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A Ambivalência de A Vontade de Poder

Observe que até agora em nenhum autor, excetuando suas distinções de conceito, deixamos de falar da Vontade de poder por dualidade. É sempre uma e outra permeando qualquer ação de poder, independente da lente que usamos em nossa pesquisa. Para Freud, os impulsos sexuais que governam a ação humana, incluindo as de poder, ora são de caráter criativo, outrora destrutivo. Para Adler, a ausência de vontade de poder é que negativa. Nietzsche vê a vontade de poder como a solução para a evolução do homem sobre a vontade instintiva evidenciada por Schopenhauer. Se procurarmos na história da civilização verificar-se-á que esses pólos também se digladiam pelo centro do poder sob os nomes de coerção e cooperação. Basta olhar a história de Roma para identificar os períodos das ditaduras cesarianas e os períodos republicanos, com forte atuação do senado. E quando olhamos por outro prisma, ou seja, o da paz e da guerra que são para o Poder os símbolos de Conquista e de ação de disputa pelo impulso de poder, respectivamente, observamos que quando não há disputa entre povos pelo poder, ou seja, período de paz, de conquista, ocorre a disputa interna entre os cidadãos pelo centro desse poder. Um rumor latente que deteriora as entranhas da paz, causando desestabilidade, que muitas vezes culmina na deposição e, consequentemente, substituição, do detentor atual do Poder; e, ou, enfraquecimento desse povo onde outros povos se beneficiam para derrotá-los e impor-lhes sua vontade. Foi esse o motivo da destruição de Roma, foi minada pela Vontade de Poder. É a mitologia que procura explicar as origens e por essa ótica encontramos em Neunmann um mito Maori que explica a dualidade, não só existente na vontade de poder, mas que reduz toda concepção no Universo em opostos. E que reitera sobre o que dissemos de Nietzche a respeito do benefício visto na dinâmica entre o bem e o mal. Não vamos transcrever aqui esse mito, por ser muito extenso, para lê-lo na íntegra recorra ao original, apenas relatar o que dissera esse autor sobre esse mito:

Esse mito maori da criação contém todos os elementos do estágio de evolução da consciência que segue a etapa de domínio urobórico. A separação dos pais do mundo, a divisão entre os opostos a partir da unidade, a criação do céu e da terra, do em cima e do embaixo, do dia e da noite, da luz e das trevas, o ato que é um crime e um pecado, tudo que em outros mitos é separado e visível apenas em características isoladas, está aqui, diante de nós, como unidade. (NEUMANN, 1968, pg 87-88)

A dualidade persiste; a vontade de poder também tem sua ponta fincada nos mitos que explica a ambivalência nas origens. Jung vai nos explanar melhor essa relação entre a influência dessa idéia. Ele, assim como Freud, divide a vida psíquica em Consciente e Inconsciente e explicam assim, cada qual a seu modo, essa dualidade dos processos dessa origem, a qual pertence A vontade de poder; vamos nos deter apenas em Jung, nesta explicação. Encontramos nesses autores a caracterização psicológica da polaridade para a idéia filosófica de Vontade surgida em Schopenhauer e Nietzsche. Jung nos afirma que todo indivíduo possui uma energia vital, a elan, que está ligada como um pêndulo que se movimenta entre o consciente e o inconsciente, carregada por uma força energética que é determinada pelo grau do tônus emocional envolvido.
   
A energia psíquica existe em estado potencial: são as possibilidades, as aptidões. Manifesta-se de várias formas, em experiências relativas a qualquer campo (fome, poder, ódio, sexualidade, religião), em ações e atitudes específicas (querer, sentir, lutar, trabalhar), como fenômenos dinâmicos da alma (instintos, desejos, afetos, atenção). No dia-a-dia, percebemos suas manifestações nos sonhos, no nosso ‘pique’ ou na falta dele, nas explosões de afeto, nos sentimentos, como ódio, vingança, alegria, tristeza, amor. (GRINBERG, 1997, p. 92)

Jung chama esse movimento como princípio de equivalência e foi inspirado na “lei da termodinâmica, de Helmholtz: ‘para uma determinada quantidade de energia utilizada com o fim de produzir uma condição, uma outra quantidade equivalente de energia surge em algum outro ponto [do sistema]’” (GRINBERG, 1997, p. 92). É essa energia vital que faz a permuta entre consciente e inconsciente. Esse autor nos explica que o Ego é o centro da consciência e que o Inconsciente é dividido entre pessoal e coletivo, tendo esse o self como centro e o outro constituído pelo o que ele denominou complexo, dentro do inconsciente pessoal, a energia vital faz a interação entre estas instancias psíquicas. Mas o que importa aqui é justamente o termo complexo.
Suas observações levaram-no a descobrir no inconsciente um núcleo funcionando como uma espécie de imã, com capacidade de atrair conteúdos da consciência para perto de si. Esse núcleo central seria constituído pelo arquétipo, ao redor do qual orbitam numerosas associações e idéias de conteúdo afetivo, dotadas de uma grande quantidade de energia psíquica acumulada. A esse conjunto denominou complexo. (GRINBERG, 1997, p. 124)

A questão do surgimento do complexo é pessoal. Certo complexo é mais forte em alguns porque associações emocionais de tal especificidade cercam o seu núcleo formando uma aglomeração forte de energia concentrada com um único intuito, e para concretizá-lo exerce toda a força contra as fronteiras da consciência até rompê-la, essa força toma o Eu e persiste no comando do corpo e das funções mentais elementares, trazendo para fora suas características de personalidade próprias, diferentes do Eu original, que passa a agir como se ali uma nova personalidade matasse a anterior: o que determina se as fronteiras da consciência vão romper ou não é justamente a força acumulada dessa energia. Quanto mais conteúdos afetivos associados, mais forte essa será. Sendo assim, o complexo, em evidência, é único e governa conforme seus anseios, direcionado por associações emocionais. O complexo é pessoal no sentido de que essas associações emocionais surgem de acordo com as relações e circunstâncias, as quais o indivíduo vivenciou na sua história de vida ao decorrer de seu desenvolvimento. O complexo é pessoal no sentido de que funciona para atender a história emocional do individuo, mas é coletivo no sentido em que existe em qualquer individuo determinado pela força dos arquétipos.

