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O PODER ABSOLUTO: Cap. 4 - Ética e Poder em Samoel

... oculto numa típica família do nosso tempo. Numa cidade qualquer!

Cena 1: Surge o sol numa árida manhã de outono. É muito cedo e a maioria do universo ainda não despertou. Mas Samoel já surge na Cozinha de sua casa, envolto num abrigo azul de linho cru. Ele cumprimenta alegremente sua velha e leal empregada Maria que como sempre faz, o espera de prontidão com o café na mesa. Maria é uma empregada dedicada e adora conversar com seu patrão. Samoel começa a tomar o café e comenta com Maria sobre as notícias do jornal.

_ Olhe Maria, a meteorologia previu chuva para hoje!
_ Mas com todo esse sol, seu Samoel? O céu está limpo.
_ Pois é! Mas temos um dia inteiro pela frente, Maria.

Samoel é um negociante de sucesso. Desde muito jovem teve de trabalhar duro e pouco tempo teve para os estudos convencionais. Com dificuldades concluiu um parco ensino médio, mas que foi suficiente lhe permitir trabalhar alguns anos como empregado de uma empresa estatal, após ser aprovado num concorrido concurso público. Neste emprego conseguiu acumular algumas economias à custa de enorme disciplina e sacrifícios. Mas, apesar de ter sido um empregado respeitado e mesmo tendo obtido progresso nas suas funções, Samoel não se sentia feliz nesse emprego. Não gostava da rotina de sua atividade, da burocracia estatal, e sentia-se aprisionado a um horizonte limitado. Não, decididamente, Samoel não havia nascido para aquilo. Aceitara-o, porque era a melhor alternativa para ele naquele momento de sua vida. Para ele, era apenas o caminho delineado pelos Deuses e assim que economizou capital que julgou suficiente para empreender um negócio próprio, ele desligou-se daquele emprego público.

O dinheiro que conseguiu economizar no tempo em que trabalhou como empregado do serviço estatal, Samoel investiu inicialmente, na compra de automóveis que procurava diligentemente em anúncios classificados. Os veículos que ele encontrava nesses anúncios, ele anunciava nos mesmos classificados onde encontrara sua mercadoria. Foi assim que ele iniciou uma vertiginosa escalada de negócios.

Inicialmente com carros, depois foi agregando outras mercadorias que identificava como oportunidades. Essa prática, que foi se repetindo diariamente, lhe possibilitou uma considerável acumulação de capital. Atualmente, além de Samoel continuar negociando informalmente várias mercadorias, também tornou-se um hábil investidor no mercado de capitais.

Essa fórmula de sustento de Samoel é bastante comum. Milhões de pessoas se utilizam como forma de sobrevivência, mas poucos, muito poucos conseguem fortuna. Samoel utiliza sua habilidade de negociação para obter preços compatíveis com seu objetivo. A ética e o poder dele nos negócios procede simplesmente de pesquisar, estudar, comprar e vender mercadorias que são necessárias às pessoas, suprindo assim suas necessidades prementes. Mas não é só isso. O método de seu trabalho de pesquisa de oportunidades, suas habilidades de negociação e sua dinâmica de vincular suas próprias necessidades pessoais e familiares ao suprimento das necessidades das pessoas com quem faz negócios, estabelece uma postura moral que o leva a agir de diversas maneiras, conforme o seu senso muito particular de justiça. Para Samoel, cada dia não é apenas mais um novo dia para exercitar seus dotes persuasivos. É principalmente, um novo dia de aprendizado e recomeço.

_ E o Joãozinho, Maria? Como vai indo na escola?

_ Esse guri é terrível seu Samoel, outro dia olhei os cadernos que o Sr. deu p’ra ele e estavam todos rabiscados, cheios de figurinhas ...

