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DO "GRAND HOTEL ABGRUND" À "ESCOLA DE FRANKFURT": apontamentos sobre o surgimento da Teoria Crítica

DO “GRAND HOTEL ABGRUND” À “ESCOLA DE FRANKFURT”: apontamentos sobre o surgimento da Teoria Crítica.





Autoria: PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, verão de 2006




     

     Em conseqüência da derrota alemã após a I Guerra Mundial, o rei Guilherme II abdicou e foi proclamada, em 1918, a República, em Berlim.
     A exemplo da Revolução Russa, durante esse período, nas grandes cidades alemãs formaram-se vários Conselhos Operários, pois, os efeitos da guerra afetaram, sobretudo, a complexa composição social alemã. As classes dirigentes encontravam-se solidamente unidas, numa coalizão de interesses.  Em face de tal diversidade, somente o Estado alemão poderia conter a crise social resultante dos abalos sofridos pela unidade política alemã no período pós-guerra. Assim, objetivando assegurar a ordem social, a República de Berlim habilmente aproximou-se do exército alemão que, apesar de possuir algumas restrições ao governo provisório socialista, esmagara uma revolução que eclodira na ocasião. Trata-se da tentativa de golpe, na cidade de Berlim, em dezembro de 1918, pelos radicais socialistas do “Grupo Spartakus”, liderado por Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo – ambos foram fuzilados e o movimento teve fim em janeiro de 1919. Consoante a filósofa Hannah Arendt:

“Com o assassinato de Rosa Luxemburgo e Liebknecht, tornou-se irrevogável a divisão da esquerda européia entre os partidos comunistas e socialistas; o abismo que os comunistas haviam descrito na teoria tornara-se o abismo do túmulo (...) a morte de Rosa Luxemburgo tornou-se o divisor de águas entre duas eras na Alemanha; e tornou-se o ponto sem retorno para a esquerda alemã...”. (Arendt 1987, p. 39)  (1)

     Contudo, apesar desses traços sinistros da jovem República socialista alemã, após o período de repressão, foi eleita uma Assembléia Constituinte, que se reuniu em Weimar, elegendo o Social-Democrata Friedrich Ebert a presidente da República. O principal mérito da Constituição de Weimar ou da República de Weimar foi o de firmar um compromisso entre o regime presidencial e o regime parlamentar, além de assegurar a unidade alemã.
     A recuperação econômica e financeira da Alemanha pós-guerra deveu-se, sobretudo, à moeda forte (Reischsmark) criada em 1924, bem como à remessa ao território alemão de abundantes capitais ingleses e norte-americanos, graças às relações da jovem República junto às bolsas de valores de Londres e de New York.
     Por meio da estabilização monetária, a indústria alemã foi reconstituída em bases mais sólidas. Em 1925, após a morte de Ebert, os partidos de direita elegeram Hindenburg, velho general monarquista, com considerável prestígio no exército alemão – agora, então, reagrupado.
     Por um lado, a vida política também se estabilizara. A melhoria geral das condições econômicas havia aplacado as oposições políticas. De outro lado, os nazistas perderam as eleições de 1928. Todavia, a Alemanha, profundamente marcada pelos conflitos sociais, ainda não estava assegurada contra uma nova crise. Contudo, embora a guerra tivesse sido perdida pela Alemanha, esta época desorientadora foi, paradoxalmente, propulsora na criação de uma atmosfera cheia de esperança, pois o colapso material sofrido pela Alemanha produziu uma reação vigorosa e favorável no campo intelectual.


