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Este texto é uma homenagem a Ingrid (iniciada em magia) e Mariana, duas atrizes e estudantes de Letras, que ainda trabalham de garçonetes nas noites de sextas-feira, para descolar um dinheirinho a mais. A elas o meu muito obrigada,pelo carinho de nos fazer viver esse momento  e pela adorável companhia.




UM ENCONTRO COM A MAGIA



A noite tem magia, que a própria noite desconhece. Não por acaso as coisas acontecem e nos fazem viver momentos, para sempre, inesquecíveis.

E é assim que eu, Roberta e Bárbara vamos guardar na lembrança, a noite passada. Uma noite que tinha tudo para ser um simples encontro entre amigas, até meio sem graça, e que se transformou numa fantástica viagem, a partir do momento em que atravessamos aquela porta de cor verde para ver se valia à pena ficarmos ali e ouvir uma voz que cantava ao som de um violão.

Poucas pessoas estavam naquele salão. As luzes indiretas, se refletindo nas paredes de cores densas, davam um ar de aconchego àquele lugar e não sabemos dizer se essas pessoas estavam ali por opção, ou pela falta dela. O fato é que resolvemos ficar e sentar em uma das mesas para conversarmos.

À nossa frente, no balcão do bar, o filho de Zeus já operava os seus milagres, inspirando corações solitários a se embriagarem e isso podíamos perceber pelos olhares e sorrisos dos fregueses.

Por alguns minutos, desejávamos mesmo só conversar e resolvemos que pediríamos alguma coisa para beber e beliscar, mais tarde. Não queríamos Dionísio por perto para distorcer as emoções e começar a fazer confusão. Precisávamos das idéias claras para deixar fluir de dentro de nós a vida dos personagens das estórias que vamos escrever.

Porém, não contávamos com a habilidade dos Deuses em invadir as almas, mesmo sem permissão de seus donos.

Bárbara e Roberta não foram poupadas. Numa dessas investidas, no lugar da alegria, as suas dores é que foram acordadas e as duas  começaram a chorar.

Entretanto, os Deuses da noite não suportam ver alguém chorar e deram logo um jeito de nos enviar uma feiticeira, que jamais poderíamos imaginar, iria fazer a nossa noite mudar.


Não tínhamos como ignorá-la. Ela chegou meio desarvorada, até um pouco desgovernada, deslizando pelo chão e o seu sorriso nos chamou a atenção. Por debaixo do avental de garçonete, um vestido de moletom preto estampava algum escrito – que eu e ninguém podia ler - porque não dava para entender. Usava meias cor de abóbora que faziam cintilar as suas pernas, quando no seu bailado, começamos a perceber que voava.

- O que vão querer? Perguntou ela.

- Por enquanto nada, respondi.

Arrependi e novamente respondi

- Quero sim, quero sim. Traga-me um lençol.

- Pra quê?

- Para enxugar as lágrimas dessas duas – porque não sei mais o que fazer.

Seus olhos inquietos nos fitaram as três e no seu rosto sua alegria brilhou e uma luz se fez em seu sorriso iluminando a nossa mesa.

- Bárbara, disse ela, não chore não, não vale a pena. Rodopie, assovie, faça qualquer coisa, mas não deixe a tristeza lhe engolir. Olha que eu tô aqui, e encheu a cara de caretas, ou melhor, trejeitos faceiros ao nos contar vários casos para nos fazer rir.

Acho até, que por alguns momentos, ela se esqueceu de que estava ali a serviço. Nossa conversa virou uma grande festa. E lá foi ela correndo atender outro cliente.

De repente, novamente, ela estava em nossa frente para nos dizer:

- Ah! Eu me esqueci de me apresentar, sou Ingrid, uma estudante, garçonete que está aqui para lhes servir. O que vão querer?

Começamos a rir pelo seu jeito de falar e não tivemos como resistir escolhendo o que queríamos pedir.

Ingrid fez dançar a caneta sobre a comanda com a magia de suas mãos. Pelos meus olhos ela percebeu que eu havia notado que ela foi mandada, não veio do nada. Na verdade, nós três estávamos tão surpresas e fascinadas que nos permitimos ser engolidas pelas suas estórias. A partir daí, não tivemos como escapar, estávamos as três passeando num outro lugar que não conhecíamos, conversando em códigos secretos sem conseguir parar de falar. Os risos já nem eram nossos, desprendiam-se livres leves e soltos de nossas almas. Já éramos amigas de anos. Não existia exclusividade de sua atenção, na sua alquimia ela rodopiava por todos o lugares, mas nesta noite nós éramos as escolhidas para entrar nesse transe de verdade.

