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O TREM DA HISTÓRIA

O TREM DA HISTÓRIA
J.B.Xavier

No último dia 7 de setembro, estava eu dando uma olhada no enfadonho e anacrônico desfile militar, quando, pela avenida veio o desfile de um colégio. Eu já estava me retirando, de tanto ver desfilar armas obsoletas e honrarias duvidosas, quando uma senhora ao meu lado começou a abanar freneticamente e chamar pelo nome que, pensei eu, deveria ser sua filha, que desfilava no pelotão de frente do referido colégio. A senhora estava realmente empolgada e nem se importava de parecer piegas. Tentei reconhecer no pelotão quem poderia ser sua filha, e não teria descoberto, se ela, agarrada ao braço do marido, não tivesse dito:

— Olhe! Ela não está linda? É a única com o passo certo no pelotão!

Sorrindo, reconheci imediatamente a moça, que, inconsciente do que fazia, seguia fazendo “zig” quando todo mundo ao redor fazia “zag”.

O episódio me fez compreender muitos dos complexos fenômenos sociológicos que estão acontecendo atualmente no Brasil.

Fiquei olhando com renovado interesse para o desfile que passava, enquanto do palanque das “autoridades”, bem como dos que assistiam ao desfile nas calçadas, vinham as palmas aos que desfilavam.

Aos poucos, aquela menina que desfilava fazendo “Tic” enquanto o resto do pelotão fazia “Tac”, o povo aplaudindo, e a mãe orgulhosa criticando o restante do colégio que não acertava o passo pelas passadas da filha, foi se transformando em minha mente num grande mapa do Brasil. Ali, à minha frente, se desenrolava uma miniatura das aberrações sociais brasileiras que de tanto se repetirem, passaram a ser aceitas como normais e mesmo a ter quem se orgulhe delas.

Realmente há uma possibilidade de que a menina fosse a única com o passo certo, mas, como diz o provérbio, “quando todos erram, todos têm razão”.

Por essa ótica, temos que admitir que perdemos o trem da História, por estarmos com o passo trocado em relação ao resto do mundo. Bem entendido: nós e outros países tão ou mais míopes que nós.

Fiquei ali, na calçada da avenida, parado, pensando nas aventuras que países sem significância econômica para o mundo empreendem ao tentarem fazer o pelotão mundial marchar pelo seu passo.

Fiquei pensando sobre o Brasil, um exuberante país que fabrica 50% do oxigênio consumido por tudo o que respira sobre o planeta, que possui uma das maiores reservas de água potável disponíveis, que encerra em suas entranhas minério de ferro, minérios físseis e outros absolutamente estratégicos ao futuro que certamente será ávido por esses materiais.

Pensando sobre um país que tem um imenso litoral, mas que não constrói portos, que possui hidrovias em quantidades absurdas, mas não constrói estaleiros para fabricar barcos para navegá-las; que tem terras planas ideais para a construção de ferrovias, mas transporta suas mercadorias sobre pneus, a custos absurdamente altos!

Pensando num país onde existem o “Rei da soja” o “Rei da Laranja”, o “Rei do Gado”, o “Rei da maçã”; que é um dos maiores exportadores mundiais de alimentos, mas cuja população, em certos locais, ainda são estampas que lembram os esquálidos dos mais miseráveis e atrasados lugares do mundo!

Pensando no país que produziu um dos maiores vendedores de livros do mundo, que produziu um Machado de Assis, um Jorge Amado, um Fernando Sabino, um Affonso Romano de Sant'anna, um Veríssimo, um Quintana, um Bilac, um Loyola Brandão, um Monteiro Lobato, um Bastos Tigre, mas cuja Academia Brasileira de Letras tem em seus quadros cirurgiões plásticos, ex-presidentes, jornalistas, políticos e oportunistas, mas quase nenhum escritor. Um país que mesmo com tão brilhantes letras, a imensa maioria de seus habitantes ainda assina em “X”, e mesmo os que sabem ler, consomem Bruna Surfistinha.

Pensando no país que convive simultaneamente com as nevascas do Sul e os verões escaldantes do Nordeste, que tem um potencial turístico “in natura” sem que quase nada precise ser acrescentado para atrair o fluxo turístico internacional, mas que mesmo assim, explora, assalta e mata os que o visitam.

Pensando no país que tem tradições belíssimas como o autêntico “caipira” mineiro, o vaqueiro gaúcho, ou os boiadeiros do Nordeste, mas que usam chapéus e cintos texanos, se dizem caubóis, e imitam, como macaquinhos treinados, a cultura americana – não imposta pelos gringos, como normalmente afirmamos, mas absorvida por nós, devido ao vácuo causado pela falta simples e pura da prática de nossas próprias tradições.

Pensando no país cujos habitantes têm vergonha de colocar em seu letreiro “Academia de Ginástica” ou “Estacionamento” e colocam “Gym Center” ou “Parking”, sem que falem uma palavra de inglês, acreditando que com isso estão sendo moderninhos.

Pensando no país cujos militantes dos anos 60, que, como disse o cantor Belchior em uma de suas músicas: “me deram a idéia de uma nova consciência e juventude, e que hoje estão em casa, guardados por Deus, contando os seus metais”.

Pensando que perdemos o trem da História, e agora teremos que encarar a locomotiva chinesa que passará não ao nosso lado, mas por cima de nós, forçando-nos a nos contentarmos em sermos seu celeiro. Em breve teremos três brasis de chineses que deixaram a linha da pobreza, prontos para consumirem, como formigas vorazes, tudo o que estiver disponível no mundo, uma vez que eles não têm minérios nem petróleo para manter sua economia funcionando.

Seguindo-a de perto, virá também a locomotiva indiana, que já se move a grande velocidade, impulsionada por seus chips de alta tecnologia. Outros brasis de indianos serão, certamente anexados ao mercado consumidor mundial.

E fiquei pensando que nós ainda estamos guardando água em cacimbas pútridas, cavadas na terra ressequida, feitas pelas frentes de trabalho e pagas com o restolho das notas corruptas que escapa do bolso de nossos políticos e governantes. Ainda vivemos com os vale-feijão, vale-arroz, vale-escola, vale-isso e vale-aquilo, incapazes de provermos nosso próprio sustento, por falta de empregos e escola, num país de uma monstruosa, cruel e vergonhosa concentração de renda, onde cada milionário custa uma horda imensa de mendigos!

Então a voz da senhora ao meu lado voltou aos meus ouvidos:

— Olhe! Ela não está linda? É a única com o passo certo no pelotão!

Olhei para a menina no desfile e vi o Brasil, lindo, que desfilava fazendo “zig” enquanto todo o resto do mundo está fazendo “zag”, e enquanto o povo, inconsciente de seu atual momento histórico, continua aplaudindo.

Aos poucos o pelotão foi desaparecendo na avenida do Futuro. Então meus olhos marejaram e lembrei novamente, tristemente, de Belchior:

“Na parede da memória esta lembrança é o quadro que dói mais: Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo o que fizemos, ainda somos os mesmo e vivemos como nossos pais!”


* * *
JB Xavier
Enviado por JB Xavier em 10/09/2006
Reeditado em 10/09/2006
Código do texto: T236816
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
JB Xavier
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