DA CRIAÇÃO DOS INSTITUTOS À ESCOLA DE FRANKFURT

     À luz desses acontecimentos, a Revolução e suas conseqüências obtiveram muitas realizações. Dentre elas, destaca-se a criação - durante a República de Weimar - dos Institutos de Pesquisa Social, como, por exemplo, a “Kulturhistorische Bibliothek Warburg”, em Hamburgo; o “Instituto Psicanalítico de Berlim”; o “Duestche Hochshule für Politik”; o “Institut für Sozialforschung”, em Frankfurt (futura Escola de Frankfurt), além d’outros.   O que havia de especial acerca dos Institutos criados na República de Weimar era, acima de tudo, a alta qualidade da produção intelectual neles desenvolvida (2). Pertencentes ao que poderíamos denominar de uma comunidade real da razão (tais Institutos abrigavam grande número de intelectuais judeus favorável a uma modernice implacável – consoante expressão empregada pelo historiador Peter Gay in “A Cultura de Weimar”), saindo em busca da realidade por meio da ciência teórica, estes Institutos estavam voltados às indagações radicais, abertos às idéias impossíveis e não aceitas pelos praticantes revolucionários tradicionais e, inclusive, como já foi dito, preocupados com a investigação da realidade por meio da ciência teórica, tendo em vista o atraso industrial da Alemanha em relação, sobretudo, à Inglaterra e aos Estados Unidos. Em linhas gerais, qualificados enquanto centros de esquerdistas hegelianos (consoante filosofia de Hegel: contrapor-se ao mundo estabelecido pela crítica filosófica ou deduzir toda realidade mediante as idéias), e persuadidos de que Weimar era apenas um degrau para o socialismo, em linhas gerais, a retórica gerada nesses Institutos era a de que os alemães precisavam de “educação para a política” (3). Seus integrantes argumentavam que a população alemã encontrava-se carente de verdades políticas e sociopolíticas, necessitando, com efeito, de esclarecimento e de escolas livres das pressões do Estado alemão e de seus patrocinadores (4).
     O “Instituto de Frankfurt” ou “Instituto de Pesquisa Social” (5), como veio a ser chamado no período do exílio, foi fundado em 1922, por meio de incentivos procedentes de inúmeras doações particulares, além de ser afiliado à Universidade de Frankfurt; contudo, só começou, efetivamente, suas atividades na data de 22 de junho de 1924, consoante Martin JAY. Durante a palestra, por ocasião das festividades de inauguração, o “pai do marxismo” austríaco, Karl Grünberg, ressaltou a função do projeto - transcrito pelo historiador Peter Gay de acordo com o que se segue:

“O Instituto de Frankfurt não treinará servidores, mas estudantes do estado; enfatizando o papel da pesquisa e minimizando os papéis do ensino e do treinamento técnico, buscará não anestesiar a capacidade dos estudantes para a crítica, mas aguçá-la; ensinar-lhes-á a compreender o mundo, e, ao compreende-lo, mudá-lo...” (Apud GAY 1978, p.53)

     Karl Grünberg ainda acrescenta:

“Existem pessimistas no mundo, tagarelando sobre o declínio do Ocidente; mas existem muitos, e seu número e influência estão crescendo firmemente, que não só acreditam, desejam e esperam que uma nova ordem social venha, mas que estão cientificamente convencidos, de que esta ordem será o socialismo, e de que esta é a época da transição do capitalismo para o socialismo.”   (Idem, ibidem)

     Entretanto, paradoxalmente, Grünberg tranqüiliza os ouvintes, assegurando que a sua concepção de marxismo não estava comprometida nem com o dogmatismo nem com qualquer linha partidária, além de ressaltar que os futuros estudos seriam livres de qualquer despotismo teórico (6). Porém, as soluções às questões sociais prementes oferecidas pelo Instituto estariam enquadradas na linha marxista de pensamento.
     Contudo, tempos depois, quando Max Horkheimer assumiu a diretoria do Instituto, em 1931, o conteúdo programático alterou-se e o ritmo das pesquisas acelerou. Afirmando que Grünberg havia cultivado a história do movimento trabalhista, compilando, assim, uma “biblioteca esplêndida”, Horkheimer insistia que existiam novas tarefas à frente, e que o Instituto de Frankfurt não se renderia ao marxismo como afirmara Grünberg:

“A filosofia social deve caminhar além da mera disputa intelectual para tornar-se realmente efetiva. Isso só pode ser obtido através de uma mudança para a investigação empírica na qual os filósofos, sociólogos, economistas, historiadores e psicólogos se unam numa elaboração constante.”   (Apud Gay 1978, p.54)
     
