foi sendo chamada de “minas dos Goiases” – nome de um povo indígena que vivia naquela região, onde havia muito ouro) provocando um processo de povoamento. As populações nativas entre outras, foram escravizadas, destruídas ou conseguiram fugir e procurar novo habitat.
Como precisava de mais mão de obra, os africanos foram levados para a província,  diretamente dos portos de Santos, Salvador e/ou Rio de Janeiro. Portanto, foram eles e os indígenas os principais elementos para colonização do Estado de Goiás, que nasceu como símbolo do ouro e da garimpagem. Mas os escravos continuavam sendo maltratados e sonhando com a liberdade.
E pagaram o alto preço da liberdade, muitas vezes deixando para trás parentes e amigos e encarando um caminho incerto. Esconderam-se por muitos anos em serras e vãos de difícil acesso. Foram para um local desconhecido, já habitado por alguns indígenas, que com o tempo, os ajudaram a conhecer melhor o novo território. Eram os indígenas das tribos Acroá, Capepuxi, Xacriabá, Xavante, Kaiapó, Karajá, Avá-Canoeiro. “Eram os nossos compadres, sabiam direitinho quando ia chover e quando que não ia. Se no caminho tinha cobra, tinha onça...”, relembra o Sr. Dermetrino dos Santos, morador antigo do Vão de Almas. Ele é o primeiro personagem dessa história, que vai apresentar crianças, mulheres, homens, jovens... famílias inteiras que simbolizam quase 300 anos de uma luta diária pela sobrevivência.
 Uma gente que se acostumou e se ambientou com o sertão goiano, vencendo as dificuldades do caminho e as condições precárias que o ambiente sempre ofereceu. E mais do que isso, que aprendeu a conhecer a natureza e a utilizar os recursos disponíveis para reconstruir a vida. Chamaram este lugar de Kalunga, o que na língua banto também significa lugar sagrado, de proteção. Com um nome que significa tanto para eles, aprenderam principalmente, a respeitar aquela terra. Começaram a observar o melhor tempo para plantar e colher, a reconhecer a madeira boa para fazer embarcações, móveis ou casinhas de pau a pique. Descobriram que algumas plantas também eram como remédio e que dava para sobreviver na região da Chapada dos Veadeiros em contato próximo com a natureza, sabendo retirar dela apenas o essencial. “A gente arranca a mandioca e já planta no mesmo lugar. Tirou tem que devolver, não está certo?”, pergunta Dona Eva dos Santos, esposa do Seu Dermetrino.
O território, apesar das dificuldades de acesso, parecia perfeito para a fuga: muita serra, buritis e principalmente, rios. Entre eles, o grande Rio Paranã, que corta o território Kalunga e tem vários afluentes: Rio Prata, Ribeirão dos Bois, Rio das Almas (hoje, Rio Branco), Rio Bezerra, etc.
Com o tempo, os ex-escravos foram se distribuindo pelas encostas e vales do Rio Paranã. Hoje, são quatro núcleos principais de população: Contenda, Vão de Almas, Vão do Moleque e Ribeirão dos Bois. E todos são formados por pequenos povoados como Engenho, Diadema, Vargem Grande, Taboca, Tinguizal, Choco, Funil, Riachão, entre outros. Nomes que estão ligados ao dia a dia do povo Kalunga ou falam da sua relação com a natureza. Contenda, por exemplo, significa ”luta, esforço para conseguir algo difícil”.
Muitas histórias desses lugares foram perdidas com o tempo. Algumas foram reconstituídas pelos antropólogos e historiadores que buscaram fontes primárias e ouviram o que os mais velhos ainda sabiam. Embora sejam questionadas por muitas pessoas, a versão desses estudiosos é de que Contenda foi o primeiro povoado, seguindo por Sucuri, Vão do Moleque, Vão de Almas e Ribeirão dos Bois.

Uma gente que continua na luta...

