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O PODER ABSOLUTO: Cap. 6 - Os Filhos da Essência

Os filhos são a continuidade de nossa história. São os sobreviventes de nossa humanidade. Em seus corpos levam a história, e em seu espírito levam toda nossa essência.

 Juca entra correndo na sala de aula do cursinho. A aula de Biologia já havia iniciado, mas ele perdera a hora, pois encontrara os amigos na frente do prédio e havia se distraído do relógio. Juca senta-se e pensa, alheio à aula de Biologia.

Na frente do prédio encontrara os amigos comentando os resultados do teste vocacional que o cursinho havia oferecido a eles no dia anterior. Juca, não havia entendido o resultado oferecido pelo seu teste vocacional. Ele sempre quisera ser médico. Sempre teve ótimas notas em todas as matérias. Sempre fora um dos melhores alunos, destacando-se sempre acima da média. Impacientava-se apenas com as disciplinas de ‘humanas’, no entanto, seu teste vocacional era claro: Economia ou Administração. O instrutor do teste não deixava dúvidas quanto às suas alternativas. Seu teste não apontara nenhum ponto a favor da medicina.

“_O seu perfil profissiográfico não é o de um médico”.

Juca era ambicioso e muito vaidoso, mas quando algo não saia completamente como ele esperava, Juca costumava refletir. A dúvida lhe assaltara. Afinal, cresceu ouvindo sua mãe vangloriar-se perante as amigas dizendo o quanto se sentia orgulhosa do filho, e de como ele se destacava no colégio. Ele tinha tudo para ser um grande médico; Era inteligente, bonito, comunicativo, dinâmico e alegre, por certo ficaria muito rico nesta profissão, poderia ter tudo que quisesse, pois Juca sempre fora um sucesso. Prestígio não lhe faltaria em qualquer profissão, mas para Beatriz, Juca não poderia desperdiçar sua inteligência com cursos que ela considerava "menores". Sim, Juca deveria ser um médico para que sua mãe pudesse orgulhar-se perante a sociedade.

O poder e a ética de Beatriz se faz puntual na personalidade de Juca. Ele cresceu ouvindo isso. Mas, eis que o perfil de humildade ponderada e racional de seu pai exerce um poder que pode ser “salvador”, pois Juca pensa e reflete diante das contrariedades, e isto denota um poder particular diante da moral impregnada pelo poder de sua mãe.  Se somente houvesse a influência de sua mãe, provavelmente Juca não refletisse, e consideraria a avaliação do instrutor um erro e, talvez, prosseguiria com uma idéia errada que lhe fora plantada desde a infância, pela contraditória moral de sua mãe. Entretanto Juca ouve, pára e pensa. Reflete e pondera, ouve novamente e analisa. Isso, é indubitávelmente uma herança de seu pai Samoel.

Uma herança de valor imensurável.

 Enquanto Juca reflete, em outro extremo daquela manhã de outono, sua irmã Lila entra no ônibus que a levará à periferia da cidade. Após sentar-se junto à janela, fica a observar atentamente com os seus olhos expressivos, o movimento intenso das pessoas que sobem e descem do ônibus. Saboreia o ar da manhã ensolarada. Lila sente-se livre e feliz.

Lila pensa orgulhosa nas suas responsabilidades como professora. Para ela é uma grande missão poder influenciar vidas humanas em formação. Ao mesmo tempo sente-se temerosa diante de tamanha responsabilidade e esforça-se mentalmente na revisão da matéria, procurando visualizar a aula que preparou para o dia.

No entendimento de Lila, cada ensinamento, cada emoção, cada vivência absorvida pela razão se propaga infinitamente na vida de todas as pessoas, e isso requer dela uma imensa responsabilidade.

Ela está muito animada, pois falará à sua turma sobre seu filósofo predileto, Aristóteles. Passou o final de semana preparando essa aula, e estava ansiosa para entrar no seu "palco". Sim, para Lila, a cada vez que entrava em sua sala de aula e encontrava seus alunos ansiosos a esperá-la, era para ela como um espetáculo unico a cada vez. Era como se todo o Universo estivesse vendo-a e ela iria saborear cada momento vendo a reação de seus alunos quando ela falasse sobre a ética aristotélica.

Lila não havia ainda equacionado sua predileção especial sobre esses escritos do filósofo grego, mas sua intuição feminina lhe dizia que a ética aristotélica era um caminho seguro para a felicidade das pessoas, afinal o filósofo havia escrito que "o fim do homem era a felicidade", e feliz era como ela se sentia enquanto o ônibus sacolejava nas ruas esburacadas da vila.

Lila já havia decidido como faria a abertura de sua aula. Ela provocaria seus alunos especialmente com essa frase do filósofo:
 
“A obra humana cumpre-se através da sabedoria e da virtude ética. De fato, a virtude torna reto o fim, enquanto a sabedoria torna retos os meios”. (Reale, Giovanni, História da Filosofia Antiga, p.418 Vol. II, Loyola, 1994)
 
Ao relembrar essa frase, Lila quase que instantâneamente lembrou de seu pai Samoel... e um perene sorriso surgiu em seus lábios.

Nada mais precisa ser dito sobre Lila. Sua ética e poder se propagam no infinito das vidas humanas.
Hector Di Leon
Enviado por Hector Di Leon em 05/06/2006
Código do texto: T170049

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Sobre o autor
Hector Di Leon
Pelotas - Rio Grande do Sul - Brasil
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Hector Di Leon