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O Vício

Ah sim, o vício. O vício mata. O vício mata. Ah... Mata. O vício. Mata tanto quanto bala de revolver. Mata mais que tsunami. Mata... Ah, o vício mata.
Ah... Mas como é bom. O vício. É muito bom. É gostoso, o vício. É doce. É amargo no final. Mas é tão doce e eu sou tão guloso. Sim, sou guloso. E é tão bom o vício. Ele atende a minha fome. Quanta fome! Muita fome!
Ah... Eu sou viciado... Como sou! Sou viciado, ah sim, sou sim senhor! Sou viciado nesse vício. Esse vício que todos somos viciados sem perceber. Esse vício doce e amargo. O vício. Esse vício que como todos os outros, mata. Ah... Esse vício.
Sim, é um vício enigmático. É um vício brincalhão. Um vício escondido. É, o vício está escondido. Mas está na hora de aparecer. Está na hora do vício tirar a máscara. Está na hora....
Eita... Como você é curioso. Parece que saber tudo ainda é pouco para você. Parece até que você é viciado em querer saber. Mas calma... Não é desse vício que estávamos falando, apesar dele pertencer ao nosso vício. Sim, nosso vício. Vício nosso. Nada melhor que o mestre Raul Seixas nessas horas: "A letra A tem meu nome... ". Sim, o vício de saber pertence ao nosso vício. Nosso vício.
Às vezes, é mais fácil afirmar pela negação. Às vezes se você ficar sabendo o contrário do nosso vício você chega a qual é o vício. O contrário... O contrário. O contrário do contrário, que é do contrário. Ah contrário. Ao contrário. Contrário do nosso vício. O contrário é outro vício. Vício que também mata. E mata mais rápido. Ah mata. Aliás, matar é o contrário do nosso vício. Matar... Mas não matar simplesmente.
Se fosse só matar seria bobo. Eu nem estaria perdendo meu tempo. É o matar diferente. É o matar por tristeza. É o matar sem esperança. É o matar rumo ao fim. É o fim... Matar é o fim.
Sim, é o se auto-matar. É o se aniquilar. O vício contrário é se acabar. Sim... Acabar-se. Destruir-se. Desintegrar-se. É o vício dos poetas e deprimidos. É o vício dos namorados. É o vício do inconseqüente. É o vício do índio. É o vício do sem esperanças. É o vício dos desistentes.
Mas mesmos esses são viciados no nosso vício. O vício que é a antítese deste. Ah... O nosso vício.
O vício de viver. Viver... Somos viciados nisso. E viver mata. Mata mais que ter o vício de não querer viver. Pois muitas vezes ao adquirir esse vício você acaba aumentando o outro vício, que é o de amar viver. Viver destrói. Viver aniquila. Viver é duro.
Hmm... Sim... Mas é doce, gostoso, belo. Viver é olhar para o céu. Viver é ver o sol. Viver é cantar, pular, dançar, girar. Viver é trabalhar. Viver é descobrir. Viver é olhar pela fechadura. Viver é descobrir o que há depois da fechadura. Viver é se espatifar. Viver é andar de bicicleta. E viver é cair da bicicleta. Viver é comparar. Viver é pensar. Viver é perguntar. Viver é tudo. E tudo é nada. Então viver é nada também. E é também concluir.
Viver é vício. É o maior vício. É doce e amargo... O vício.
E vício é vício.
Vinicius Razumikin
Enviado por Vinicius Razumikin em 30/06/2006
Código do texto: T184803

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Sobre o autor
Vinicius Razumikin
São Paulo - São Paulo - Brasil, 27 anos
23 textos (932 leituras)
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Vinicius Razumikin