     Sob a direção de Horkheimer, que escreveu uma ampla variedade de assuntos filosóficos, e auxiliado por um grupo de intelectuais de renome daquela ocasião – como, por exemplo: Eric Fromm, que buscou desenvolver uma psicologia social nas bases do pensamento freudiano; Henry Grossmann, que escreveu sobre o espólio de Marx; Leo Loewenthal, que desenvolveu estudos atinentes à sociologia na literatura; Herbert Marcuse, Walter Benjamin (na verdade, Benjamin teve mais uma relação de dependência financeira junto aos frankfurtianos do que propriamente afinidades teóricas), Theodor Adorno, dentre outros -, os frankfurtianos ministravam palestras nas dependências do Instituto, redigiam críticas literárias e produziam pesquisas, enfim, tratava-se de estudos que recebiam ampla difusão nos jornais e nas rádios daquela ocasião.
     O Instituto sobreviveu até a primavera de 1933, quando foi abruptamente fechado (em caráter temporário, pois viria a manter-se no exílio), em virtude da ascensão dos nazistas no poder. Em 1941, teve a transferência definitiva para New York, só retornando para a Alemanha entre 1949 e 1950.
     Para uma história séria desta plural corrente filosófica seria necessário que se estudasse as temáticas e as particularidades de cada um dos seus autores, mas, devido ao nosso atual propósito, no presente estudo devemos nos concentrar em colocar o acento sobre as principais análises teóricas convergentes no que se refere ao que elas enfatizam, renovam, constroem e formulam, em se tratando, sobretudo, da Teoria Crítica frente à política totalitária do nazismo alemão. Todavia, esses radicais de Frankfurt, diferentemente do filósofo marxista italiano Antônio Gramsci [1891-1937] - figura cultural altamente sofisticada e amigo da revolução - eram, em sua maioria, nascidos e educados no seio da alta classe média judia-alemã, e muitas de suas produções refletiam um certo desprezo pela cultura popular de qualquer espécie. Acrescente-se que já por volta de 1930, não vendo sinal de agitação social, tal grupo de intelectuais havia perdido toda fé no proletariado como força revolucionária. Não é, portanto, circunstancial o desaparecimento completo do tema da lutas de classes no programa traçado pelos integrantes do Instituto de Frankfurt. Dessa forma, esses teóricos, ligados dentro do pequeno círculo de estudos e desprovidos de ligações mais expressivas com as massas trabalhadoras, estão, certamente, bastante distanciados de uma das primeiras preocupações de Gramsci quanto à construção de uma cultura proletária. Se para Gramsci “todos os homens são proletários”, em diversos graus ou, mais exatamente, os intelectuais estão sempre presos à classe social de origem de duas maneiras, isto é, ou são “orgânicos”, representando, desse modo, uma força ativa e organizadora numa classe social determinada, ou são “tradicionais”, gozando de uma posição aparentemente acima das classes sociais, parece-nos que os teóricos da Escola de Frankfurt não teriam a menor chance de se tornarem “intelectuais orgânicos”, consoante concepções gramscianas.
     Não nos cabe examinar, no momento, em minúcias, o pensamento gramsciano, mas vale ressaltar que o proletariado, como Gramsci o concebia, deveria ser cultural e moralmente superior à classe burguesa, para, com isso, poder assumir o lugar da referida classe social no poder. Contudo, não ignorando a rica contribuição gramsciana no que se refere, sobretudo, à análise da categoria “intelectual”, é preciso salientar que a filosofia social frankfurtiana, na qualidade de Teoria Crítica, apresenta um campo argumentativo muito mais amplo, haja vista tornar-se nossa contemporânea neste início do século XXI.
     De outra parte, em que pese as diferentes idéias entre os diversos estudiosos que pertenceram à Escola de Frankfurt, unifica-os a crítica tecida contra a idéia de progresso, tanto em sua forma hegeliana como marxista, além da positivista. Os frankfurtianos insistem no caráter ilusório da idéia de progresso (que parte do pressuposto de que tudo o que o futuro nos reserva é o melhor); tratava-se de uma posição teórica pouco comum naquela época, daí os frankfurtianos receberem o epíteto de filósofos pessimistas.
       