Viver no Kalunga não é fácil se comparado com as facilidades do mundo moderno. Andar por lá, só a pé ou no lombo de mula. Sem estradas, o jeito é encarar as serra, os vãos, e seguir a caminhada, como eles fazem todos os dias para ir às roças localizadas próximas ou muito distantes das moradias. Com um território bastante arenoso, quando localizam uma boa faixa de terra para o cultivo, não se preocupam muito com a distância, pois sabem que é lá que poderão cultivar alimentos para o sustento das famílias.
Quem chega ao Vão de Almas vindo pela Serra Pula Pula, pede abrigo na casa da Dona Eva e do Sr. Dermetrino. Rezadores e benzedeiros, sempre viveram do cultivo da roça. O casamento, celebrado há quase 50 anos, foi “arrumado” pelo pai dela, na época com 19 anos. “Ele foi lá em casa e conversou com o meu pai. Passou um mês e eu casei mais ele. Nada, num conhecia ele não. Casei na fogueira e depois de 8 dias o meu pai me levou pra casa dele. Quer dizer, do pai dele, né. Que foi onde nós morou uns anos ainda”, me contou Dona Eva. Pra eles, pouca coisa mudou por lá. “Sempre trabalhei. E é muito!! Pode ser mulher, homem, menino, é tudo igual.  Está vendo essas rama aí? Eu busquei longe, mas longe mesmo. Lá no pé do morro do Migué”, conta ela, enquanto já descasca a mandioca para fazer a farinha.
E é assim que eles seguem a vida de homens e mulheres trabalhadores, que não se importam com a chuva ou com o sol quente para realizarem suas tarefas diárias. Com a mesma vontade que vão para as festas religiosas ou dançam a sussa, eles vão para o trabalho. E deve ser essa força a grande responsável pela dignidade do povo. Gente simples e muito humilde, mas com o coração maior que até o próprio território do Kalunga.


Com a benção dos Santos Reis, fartura o ano todo...

“O Santos Reis chegou
chegou na porta e parou
e foi dizendo boa noite,
boa noite, morador”

“Boa noite!”, responde o morador, que já preparou o café forte e a broa de mandioca para receber quem bate na porta.
“É a Folia de Reis! É a esperança da chuva, é essa festa bonita que gira de casa em casa, pedindo que Jesus Cristo abençoe a família e não esqueça da chuva, que é pra modo do milho crescer”, conta o Sr. Cassiano Rodrigues, folião e alferes da bandeira na festa da comunidade da Ema.
A Festa da Folia movimenta toda a comunidade. Nos dias que antecedem a festa, o assunto é só esse. Os homens deixam suas roças para ajudar no que for preciso. Uma turma de dez homens fortes se reúne para matar o boi, que vai virar jantar. Aliás, um delicioso jantar preparado pelas mulheres e meninas da comunidade.
Tão logo o sol se esconde no dia 1º de janeiro, começa a festa da “saída da folia”. É hora de agradecer as graças alcançadas e fazer pedidos para o novo ano. “Vamos pedir muita chuva. Com esse tempo seco, a roça não cresce. A gente planta, mas não nasce”, conta Sr. José Pereira das Virgens. Enquanto esperam os foliões, o principal assunto é sobre a chuva que está demorando a cair... “Ainda não chegou, mas hoje o meu cachimbo chiou. Isso quer dizer que vai chover”, afirmava a Velha Lió dos Santos, moradora do Povoado Ema. “Não sei não, ainda não apareceu vaga-lume. E já viu, quando aparece vaga-lume, é chuva na certa”, dizia outro que secava o fumo taboqueiro na chapa do fogão a lenha. E a discussão segue adiante... Até se ouvir os foguetes! É sinal que os foliões já estão chegando.
Em tom de festa e fé, os foliões são recebidos pelos donos da casa. O alferes da bandeira vai à frente, abrindo caminho para os outros foliões. Depois de muito canto e muita reza, as mulheres mais velhas se juntam para dançar a sussa, dança de origem africana que foi preservada pela comunidade. São elas quem puxam os versos, ao som dos pandeiros e violas dos foliões. “Levanta a saia, mulata. Não deixa a saia molhar. A saia custou dinheiro, dinheiro custa ganhar”, canta Dona Domingas dos Santos, enquanto convida as comadres para dançar também.
Depois das cantorias, é hora da janta em uma mesa farta. Os foliões são os primeiros a serem servidos pelos anfitriões. Satisfeitos, cantam então, o Bendito de Mesa, para pedir continuidade na fartura, agradecer e abençoar o alimento. E antes de ir embora, tocam a curraleira, com sapateados e cantorias, “como numa catira”, explicam. É a hora da brincadeira: cantam versos já conhecidos e ainda aproveitam para improvisar e convidar as mulheres para dançar a sussa novamente. A animação só termina quando o alferes chama todos para seguirem a estrada: é hora de montar as mulas e começar o giro da folia.
E cachimbo da Velha Lió não mentiu... Para alegria de todos, os foliões foram embora debaixo de uma forte chuva que caiu durante a noite toda...
Cavalgando pelo cerrado, os foliões passam a madrugada batendo de casa em casa... onde tudo volta a se repetir: saudação, benção da casa e da bandeira, o café, a broa de mandioca, a sussa e a curraleira. E eles voltam para o giro, até que o galo começa a cantar e pedem abrigo na última casa visitada, onde vão passar o dia. Lá é o pouso da folia, onde dormem em redes armadas na casa ou debaixo da sombra das árvores no terreiro. Os foliões são tratados com honrarias pelos anfitriões, almoçam, rezam e cantam até baixar a noite, quando seguem para mais um giro. E assim será até seis de janeiro, quando podem arrematar a folia.

