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A Igreja do Diabo

Introdução

      Neste pequeno ensaio procura-se analisar a ficção realista brasileira através de um conto. Sem dúvida, o melhor autor para tal observação é o Machado de Assis pelo seu legado deixado de imenso valor literário não só para Letras Brasileiras, mas também para o mundo. O conto escolhido foi “A igreja do diabo”, tido como interessante pela polêmica levantada pelo seu tema, merecendo, mesmo que superficialmente, a atenção deste trabalho. Antes de tudo, deve-se haver uma explanação do movimento literário e do autor abordado para uma melhor compreensão das questões levantadas.

O Realismo e Machado

      O Realismo, nas palavras de Eça de Queirós, “é uma reação contra o Romantismo: o Romantismo era a apoteose do sentido; - o Realismo é a anatomia do caráter. É a crítica do homem. É a arte que nos pinta a nossos próprios olhos – para condenar o que houve de mau na nossa sociedade”.
      Na década de 70 surge a chamada Escola de Recife, na qual seus fundadores (Lima Barreto, Silvio Romero e outros) aproximam-se das idéias européias ligadas ao Positivismo, o Evolucionismo e, principalmente, à filosofia alemã. São estes ideais que encontravam ressonância no conturbado momento histórico vivido pelo Brasil, sob o signo do abolicionismo, do ideal republicano e da crise da Monarquia.
      Tratando-se do autor, “Machado de Assis é o mais universal dos nossos escritores e também o mais nacional”, esclarece Astrojildo Pereira. Os outros escritores mostravam em suas obras a paisagem brasileira, mas nenhum mostrou mais profundamente o homem brasileiro. Ele viveu em uma época em que a literatura deixa de ser apenas distração e se torna veículo de crítica a instituições, como a Igreja Católica, e à  hipocrisia burguesa. A escravidão, os preconceitos raciais e a sexualidade são os principais temas, tratados como linguagem clara e direta. Surpreendendo por um estilo sutilmente irônico, humorístico e fatalista, que logo ia torna-se marca registrada de sua obra, na qual realizou de forma artística insuperável, o levantamento da sociedade brasileira na época.
      Estão anotadas em sua obra as sociedades oitentista em alguns de seus aspectos mais característicos. Os seus contos e romances não abrigam heróis extraordinários, nem fixam ações grandiosas e excepcionais. Eles são construídos com material humano mais comum e ordinária. Era um colecionador de vulgaridades. Cético e estóico, Machado mostrou a impotência do homem todo social abraçando como fardo eterno dos seres vivos o convívio entre egoísmos. Escolhendo seus personagens entre a burguesia que vive de acordo com o convencionalismo da época, Machado desmascara o jogo das relações sociais, enfatizando o contraste entre essência (o que os personagens são) e aparência (o que os personagens demonstram ser). O sucesso financeiro e social é, quase sempre, o objetivo último desses personagens.
      Machado de Assis centrou seu interesse na sondagem psicológica de que com a ação, isto é, buscou compreender os mecanismos que comandam as ações humanas, sejam elas de natureza espiritual ou decorrente de ação que o meio social exerce sobre cada indivíduo. Tudo temperado com profunda reflexão. Por isso, em suas narrativas, não há muita ação, apenas poucos fatos, e todos são ligados entre si por reflexões profundas. O escritor busca inspiração nas ações rotineiras do homem. Penetrando na consciência dos personagens para sondar-lhes o funcionamento, Machado mostra de maneira impiedosa e aguda, a vaidade, a futilidade, a hipocrisia, a ambição, a inveja, a inclinação ao adultério. Como este escritor capta sempre os impulsos contraditórios existentes em qualquer ser humano, torna-se difícil classificar seus personagens em boas ou más. O sucesso financeiro e social é, quase sempre, o objetivo último desses personagens. Machado fez uma caricatura do humanitismo  para retratar uma religião positivista comum em sua época, religião esta que pretendia salvar o mundo e o homem. O humanitismo baseia-se na luta pela vida, que seria o grande objetivo do ser humano. Nessa luta vence o mais forte, e a sua vitória é vista por Machado com a maior naturalidade, às vezes até certo cinismo.
      Machado passou pelo Romantismo e pelo Realismo, assimilando características de ambos, mas não se pode enquadrá-lo radicalmente em nenhum desses estilos. Pode-se dizer, mais ou menos, que os romances da primeira fase tendem ao Romantismo e os da segunda fase ao Realismo.

