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Comemorar o quê mesmo??

 
É incrível como coisas e pessoas tão pequenas tem a capacidade de destruir sonhos e desmanchar sorrisos.
É impressionante como alguns homens ainda batem no peito se dizendo machos perfeitos, desprezando seu semelhante e a capacidade de cada pessoa, especialmente quando esse semelhante é pessoa mais próxima dele e uma mulher, seja ela sua mulher sua filha ou só uma companheira.
Amanhã é dia Internacional da Mulher e muitos homens farão questão de nos estender as mãos, enviar um cumprimento, sem ter a noção exata do lugar que nós, mulheres, ocupamos ou devemos ocupar na sociedade, na casa ou na vida deles. São homens preocupados em fazer seu marketing pessoal, alguns só cumprimentam as mulheres da porta da sua casa pra fora, e muitos ainda falam só da boca pra fora que são companheiros, que aceitam o espaço e apoiam os projetos das suas mulheres.
As Marias inúmeras que levantam de madrugada para encarar um dia de trabalho puxado que não tem hora pra terminar, provavelmente só receberão os cumprimentos  pela televisão, se tiverem tempo de assistir.
As Joanas, as Ivetes, Lúcias, Déboras receberão o cumprimento da diretoria, dos colegas de trabalho; em casa, certamente ninguém vai se lembrar que ela é uma mulher, nessas datas só se lembram das atrizes, das modelos, das mulheres maravilhosas , inteligentes que aparecem na mídia, ou das lindamente produzidas, se lembrarão até daquela desdentada ou da índia que a mídia apresentar, mas a de casa não.
Algumas de nós só receberá o carinho das amigas, das companheiras de luta, das colegas de letras e de alguns poucos amigos.
Nem de longe alguma de nós pode aceitar que em pleno século XXI , ainda há mulheres que são obrigadas a fazer escolhas absurdas para continuarem a sobreviver, que muitas mulheres perdem a chance de crescer para cuidar das suas casas e de suas famílias, pela ausência ou pela inércia daquele que se diz marido o "chefe da casa". Há uma enorme crueldade que obriga muitas mulheres sufocarem seus sonhos em nome da sobrevivência.
 
Qual a maneira mais vil de atingir uma mulher? Chamando-a de velha! De inútil! A mulher mais produtiva e capacitada está na idade que mais almeja crescer como pessoa ou intelectualmente, é a mulher adulta que chamamos de mulher de 40, que na verdade vai daí pra mais. Mas para que ela consiga dar esse passo ela tem que vencer desafios cada vez maiores e que começam dentro de sua própria casa.
Muitas desistem porque é uma luta desigual, de um lado o companheiro, no papel de macho reprodutor, orgulhoso de sua espécie que deseja a "companheira" servil, obediente, doméstica, enquanto ela tem mais deveres, ele mais direitos,  do outro lado o mercado de trabalho, a sociedade, que não aceita a mulher madura porque já não tem as mesmas curvas ou a jovialidade estampada no sorriso. Não fosse pouco, ainda tem a mídia que dita a moda da mulher eternamente jovem; a mídia vende a imagem da mulher que nunca envelhece, que está sempre pronta pra uma nova lipo, uma nova técnica de rejuvenescimento, como se isso tudo se fizesse com alguns trocados.
Mas quem paga o suado sustento da sua casa? o aluguel, a água, a luz , a alimentação e deixa de gastar em seu benefício durante anos a fio para que seus filhos tenham melhores chances na vida, que cheguem a faculdade e até depois que se formem encontrem seus caminhos? Quem divide todas essas despesas ou muitas vezes é a mantenedora do lar?
Quem vai convencer essa mulher de que a sua vida não terminou quando seus filhos criaram asas e foram embora do ninho? Quem há de entender ou sustentar seus sonhos senão ela mesma, a custa de muitas lágrimas ou esforços herculíneos?
Nós mulheres não queremos favores, não queremos que nos abram portas deliberadamente para que passemos, mas queremos o direito de sermos pessoas produtivas enquanto tivermos vontade e capacidade para isso, queremos ser reconhecidas pelo nosso próprio mérito e esforço, assim como queremos ganhar o que realmente valemos e não um salário que não afronte um homem.
Queremos o direito de correr atrás dos nossos sonhos por mais bobos que sejam enquanto a vida ainda suspira dentro de nós.
Queremos e exigimos respeito de comemorar o dia da Mulher não só com palavras mas com atos e gestos. Difícil é aceitar comemorar esse dia quando só uma pequena parcela tem realmente direitos preservados, e a grande maioria entre elas, nós mulheres, só arcando com o deveres.
Queremos ser mulheres plenas onde, quando e como estivermos, seja lá com que idade for, e não só um protótipo para procriar, servir na cama e na mesa ou  servir de modelo para o deleite de egos e mentes deturpadas e egoístas.
Fomos criadas a partir de uma costela para completarmos os homens, para andarmos ombro a ombro e nada abaixo disso.
 
 
Carinhos de quem ainda não se sente livre o suficiente para comemorar o dia da Mulher.
Angélica Teresa Almstadter
Enviado por Angélica Teresa Almstadter em 07/03/2006
Reeditado em 08/03/2006
Código do texto: T120051

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Sobre a autora
Angélica Teresa Almstadter
Campinas - São Paulo - Brasil, 62 anos
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1 e-livros (247 leituras)
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Angélica Teresa Almstadter