Além da reza, a festa.

       Com a ausência de igreja ou da ida constante de um padre, o povo aprendeu a adotar maneiras próprias para demostrar a sua religiosidade. A principal delas são as festas populares, que têm um papel social na comunidade. Como a comunidade é dividida em fazendas distantes,  são nestas festas que parentes se reencontram, crianças são batizadas, namoros viram casamento oficial, lideranças locias encontram com representantes políticos e ouvem as reivindicações. “Eu venho todo ano, já moro em Goiânia desde menina, mas acho que tem que vir sim. É na Festa da Nossa Senhora da Abadia que relembro que sou kalunga de verdade. Nao quero perder isso não. E trago minha filha, para ela aprender também”, afirma Irene dos Santos, que foi estudar fora quando tinha 8 anos. Também são nessas festas que muitos jovens conhecem seus futuros maridos e esposas.
As festas populares são as maiores heranças trazidas pelos primeiros moradores da comunidade Kalunga. Como eles vieram de vários lugares e chegaram ali em momentos diversos, algumas festas também são típicas de cada lugar.  A grande festa do Vão de Almas é o Império de Nossa Senhora da Abadia, e acontece em agosto. No Vão do Muleque, se comemora a Senhora do Livramento, em setembro. No mês de outubro é a vez da Senhora do Rosário, festejada no Tinguizal. No entanto, outras, como as folias, acontecem em praticamente todos os povoados.
Para o lavrador kalunga, as festas religiosas marcam momentos importantes do ano: as festas que são comemoradas em todas as áreas do território kalunga acontecem em Janeiro e Junho. Com a Folia de Reis, eles festejam o plantio e pedem chuva para o ano vindouro. E com Santo Antônio e São João, comemoram o fim da colheita e agradecem a fartura. Esse ciclo é tão importante que eles sempre procuram prever como será o tempo no primeiro semestre de cada ano.
Quando não é época de festa religiosa, os moradores também dão um jeitinho de se reunirem para dançar e brincar. “Pode ser no forró, no samba, nas músicas da igreja ou das folias. Eu gosto mesmo é de dançar e de cantar. Ninguém me segura! Vamos lá, vamos cantar mais uma aí”, grita a moradora Cida de Aquino para a irmã Deth Soares. Ainda jovens, elas moram na Comunidade de Ribeirão dos Bois e adoram uma boa festa. Aliás, alegria é a marca registrada desse povo.
Entre festas populares, passeios, partidas de futebol e conversas nas portas das casas, eles mostram que nem tudo é dificuldade. Apesar delas, a vida continua e os leva a cantar, dançar, rezar, conversar com os amigos e celebrar festas. E é deste mundo que eles fazem parte: onde o trabalho e a alegria caminham juntos. “Senão, não tem graça”, completa Cida.

No dia a dia com os kalungueiros...