A Obra “A igreja do diabo”

      Este conto foi publicado no livro “Historias Sem Data” (1884). Uma espécie de fábula, novamente marcada pela ironia, o conto apresenta a história do dia em que o diabo resolveu fundar uma igreja, a fim de concorrer com as diversas religiões que serviu de inspiração para o nosso poeta contemporâneo Jorge Filó, o qual lançou recentemente um livro em versos em estilo cordel baseado neste conto provando o quanto esta narrativa ainda chama atenção.
      A vocação humana para transgredir limites impostos é o tema do conto A igreja do Diabo. No texto, o diabo decide rivalizar com o poder de Deus e abre a igreja para ele onde tudo é permitido. Ou, pior, só as atitudes condenáveis aos olhos de Deus são consentidas. Pelo credo do demônio, a humanidade é obrigada a roubar, trapacear, mentir e cometer todos os tipos de desonestidade. A principio, a nova religião é um sucesso absoluto, mas com o passar dos anos, os fiéis do diabo começam a se reunir escondidos, para praticar boas ações. Cismado, o diabo vai falar com Deus sobre este comportamento, e nesta conversa o diabo fica sabendo sobre o espírito contraditório da condição dos homens.
      Para os religiosos mais afetados esta obra poderia ser vista como blasfêmia e o autor conseqüentemente como um herege devido à intertextualidade bíblica na obra. De fato podemos refletir em dois parâmetros nesta obra no que diz respeito à intenção do autor: ele critica a instituição religiosa como um todo, ou ao homem com seus sentimentos mundanos, bem caracterizados pelo diabo no qual dos temas centrais deste conto é a vaidade.
      No primeiro capítulo vê-se o sentimento de inveja no diabo, característica humana. Toda a estrutura  da igreja católica é denominada em situação irônica, sendo ridicularizada no fato de que o diabo, em sua igreja, pode fazer uso desta mesma “estrutura”. No trecho abaixo o diabo deixa explicito o quão é frágil o cristianismo ou mesmo outras religiões, pelos seus inúmeros rompimentos criando várias facções para um credo: “E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar: há só um de negar tudo.”
      No segundo capítulo o diabo diz-se leal em avisar a Deus sobre o seu plano e em seqüência mostra-se egocêntrico, pretensioso e retórico e Deus o compara com a humanidade: “Tudo o que dizes ou digas está dito e retido pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires”.
      Ainda neste capítulo há um trecho carregado de ironia (para não dizer cômico), em que a igreja é comparada “descaradamente” a um comércio, no qual o preço ser pago seria a vida correta demais, coisa muito difícil para a humanidade: “Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja”.
      É de incrível sutileza alegórica a forma em que o diabo apresenta o seu plano a Deus, fazendo uso de metáforas a qual desafia o leitor a uma interpretação detalhada:

            “Só agora concluí uma observação, começada
      desde alguns séculos, e é que as virtudes, filhas do
      céu, são em grande número comparáveis a rainhas,
      cujo manto de veludo rematasse em franjas de
      algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa
      franja, e trazê-las todas para minha igreja: atrás
      delas virão as de seda pura”.

      É importante relatar que a presença do nome Fausto, um pactário, ainda no segundo capítulo remete a intertextualidade com a mais famosa obra de Goethe, que foi um escritor romântico ratificando o que antes foi dito sobre os possíveis traços românticos na obra machadiana.
      Já no terceiro capítulo o diabo defende a inveja, a gula, a preguiça (todos os Pecados Capitais), tudo com justificativas da história, das letras e das artes. Nota-se também que o diabo neste capitulo faz uso de linguagem bancária ou capitalista que pode ser vista como uma crítica ao modelo econômico: “Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas cada acionista não cuida realmente senão nos seus dividendos: é o que acontece aos adúlteros. Este apólogo foi incluído no livro da sabedoria”.
      Ainda no terceiro capítulo novamente uma outra obra dialoga com o conto. Desta vez é um clássico de Homero, “A Ilíada”.
      E por final do quarto capítulo, há uma inversão de valores, na qual o diabo vê-se frustrado pelos “pecados” dos seus fieis que praticam às escondidas ações de bondade. Daí a contradição humana é aquilo que todos sabe, que qualquer proibição resulta no desejo.
      Mais tarde (em 1892) Machado vem publicar um artigo que seria parte dessa obra: “O Sermão do Diabo”, um pedaço do evangelho pregado pela igreja às avessas, justamente um sermão da montanha, à maneira de São Mateus. Neste artigo Machado pedia para que as almas católicas não se apavorassem, pois Santo Agostinho dizia que “a igreja do Diabo imita a igreja de Deus”.

Conclusão

      Depois de tal averiguação do texto pode-se constatar que o personagem central do conto não é o diabo, ou a instituição religiosa, e sim a humanidade. Durante toda a narrativa ela é analisada e submetida a comparações. É interessante observar que o diabo também é a caracterização do homem, pois ele é dotado de velhos sentimentos humanos e o seu papel é fundamental para analise humana como representação do ser unitário diferindo do enfoque social representado pelos seus fieis. De fato este conto é bastante divertido, no qual é possível rir de si próprio após essa demonstração cômica desta humanidade corrupta e tosca a qual todos vivem.

FONTE:
BOSI, Alfredo. A História Concisa da Literatura Brasileira. 35º Ed. – São Paulo: Cultrix,1994.
SODRÉ, Nelson Werneck. História da Literatura Brasileira. 9º Ed. – Rio de Janeiro: Bertrant Brasil, 1995.
Geisilandy Castro
Enviado por Geisilandy Castro em 12/11/2006
Código do texto: T289713

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Sobre a autora
Geisilandy Castro
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