CRÍTICA  AO PENSAMENTO HEGELIANO-MARXISTA

     Oposta à ortodoxia soviética e dentro de uma conjuntura marcada pela ascensão do nazismo, do stalinismo e da tecnocracia capitalista, a Escola de Frankfurt tematiza a dialética negativa liberta da filosofia da identidade e do universal, isto é, isenta de qualquer contaminação idealista provinda da metafísica hegeliana. Portanto, trata-se de uma proposta metodológica de busca da verdade acima dos determinantes sociais, consistindo especificamente na demonstração das falsas positividades nascidas no reino da razão, numa tentativa de superação da dialética hegeliana, e de natureza diferente da dialética marxista. Quanto a Hegel, a Teoria Crítica discorda da dialética hegeliana, visto que tal dialética impõe em definitivo a positividade da razão, a lei do progresso (há uma razão na História: “todo real é racional e todo racional é real”). Nesses termos, a razão hegeliana, compreendendo tudo, em última instância, absolve tudo. Nesse sentido, acompanhando a lógica deste raciocínio, e de acordo com os frankfurtianos, poder-se-ia justificar, tanto lógica como historicamente, uma definição de razão que incluiria a escravidão, a Inquisição, o trabalho infantil, os campos de concentração, as câmaras de gás, os arsenais atômicos e outros que tais. Desse modo, o ponto de vista fundamental dos frankfurtianos reside no questionamento da própria idéia de razão – ela deve se revelar como parcial e não como totalidade.
     Contudo, se é preciso superar Hegel, porque a dialética hegeliana impõe em definitivo a positividade da razão, do progresso, por outro lado, a Teoria Crítica (teoria que evoca a necessidade de uma crítica não apenas da sociedade, mas de toda racionalidade que recuse a noção de contradição em nome do princípio de identidade) proposta pela Escola de Frankfurt não concorda plenamente com a superação dialética oferecida pelo pensamento marxista, segundo o qual o futuro está sempre enraizado no interior daquilo que já existe. Muito embora a originalidade do pensamento frankfurtiano resida numa aproximação ou, em certos aspectos, até mesmo na continuidade da teoria marxista, enriquecida por influências teóricas distintas, a sua posição é diferente, pois seus adeptos adotam uma posição contrária ao marxismo enquanto teoria sistemática. Isto se explica em função das circunstâncias históricas em que a Escola de Frankfurt surgiu: ela surgiu tendo como pano de fundo as experiências terríveis e contraditórias da República de Weimar, do nazismo, do stalinismo e, mais tarde, da Guerra Fria. Diante de tais eventos históricos, a reflexão frankfurtiana aponta para o progressivo desaparecimento do sujeito revolucionário, contrariando a tradição marxista de pensamento, a qual deita raízes em tal conceito. Rompe-se, com isso, a fé na unidade entre teoria e prática, em relação ao pensamento intelectual radical, além da crença na prática libertadora do proletariado. Nesse sentido, falamos aqui de um conjunto de estudos que procura expressar a crise teórica e política de pensamento do século XX. Há, sobretudo por parte de Adorno e de Horkheimer, uma tentativa de realçar a dimensão crítica do pensamento marxista, porém contrária a qualquer tipo de transformação social, visto que, para ambos teóricos, a análise crítica deve recair sobre uma outra realidade, isto é, sobre as esperanças contidas, mas não despertas, no interior da cultura burguesa.


CRÍTICA AO POSITIVISMO

     Por seu próprio movimento a razão renuncia à razão: a preocupação dos integrantes da Escola de Frankfurt reside nesse movimento dialético da razão, ou na tendência da razão em renunciar a indagar sobre os fins substanciais, reduzindo-se numa simples faculdade de coordenação funcional entre os meios e os fins, a exemplo de uma máquina de calcular a fornecer juízos analíticos. Evidentemente, trata-se de um vigoroso confronto com relação à corrente de pensamento positivista (culto à ciência e à tecnologia) que, do ponto de vista crítico dos frankfurtianos, inaugura a barbárie moderna. Encorajando a submissão do espírito, ao que o positivismo nomeia de realidade, o pensamento positivista impõe-se, destruindo as esperanças da humanidade tal qual aquelas formuladas pela primeira vez pelos humanistas, visto que quanto mais o saber técnico desenvolve-se tanto mais o homem vê reduzido o horizonte do seu pensamento e de suas atividades, sua autonomia enquanto indivíduo, sua capacidade em resistir às técnicas invasoras dirigidas à manipulação das massas, sua faculdade independente de imaginação e de julgamento. Nesse sentido, a aperfeiçoamento dos meios de propagação dos ideais iluministas é acompanhado por um processo de desumanização, ameaçando seu próprio objetivo que, a princípio, tendia para a idéia de homem. Portanto, o pessimismo, a dialética negativa se impõe contra a positividade da razão, do progresso.
     Nesse sentido, a dialética é, com efeito, o cerne da linguagem filosófico-frankfurtiana. Com a Escola de Frankfurt, o pensamento é crítico. Em contraposição à Teoria Tradicional, os frankfurtianos preocupam-se com o eclipse do sujeito na objetividade das teorias tradicionais: o indivíduo particular é sacrificado a uma totalidade de um sistema mitificado (Hegel), à ciência objetiva (positivismo) ou ao processo histórico (Marx). Contra as três fórmulas da Teoria Tradicional, da subordinação do sujeito ao objeto, do particular ao universal, é que tanto Adorno quanto Horkheimer aferram-se à idéia de que o mundo tal como está necessita estabelecer critérios, recortes, conceitos, categorias, visando a criação de uma Teoria Crítica contra o pensamento normativo ou, noutras palavras, contra a  razão instrumentalizada.