 “Pode servir aí os moços. A comida é simples, só que foi preparada com carinho. Nosso café é café preto mesmo, tem um biscoitinho também. No almoço não tem carne porque não  está podendo matar o gado, não teve peixe. Mas está bom, não está?”, pergunta Dona Lió dos Santos, do povoado Ema, sempre preocupada com os amigos e parentes, que vivem por lá, jogando conversa fora e pedindo conselhos.
A culinária kalunga é feita do arroz, mandioca, farinha, milho, maxixe, quiabo, guariroba, feijão e carne de peixe ou de boi, sempre muito bem preparados nos antigos fogões à lenha. Não produzem legumes nem folhas e é raro ver um pé de alface ou chicória em seus terreiros. O cerrado é outra fonte de nutrientes que os kalungueiros aprenderam a consumir.  É dali que são extraídas as frutas, palmitos e raízes. É comum ver grupos de crianças pelas matas e beiras de rios em busca de cajá, manga, pitomba, pinha, cereja, murici, goiaba, araçá, entre outros. E sempre voltam pra casa com os bolsos e sacolas cheias. É uma festa!  Além dessas frutas, encontram os coquinhos, utilizados para produzir óleos e temperos para a comida: o coquinho da pindaíba serve para fazer óleo e o pequi para fazer conserva. O gergelim também é muito apreciado por algumas famílias, como na casa de Dona Getúlia e Seu Cirilo dos Santos, no Engenho. Ele é torrado e moído para fazer um tipo de mingau com leite, muito saboroso e nutritivo.
Os kalungueiros mantêm a tradição de “fazer a boca de pito” com o café, embora seja difícil ver um pé em suas roças e terreiros. Antigamente usavam as sementes de uma planta amarela do cerrado que eles chamam de “fedegoso”. Dele se fazia uma espécie de café. “A gente ainda encontra muito dela por aí, mas é muito amarga e não usa mais não. Mas antes, eles contam, era só o fedegoso mesmo”, conta Cida de Aquino, de Ribeirão.
O tabaco é cultivado em seus terreiros e preparados em casa. Ele vira o fumo de rolo, ou como é chamado por lá, “taboqueiro”. O mais velhos gostam de usar o cachimbo feito do galho da roseira ou de barro. É como um ritual, sempre na mesma hora. E muitos ainda utilizam o artifício para acendê-los. O artifício é um tipo de isqueiro rústico, que ainda é utilizado por eles. É o artifício, uma ponta de chifre cheio de algodão desfiado. Este algodão vira um braseiro quando cai em cima dele, a fagulha produzida com o atrito do ferro na pedra de fogo. O fumo é também usado em combinação com a cinza dos fogões à lenha para fazerem a higiene bucal. Os mais velhos, como o seu Piu Piu, morador do povoado Ema, ainda ariam os dentes com esta mistura. Também mascam o fumo como forma de aliviar a dor de dente. Alguns ainda fazem o “moído” ou rapé, à base do fumo e de outras ervas.
Como o povo Kalunga sempre conviveu em contato direto com a natureza, aprendeu a conhecer raízes, ervas e plantas. Assim, passou a utilizar a natureza como aliada para sua sobrevivência. O Sr. Dermetrino, de Vão de Almas, tem 75 anos e garante nunca ter ido ao médico, “Sempre uso remédio do mato e também é difícil de eu adoecer, graças a Deus. Todo dia de manhã eu tomo uma mistura com raiz de jalapa e nada de ruim me pega”, diz ele, que até hoje se vira com o que aprendeu com os antepassados, como, por exemplo, a lasca de chifre torrada e moída para curar dor de estômago. Se cheirar este pó, se alivia dor dce cabeça, completa ele, que acredita que as doenças de hoje chegaram junto do pessoal da cidade.
Bom seria se não tivessem chegado, mas já que elas estão por lá, não tem jeito de ignorar. Sabendo disso, as prefeituras das cidades mais próximas criaram um programa de capacitação para agentes de saúde da comunidade. Assim, sem deixar de lado o uso das raízes do mato, o povo Kalunga vem utilizando os novos recursos para melhorar o próprio dia a dia.

E o território Kalunga começou a ser descoberto...

