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Preconceito lingüístico e social na sociedade brasileira


“A língua sem arcaímos. Sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros.”
(Oswald de Andrade)



O preconceito lingüístico, em sua origem, não deixa de ser um preconceito social. É através do uso da linguagem que cada um expressa suas opiniões e deixa claro qual é sua origem, suas crenças, o mundo em que vive. Por isso, através dessa imagem que é formada, surgem preconceitos – aparentemente lingüísticos, porém totalmente ligados a fatores sociais.

Uma mostra disso é que as variantes utilizadas por pessoas de classe social baixa são freqüentemente discriminadas. Alguém que fala, por exemplo, ‘probrema’, será considerado ignorante e terá de ouvir piadas, julgamentos e correções. Porém, tome-se o exemplo do verbo preferir. A norma culta pede uma determinada regência, mas na fala, em geral, usa-se outra. Mesmo que não esteja de acordo com a gramática normativa, seu uso já é tão freqüente que deixou de ser notado. Entretanto, isso só aconteceu depois que essa forma passou a ser utilizada por classes sociais mais altas. E são as classes de prestígio social que, de certa forma, ditam o que é correto e bonito na língua.

Além disso, ainda há a questão regional. Um falante do Nordeste brasileiro tem seu dialeto constantemente visto como algo engraçado, enquanto o dialeto do Sudeste é considerado “mais correto”. Coincidentemente, o Sudeste é uma região desenvolvida, urbana, onde funcionam grandes centros comerciais. Já o Nordeste é relacionado à seca, à pobreza e ao pouco desenvolvimento.

Outro exemplo de que o preconceito lingüístico está ligado à classe social é a Revolução Francesa: a burguesia tomou o poder, passou a ser a classe dominante e, junto com as mudanças sociais no país, a língua também sofreu mudanças. Ou seja, quem está no poder dita como a língua deve ser usada. E quem não utiliza as normas impostas é excluído política e socialmente.

É fundamental ter o conhecimento das variedades da língua, principalmente da norma padrão, para evitar esses tipos de exclusão; não só na hora de falar, mas para entender o que é dito e compreender o que está acontecendo com o país, já que a maioria dos políticos insiste em falar de maneira rebuscada.

O uso da língua é apenas mais um dos diversos instrumentos usados para controlar um grupo de pessoas. As más condições da Educação contribuem para que a população não consiga refletir sobre a situação de seu país, não se manifeste e tudo continue da mesma maneira. Por isso, é necessário que cada um tenha um certo domínio da norma culta, para que sua opinião seja ouvida e debatida por quem está no poder e, quem sabe, até mudar essa situação, já que a língua não é um meio de exclusão e classificação social, e sim um meio de comunicação que, independentemente da variedade ou dialeto utilizado, é sempre compreendida pelos falantes brasileiros.








ANDRADE, Oswald de. Obras completas – 7. 4 ed., Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1971. p.77

BAGNO, Marcos. A norma oculta – Língua e poder na sociedade brasileira. São Paulo, Parábola editorial, 2003.
Belisa dos Santos
Enviado por Belisa dos Santos em 30/05/2006
Código do texto: T165737
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Sobre a autora
Belisa dos Santos
Blumenau - Santa Catarina - Brasil, 30 anos
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Belisa dos Santos