  Samoel sorri, ao lembrar de Joãozinho. Tem um carinho especial pelo menino: “_ Não se preocupe Maria, é da idade! ”

Samoel se compraz mais na satisfação das pessoas do que própriamente nos seus lucros monetários, pois que procura levar uma vida relativamente modesta, muito aquém de suas possibilidades, apesar de que, com conforto. Seus valores são claros. Primeiro, ele precisa suprir as necessidades de sua família, pois que ele é o provedor; Para isso, ele não confia em mais ninguém, e em momento algum de sua trajetória ele irá abdicar dessa responsabilidade. Sua Pátria é sua família, seus amigos e os seres que considera "inocentes". Em segundo, ele precisa estar bem consigo mesmo, e isso não significa que as pessoas tenham de gostar dele. Estar bem consigo, não é um processo de auto-estima ou vaidade. Logo, estar bem com ele mesmo, não depende dos outros.

Para isso Samoel não poupa esforços no sentido de ser justo na precificação de suas mercadorias, resguardando sempre seus objetivos tanto na compra como na venda de cada mercadoria que negocia. Em sua estratégia de negociação, sua consciência procura considerar sempre as necessidades de todas as partes envolvidas, tanto direto ou indiretamente envolvidos. Pois Samoel sabe que atrás de cada necessidade humana existe uma história ao mesmo tempo particular e ao mesmo tempo, coletiva. Uma história de causas e efeitos.

Apesar dele atualmente gozar de um excelente padrão de vida, isso não foi sempre assim. Mantém uma humildade que lhe é natural, pois que vem de suas raízes, e o sucesso nos negócios não deslumbra o seu interior. Parece que os sofrimentos, perdas e sacrifícios de sua vida pregressa são os vetores morais da sua ética e do seu poder, logo, suas experiências definem uma escala particular de justiça.

Sua humildade é tão latente que Samoel agradece todos os dias por seus “algozes”, pois para ele que nunca teve muito tempo para o estudo, na verdade esses “algozes” foram os seus verdadeiros mestres. Por esse motivo, Samoel procura manter um controle rigoroso sobre tudo que possui. Mas esse controle lhe proporciona uma satisfação e uma felicidade intrigante, pois Samoel exerce um domínio sobre si mesmo. Um domínio que exercita diariamente e que a cada dia o torna mais influente.

Estranhamente, Samoel tem uma estratégia peculiar em relação aos seus, no tocante à riqueza mateiral que possui, pois prefere manter oculto de todos a maior parte de sua fortuna. Parece que teme que a família seja influenciada por uma “riqueza" que considera que pode ser nociva aos valores que acredita. Para ele, o dinheiro é apenas conseqüência de suas ações, e um meio de auto-superação, pois que suas ações são delimitadas pelos “algozes” de seu passado de carências, dificuldades e necessidades.  Logo, Samoel disponibiliza aos seus, tudo que considera essencial às necessidades que considera importante, limitando a que considera menos importante à busca pessoal de cada um.  Seu planejamento considera que há um tempo necessário para revelação da verdade e por isso considera o ‘falso’ como se fosse um mal necessário para o reconhecimento dessa verdade.

Além do mais, Samoel teme a violência e inveja que cerca àqueles que possuem fortuna, numa humanidade onde o dinheiro é tão mal distribuido e as oportunidades são um privilégio para poucos. Por isso, considera esse segredo uma proteção à sua família. Uma blindagem à sedução que o dinheiro exerce sobre as pessoas.

Samoel teve e tem o poder de aprender com os revezes da vida. Mostra determinação incomum e coragem, além de um espírito desprendido de valores que não atendam as necessidades de todas as pessoas envolvidas no seu particular processo de juízo.

Mas para Samoel ter esse espírito desprendido, essa particular liberdade de juízo, e esse poder sobre a sedução que o dinheiro exerce sobre as pessoas, parece que há outra coisa, algo que oculto, como um segredo que ele mantém ciosamente guardado.

Um segredo eterno, somente percebido pelos iniciados, compreendido pelos mestres, mas jamais revelado!
Hector Di Leon
Enviado por Hector Di Leon em 04/06/2006
Reeditado em 04/06/2006
Código do texto: T169347

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Sobre o autor
Hector Di Leon
Pelotas - Rio Grande do Sul - Brasil
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Hector Di Leon