NOTAS

1. Rosa Luxemburgo era adepta da revolução, porém acreditava que o movimento revolucionário deveria partir das massas. Dentre os ideais de Rosa, havia, também, o desejo da referida revolucionária pela democracia e pela expressão ampla e ilimitada da opinião pública, contrariando, dessa maneira, os próprios Sparticistas, que desejavam implantar na Alemanha uma República Soviética. Por conseguinte, o marxismo de Rosa Luxemburgo dava ênfase à liberdade individual, pública e em todas as circunstâncias, ao contrário do que havia ocorrido na Rússia, cujo líder revolucionário Lênin optara pela revolução violenta. Por esta ocasião, Sparticistas e Socialistas moderados entraram em confronto em todo território alemão e, por meio de um governo liderado pelos socialistas moderados, Rosa Luxemburgo foi assassinada, junto a Liebknecht, em 15 de janeiro de 1919.

2. Cf. Peter GAY. “A Cultura de Weimar”. p.44.

3. Idem, ibidem, p.53.
 
4. Sobre tal problemática, é interessante notar como o jovem Walter BENJAMIN, futuro teórico próximo do Instituto de Frankfurt, num de seus primeiros escritos, cujo título é “A Vida dos Estudantes” (1914), já antecipa tais discussões. No referido texto, Benjamin reflete sobre os vínculos profundos existentes entre o messianismo judeu, o romantismo alemão e a utopia libertária – que surge na Europa Central em fins do século XIX - mediante uma geração de intelectuais judeus cujas obras imprimirão fortes marcas na cultura moderna. Do entrelaçamento dessas influências ou correntes de pensamentos, resulta a crítica neo-romântica do progresso, sobretudo dirigida ao Estado vigente. Assim, consoante Benjamin: “Quem considera o Estado atual uma coisa estabelecida de uma vez por todas, à cuja linha de desenvolvimento tudo se subordina, deve repudiar essa idéia; contanto que não ouse exigir do Estado proteção e amparo da ciência.”
Com efeito, esse juvenil “anarquismo benjaminiano” é sugerido, sobretudo, pela afirmação de que toda ciência é estranha e inimiga do Estado. Em seguida, acompanhemos a crítica benjaminiana neo-romântica atinente ao progresso e ao conhecimento puramente técnico-científico, dirigida aos estudantes alemães daquela ocasião:
“A comunidade de homens criativos eleva todo estudo á universalidade, sob a forma de filosofia. Tal universalidade não se ganha quando se expõe questões literárias aos juristas ou questões jurídicas ao médico (como fazem alguns grupos de estudantes), mas quando a comunidade universitária se empenha antes de toda a particularização do estudo especializado (que só consegue se manter com vistas à profissão) e acima de todo funcionamento das escolas especializadas – em ser, ela própria, produtora e protetora da forma filosófica da comunidade, não nos termos limitados da filosofia de uma determinada ciência, mas em relação às questões metafísicas de Platão e Spinoza, dos românticos e de Nietzsche. Isso, e não visitas a Institutos de assistência social, indicaria a mais profunda relação da profissão com a vida, uma vida aprofundada.”
Esse documento contém várias das futuras iluminações de Benjamin, embora o marxismo venha a se tornar cada vez mais um componente de sua visão de mundo a partir de 1924.
   
