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Fabricando ilusões: a medida possível da vida






Falar de história é complicado. Compreender a vida, a partir dela, ainda mais. Sabemos que são as versões que a constroem. As chamadas descobertas e teorias vão passando para o futuro a partir de recortes, traduções, interpretações, e olhares parciais do que interessa ser dito aqui ou ali. Óbvio, pois quem organiza as “informações” são os seres humanos e a sua complexidade.

Ao se narrar um fato entram em campo a cultura do indivíduo, a sua capacidade de observação, a sua dedicação no resgate de documentos, depoimentos (ou não), sua habilidade com as palavras, enfim, os interesses específicos e particulares que levam um ou outro a ser o “dono da história”.

Como o planeta é habitado por diversas culturas, povos com diferentes linguagens e diferentes formas de concepção de vida, a história vai sendo traçada pelos olhares direcionados ao objeto em foco, à parte que interessa ser registrada.

Nós, os humanos, temos necessidade de produzir a imortalidade, por isso fazer história é tão fascinante. Saber que os dinossauros existiram e que o homem um dia “inventou” o fogo remete a outras inúmeras possibilidades. E, nós precisamos de possibilidades.

Os ocidentais têm um olhar hemisférico da vida, assim como talvez os orientais talvez o tenha. Ver o global é um tanto mais complicado e a maioria delega isso a Deus. No entanto, a busca de entendimento perpassa os meridianos. Saber as causas, os efeitos, a origem, o final, são questionamentos incessantes.

Ao se criar a linguagem e suas diversas manifestações, o homem inventou o início, o meio e o fim das composições. Inventou a vida como narrativa que precisa de introdução, palavras, frases, parágrafos, coerência, coesão e final, de preferência feliz.

Nessa luta de “ordenar” a vida como uma redação legítima e legível, cada indivíduo vai tentando embelezar da melhor maneira o seu texto de existência. Uns com melhores recursos e domínios que outros, mas todos preocupados em fazer o melhor enredo possível. Mais uma vez, lançando mão das possibilidades.

A psicologia é uma “ciência” relativamente nova (século XIX) que cuida dos fenômenos psíquicos e do comportamento, que antes era englobada pela filosofia (amor da ciência, do saber, do conhecimento), um campo nascido, na Grécia, (pelo que se tem notícia) uns 500 anos antes de Cristo.

Ocidentalizando o conhecimento, percebe-se que teorizar acerca do desconhecido (deixando de lado outras modalidades mais primitivas do saber humano, rituais, empirismo, deuses, mitos etc) sempre foi um passatempo para os mortais.

Enquanto os outros animais nascem, procriam, morrem, o homo sapiens recorre a formas mais “elaboradas” (até mesmo confusas) de co-existir na natureza. Se por um lado a ciência traz “um conforto” a partir da invenção de objetos, máquinas, abrigos, dentre outros artefatos, ela traz também a “sensação” de que “tudo” será descoberto, compreendido, explicado (“só é impossível o inimaginável”).

Nesta crença de que as teorias científicas são salvadoras da espécie vamos modernamente lotando os consultórios psiquiátricos e abrindo cada vez mais espaços terapêuticos para o “possível entendimento” da vida, de si mesmo e dos outros.

Numa corrida insana pela compreensão do incompreensível vamos nos cercando de ilusões, vamos fabricando possibilidades. A novidade da física quântica baliza um transito livre para a relatividade, uma forma aparente de libertação, diria.

Se tudo é relativo, como dizia Einstein, e se as possibilidades são inúmeras, cria-se o mito da salvação. Novos “ses” (hipóteses) tomam dimensões de “cura”. Tratar a psique, transformar comportamentos, mudar hábitos, ser um outro ser, passa a ser a medida “exata”. Contraditório, não? Se tudo é relativo, não há exatidão (pelo menos o que podemos chamar de humano).

Vamos lá. Há quem acredite que uma criança abandonada na infância poderá (possibilidade) levar traumas para a vida adulta e que quando adulto for poderá ter problemas pessoais, afetivos, profissionais etc, por causa das vivências passadas, mas que há a possibilidade de se “reverter” o quadro, mudar esse “determinismo” traumático, para enfim ser um adulto feliz, depois de terapia, mudança dos comportamentos a, b, c e por aí vai...

Ora, se testes com ratos mostram que após vários choques (que acontecem ao se tocar na tecla vermelha, por exemplo) o roedor passará longe do lugar da dor, com humanos deveria acontecer o mesmo, pois cientistas adoram cobaias irracionais (e racionais também) para elaborar teorias.

Contudo, tem humano que adora levar choque e sente prazer nisso. Já os que não gostam da dor fugirão da tecla vermelha, mas se ela tiver alaranjada curiosamente irão lá dar uma testadinha. Ou até mesmo, os mais ousados, irão novamente à vermelha, pois vai que a energia acabou e não tem mais choque.

Tudo isso para ilustrar que o ser humano não é uma equação exata com chance de “resultados” esperados. Ah, os velhos resultados. Qual é o resultado esperado em se tratando de gente? Se as culturas variam, as expectativas também, os desejos individuais, então, sem comentários.

Entretanto, a academia mundial está com iluminados seres pensantes ditando por qual caminho caminhar. O universo está lotado de ofertas mais “adequadas” para se adquirir. Tenha tal aparato e serás feliz!

Dizem que as escolhas (uma vez que existem possibilidades) formam o nosso destino, porque cada um viverá a partir delas. Existem mesmo as escolhas? Somos livres para escolher? Ou vivemos realmente o que é possível para cada um sem sequer tomarmos consciência (dá-lhe Freud!)? Não viria a tal consciência muitas vezes depois para “explicar” a opção feita?

Liberdade é um velho conceito debatido pela filosofia, que ao que se sabe não sai da idéia para a prática. Somos seres em larga escala idealistas, especulativos, curiosos, abstracionistas, contraditórios, incoerentes, e por isso mesmo buscamos uma lucidez frustrante, que não se realiza.

Ao tentarmos sair da ilusão encantados pela possibilidade da “verdade” caímos no fosso do desespero, numa aporia. É mais ilusório não se iludir. Precisamos sim revisitar a história e assimila-la como certeira, para construir um presente possível. Precisamos sim de contos de fadas para adultos. Precisamos sim de sair de um consultório médico com a ilusão da cura. Precisamos sim ir à terapia para encontrar a ilusão de que é dessa vez será diferente. Precisamos sim das teorias de cada época para formar novas profissões, outras possibilidades. Precisamos sim trabalhar acreditando que se é feliz trabalhando. Precisamos sim formar famílias, ter filhos, para pensar que essa é a ordem natural da vida. Precisamos sim de inventar cada vez mais tecnologias para ocupar bilhões de seres. Precisamos sim ir à igreja e crer que Deus nos dará um pedaço do paraíso. Precisamos sim fabricar ilusões diárias para a que a existência não seja um fardo, um peso, uma caminhada inútil. Precisamos, por fim, nos assumir mais animais, mais instintivos, reverenciar a ignorância, pois o intelecto é que dará cabo à espécie. Exatamente o que nos diferencia dos outros animais é que pode por fim nos exterminar, para igualar. Precisamos de uma vez por todas aceitar nossa loucura, porque ela é a sanidade possível para existir. Fabricar ilusões é a medida possível da vida.



Solange Pereira Pinto

Solange Pereira Pinto
Enviado por Solange Pereira Pinto em 06/08/2006
Código do texto: T210191
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Sobre a autora
Solange Pereira Pinto
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 49 anos
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Solange Pereira Pinto