Virava e mexia e lá vinha ela toda esvoaçante perguntar:

- Estão precisando de mim?

E sorrindo se afastava e dançava brejeira que embebia a todos do lugar na sua magia. Em alguns momentos, parecia uma fada em outros, uma bruxinha louca cheia de atrapalhadas feitiçarias. A cada minuto que passava, mais ela nos encantava.

E lá vem ela novamente, feliz e contente, perguntar:

- Quando vocês saírem daqui, vocês vão para algum lugar?

Roberta assustada com a pergunta disparada respondeu:

- Não sei, porque?

- Vamos para algum lugar para conversar, perguntei a rainha mãe e ela aprovou.

E rindo da situação Roberta falou:

-
Não podemos, estamos sem carro.

- Mas nós estamos, respondeu ela contundente.

- Nós? Perguntei-lhe.

- Sim, não estou sozinha. Mariana é a rainha.

E para o nosso espanto, movimentou sua varinha e Mariana surgiu no meio de uma fumaça azulada, na maior empolgação, dando a sua aprovação.

Mariana era um pouco diferente, sorridente comandava a situação. Suas pernas eram azuis e não dançavam porque os seus pés estavam presos no chão.

- Aceitamos, então. Respondemos, as três.

A partir daí começou uma grande movimentação. Ingrid e Mariana pareciam flutuar e a girar rapidamente, inventaram uma maneira de o tempo passar mais rápido. Ingrid dava gargalhadas e fazia o povo se agitar, torcendo para que fossem embora para junto conosco ir para outro lugar.

E o tempo passou. A essa altura, a noite já sorria.

Enfim, chegou à hora de se fechar aquele lugar. Rapidamente, Ingrid e Mariana arrancaram os aventais. Suas roupas pretas e suas meias coloridas eram tão fascinantes que com um pouquinho de atenção, poderia se perceber que elas tinham, junto de nós, alguma missão.

Não foi mesmo o acaso que nos juntou a essas maravilhosas bruxas e por algum motivo, que nem eu mesma sei explicar, eu carregava junto comigo o meu texto “Amelie-Poulain Acordou Florêncio”.

Ingrid logo se assanhou em ler o texto, afinal é uma bruxa moderna, estuda Letras. Rapidamente devorou a estória e quando acabou, vibrou e gritou:

- Estou toda arrepiada, Rosa você entende da magia? O que Florêncio lhe contou?

- Nada que eu não pudesse saber. Era segredo de estado a sua feitiçaria.

Nessa hora, Ingrid se revelou me dizendo que havia surgido da magia. E ainda me indagou:

- Rosa, você tem certeza que não sabe de nada?

- Não! Não sei, respondi.

- Sabe sim. Eu sei que você sabe. Finge que não, mas sabe.

Pelo sorriso de Ingrid, pude desconfiar que eu sempre soube que Florêncio nunca me abandonou e que também estava lá.

Naquele momento, eu tinha certeza que foi ele quem me fez carregar o texto. Foi ele quem armou esse encontro incumbindo Ingrid e Mariana de a nós se juntar e nos salvar da provável madrugada tediosa. É ele que anda me fazendo ler o que passa nas almas, sem nem eu mesma precisar de perguntar.

Nessa altura, a menina de pernas azuis interveio:

- Você por acaso desconfia, como Ingrid é conhecida?

Juntas, eu e Roberta respondemos:

- Não, nem desconfiamos.

- Pois é, vou revelar – A M É L I E.

Eu não estava em transe, não havia bebido nada e isso não soava mais para mim como uma mera e simples coincidência, até porque nós três já conversávamos com as duas feiticeiras por um simples olhar.

Tudo estava cuidadosamente muito bem amarrado. Florêncio trouxe Amélie para o meu lado para me dizer, estou aqui, Ingrid e Mariana vão lhe fazer entender o que quero de você.

Olhamos para o relógio e nos espantamos com as horas, o tempo passou e nem notamos. Mariana deu o aviso:

- Cinco horas da manhã, hora de bruxa desaparecer!!!

Mas antes disso, ela e Ingrid ou Amélie nos deixaram em casa e nos fizeram prometer de nos encontrarmos no dia seguinte ou numa próxima vez, com local e hora marcada.

E isso, nós cinco juramos que vai acontecer.



















Rosa Berg
Enviado por Rosa Berg em 06/08/2006
Reeditado em 06/08/2006
Código do texto: T210169

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Sobre a autora
Rosa Berg
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil
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