5. Cf. Martin JAY. La Imaginación Dialéctica: una historia de la Escuela de Frankfurt. p.37.

Por outro lado, temos como princípio que a denominação de “Instituto de Pesquisa Social” (“Instituet für Socialforschung”) é bastante ambígua: “Instituto de Frankfurt”, “Teoria Crítica”, “Instituto de Pesquisa Social” ou, por fim, “Escola de Frankfurt”, consoante anotações das lições ministradas pela professora Jeanne Marie GAGNEBIN sobre o referido tema - no Instituto de Ensino da Linguagem (IEL-UNICAMP), em 11/03/2000 -, em primeiro lugar: a Escola de Frankfurt é sinônimo de Instituto de Pesquisa Social?; segundo: quais eram as pessoas que faziam parte do projeto?; terceiro: não houve escola no sentido de uma filosofia antiga, mas o encontro de diferentes doutrinas; quarto: a maior parte da produção intelectual da Escola de Frankfurt foi produzida no exílio; e, por fim: o nome “Instituet für Socialforschung” não é nada inocente, visto que se trata de uma tentativa de dizer que o primeiro impulso no sentido da fundação de uma escola de pensamento foi essencialmente alemão.
         Concedendo mais uma vez a palavra à professora Jeanne Marie GAGNEBIN, a fundação do Instituto data do verão de 1922, com a “Erste Marxistiche Arbeitswoche” (“Primeira Semana de Trabalhos Marxistas”), tendo como paisagem o “Grand Hotel Abgrund”, em Ilmenau, Turingia. De acordo com análise filológica de GAGNEBIN, a palavra “Grund” = o chão fundador, o solo, fundamento.  Por outro lado, a palavra “abgrund”, ou na versão francesa “em abîme” = o abismo, que significa “brincadeira” levada ao extremo; não há grande perigo na procura, mas há uma forte atração pelo abismo. Disto, concluímos: bela metáfora para expressar o território no qual o Instituto de Pesquisa Social é fundado, isto é, na temerosa Alemanha entre-Guerras.
Dentre os intelectuais presentes no “Grand Hotel Abgrund”, por ocasião da “Primeira Semana de Trabalhos Marxistas”, a qual funda o Instituto, encontravam-se Georg Lukács, Karl Korsch, Richard Sorge, Friedrich Pollok, Karl A. Wittfogel dentre outros, inclusive as várias esposas. Este grupo de intelectuais, reunido em torno da também conhecida “Semana Grande Hotel”, dado às convulsas razões históricas da Alemanha daquela ocasião – o partido comunista alemão, o social-democracia (o partido comunista alemão tem tradição própria: genuinamente alemã, porque rico, entre seus integrantes, de burgueses intelectuais e intelectuais progressistas, além de funcionários e burocratas pertencentes à antiga Monarquia!! diferente da “paisagem” da U.R.S.S; historicamente, a recente eclosão do comunismo na Rússia; a crescente ascensão do nazismo e do fascismo, além das várias tentativas fracassadas de revoluções em território alemão (a última: do movimento Spartakus, sob a liderança de Rosa Luxemburgo) –, revisita a tradição ortodoxa do marxismo, remontando à filosofia de Marx via Hegel. Nesse sentido, o primeiro esboço da “Semana Grande Hotel” é uma guinada teórica em relação ao marxismo ortodoxo, na medida em que os interesses teóricos deixam de recair sobre a economia e migram para a filosofia, em específico para os estudos de filosofia social ou para uma filosofia voltada às políticas culturais.

 6. Vale aqui ressaltar este aspecto da “Escola de Frankfurt”, o qual percorre toda a sua trajetória histórica. Referimo-nos à maneira como os franfkfurtianos trabalhavam os textos canônicos. Isto é, desde a fundação da “Escola...” sempre prevaleceu a liberdade intelectual da atuação plural entre as várias hermenêuticas no sentido de explorarem os referidos textos.




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


ARENDT, Hannah. “Homens em Tempos Sombrios”. Tradução Denise Bottman. São Paulo: Cia. das Letras, 1987.

BENJAMIN, Walter. (Org. Willi Bolle) “Documentos de Cultura/ Documentos de Barbárie”. São Paulo: Cultrix, 1986.

GAY, Peter. “A Cultura de Weimar”. Tradução Laura L. da C. Braga. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.

JAY, Martin. “La Imaginación Dialéctica: una historia de la Escuela de Frankfurt”. Versión española Juan C. Curutchet. Madrid: Taurus Ediciones, 1974.

LÖWY, Michael. “Redenção e Utopia: o judaísmo libertário na Europa Central”. São Paulo: Cia. das Letras, 1989.





SÍLVIO MEDEIROS
Enviado por SÍLVIO MEDEIROS em 18/04/2006
Código do texto: T140828

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Sobre o autor
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