Assim como no tempo antigo, a história atual dos kalunga continuou sendo de lutas e inquietações, mas também de muitas conquistas importantes, principalmente com relação à terra, que um dia era toda deles. Depois, foi sendo tomada pelos grileiros e fazendeiros, que causaram muita confusão naquelas serras. A Velha Lió lembra direitinho dessas histórias... “Chegaram aqui, colocaram cerca como se fosse tudo deles. Um desses moços veio aqui em casa, quando fui ver, tinha um revólver. Eu fiquei foi brava. Daqui não ia sair. E aqui estou, até morrer, na minha terra Kalunga”.
Como explicar que a terra era deles, se ninguém tinha documento que comprovasse. A vida era tão simples por lá, que quando precisavam de sal ou de roupas de tecido, iam até Barreiras ou Belém do Pará no lombo do burro ou em pequenos botes. “Saía pelo Paranã, caía no Tocantins até sair lá cidade de Belém. Ih, mas demorava... saia no dia primeiro de maio e só voltava no primeiro de maio do outro ano. Lembro que era uma choradeira na ida e outra na volta. De tristeza e na volta de alegria”, lembra Seu Romão Vieira, que lembra já ter ido umas quatro vezes pra lá. Com tanta dificuldade, ninguém lá se preocupava em ser dono da terra, lutavam todos os dias para colocar comida em casa. Para eles, a terra era o lugar de convivência, para morar, trabalhar e viver. Não tinha esse negócio de propriedade, para produzir riqueza para uma ou duas pessoas.
Na década de 80, o povo que vivia tranqüilamente, foi encontrando uma série de problemas. Primeiro, cada dia chegava um grupo de garimpeiro. Além do ouro que ainda existia por aqui, havia muitos tipos de minerais... cassiterita, tantalita, manganês, cristal de rocha... Sem contar na brita, calcário e areia. Não demorou e chegaram as madeireiras, dragas e empresas produtoras de carvão. Então, o território Kalunga começou a correr perigo.
Durante muitos anos, o território foi alvo dessa gente que vinha de fora e colocava cercas, queimava casas e destruía a tranqüilidade de um povo bom. No entanto, em 2004, a situação parece finalmente se regularizar. Foi estabelecido um convênio entre Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), e o estado de Goiás para regularização fundiária das terras. A ação, que contará com recursos do MDA e do Incra, está orçada em R$ 19,3 milhões, sendo R$ 3,3 milhões relativos à contrapartida do governo estadual. Uma parcela de 100 mil hectares está ocupada por habitantes não pertencentes ao quilombola, que deverão ser retirados da área. São ocupações feitas por proprietários particulares, e nesses casos, está previsto o pagamento de indenização da terra nua por meio de Títulos da Dívida Agrária (TDA) e das benfeitorias, em dinheiro. A medida atende ao Decreto 4.887, de 20 de novembro de 2003, que definiu a política do governo federal para as áreas quilombolas.

Educação e energia elétrica: as novas conquistas

Há alguns anos, a comunidade Kalunga começou a ser “assunto” entre os governantes. “Queremos acabar com a pobreza, mas sem perder a nossa História”, afirma Ester de Castro, kalungueira e vereadora da cidade Teresina de Goiás.
Em meados de 1997, o morador Sirilo dos Santos Rosa, líder comunitário do povoado Engenho II, enviou uma carta ao MEC, pedindo uma escola Kalunga, por só assim, os jovens iriam permanecer na comunidade.  Entre 1998 e 2001, primeiros anos do trabalho do MEC, uma equipe visitou diversas comunidades negras e a comunidade ganhou, além de escolas em diversos povoados, um livro, um caderno de atividades e um encarte para o professor. A medida foi essencial porque a história começou a ser contada a partir das próprias histórias daquele povo.
Além disso, a comunidade Engenho, ganhou no início de 2004, as primeiras lâmpadas acesas. Para os mais velhos, essas novidades ainda geram desconfiança. Dona Lió acha que nada precisa mudar. “Nunca teve luz, nunca teve nada disso. Eu colho meu jiló fresquinho, se precisar de remédio é só sair pro mato e arrancar. E luz aí pra que? Eu durmo cedo, levanto com o sol e ademais, a candeia com a cera de aratim ilumina e ainda perfuma a casa”, afirma, enquanto acende o seu cachimbo. Para outros, é um sonho. No povoado de Diadema, a dona de casa Deth Alves, espera abrir um bar ou um salão de beleza.
De acordo com a pesquisadora Bernadete Lopes, atual diretora de Proteção do Patrimônio Afro Brasileira da Fundação Palmares, a instalação da energia elétrica ao mesmo tempo que leva informação e geração de renda para a comunidade, também pode interferir na preservação da cultura. “Agora, os kalunga poderão ter fábricas e pequenos comércios funcionando no local. Além de ter a informação bem perto deles, o que é essencial nos dias de hoje. Claro que isso acarretará em mudanças de hábitos, mas no caso dessa comunidade, a energia elétrica é vital”, afirma.
Assim, com 300 anos e uma natureza exuberante, a comunidade já está se tornando conhecida, principalmente entre os turistas. Esse é o maior perigo, porque, para muitos, é como se olhassem algo “raro”, fonte de turismo e dinheiro rápido. Sem o respeito que se merece. Sem perceber que nessa terra, é como se cada pedaço do chão e cada pessoa contasse, em silêncio, um pouco da história do povo brasileiro.



Aline Cântia
Enviado por Aline Cântia em 05/03/2006
Código do texto: T119097
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Sobre a autora
Aline Cântia
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 35 anos
4 textos (434 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/12/16 20:06)