Os arquétipos  (...)  São formas universais coletivas, básicas e típicas da vivência de determinadas experiências recorrentes, que expressam a capacidade criativa única e autônoma da psique. São conteúdos coletivos todos os instintos e formas básicas de pensamento e sentimento, tudo aquilo que consideramos como universal e que pertence ao senso comum. (GRINBERG, 1997, p. 136)

O arquétipo ocupa o centro do complexo. Assim as associações afetivas pessoais estão enraizadas nele recebendo a sua influência específica.

Em outras palavras, os mitos da antiga Grécia não são apenas historinhas interessantes; elas representam padrões arquetipicos de experiência humana que existem desde o começo dos tempos e atravessam todas as culturas. A aparente simplicidade disfarça a profundidade. Na sua mitologia e no seu panteão de Deuses, os gregos projetavam os seus próprios sonhos e temores ¬– e, ao fazerem isto, ofereciam-nos um vislumbre da alma humana. (RANDAZZO, 1996, p. 63)

Esses padrões arquetipicos são passados de geração em geração, desde os primórdios, manifestando-se em um número infinito de formas simbólicas e direcionam o desenvolvimento psíquico de cada indivíduo da espécie. “o arquétipo do Guerreiro, por exemplo, que representa o instinto de guerra e agressão, pode revelar-se em numerosas expressões (centurião romano, cavaleiro, fuzileiro naval, e assim por diante)” (RANDAZZO, 1996, p. 67). Antes de retomarmos ao assunto principal devemos citar também outra característica importante do arquétipo: a polaridade. Olha a dualidade novamente! Ele pode atuar de forma positiva ou negativa. Quando positivo, ele funciona como a fonte da inspiração, da criatividade, da concepção, da revelação: da numinosidade. Quando oposto, é a figura da destrutividade, da obsessão, do fanatismo, da rigidez, da possessão. “Por exemplo, conforme Jung nos mostrou, na psique dos milhares de pessoas que aderiram ao movimento nacional-socialista alemão, ‘a antiga imagem arquetípica de Wotan, o deus da mitologia germânica, tinha sido reativada resultando num estado de possessão guerreira’” (VON FRANZ, 1992a, 109 apud GRINBERG)
Contudo, esse passeio pelos conceitos de Jung foi preciso para chegar a esse parte que nos delineia para o foco da questão; relacionado à vontade de poder podemos encontrar um dos principais arquétipos relacionados por Jung que é O Grande Pai. Ele, provavelmente, ocupa o centro do impulso que Jung denominou o complexo de poder, pelas características que possui.

A característica masculina estática é representada pelo ‘logo’ (ordem e razão), pelos arquétipos do Grande Pai e do Senex. Senex, em latim, quer dizer ‘o velho’ e representa ‘tudo aquilo que tem idade, é ordenado e estabelecido’ (HILLMAN, 1990, p. 19) Os traços positivos do Grande Pai consistem em regras organizativas e normativas, em leis e num sentido de ordem hierárquica. As manifestações do arquétipo do Grande Pai ocorrem nos sistemas sociais assim como, em nível pessoal, na estrutura da família patriarcal. O grande pai é o provedor e o protetor. Ele também dá amparo e amor. O rei e o professor/mentor também são manifestações do Grande Pai. (apud RANDAZZO, 1996, p. 141)

Porque governa, mediante sua presença no centro do complexo de poder, o destino do Ego, ou se coletivizado/externado, o destino de um povo. Põe em jogo as suas duas polaridades, que em si são dinamizadas, dentro da massa: digladiam-se pelo direito de destino de seus desejos. Uns para se proteger do "mal" sob as forças do poder, e manter as lei, a ordem e a razão governando a vontade dos outros. Querem o poder para reprimir a ameaça de outra vontade que venha lhes impor, cerceiam qualquer força volitiva que possa existir além de seus interesses próprios. Quererem que o universo funcione por si, como se seus Egos não existissem, nada mais existisse. A função do poder é construir a justiça, a igualdade entre os homens, inclusive entre eles e quem detém o poder, a função deste é governar sob a vontade do povo e não sobre a sua própria, centralizar essa vontade para organizar as diferenças.
O poder pode agir sobre dois pólos, o criativo, que eleva a condição de todos em comum e não governa só para si, e o destruidor, que se alimenta da ganância e da cobiça que corrompe deuses e homens. Popularmente dizemos que o poder corrompe. Quando o complexo ganha mais energia e toma o controle do Ego, este já não vê empecilho para satisfazer os desejos do inconsciente e não encontra os limites para satisfazê-los. Por que agora é o todo poderoso centro, aquele Deus que governa os outros, o pai que sabe o que é melhor para o filho e que por isso, julgando fazer melhor, impõe sua vontade.
O complexo de poder é ativado quando entra em contato com conteúdos relacionados ao poder, os padrões de emoção e de impulso fazem a ligação com o arquétipo em seu núcleo e sua casca, e de certa forma funcionam como propulsores de ação. O arquétipo por sua vez é realizado através do complexo e pode afetar o indivíduo tanto construtiva como destrutivamente.  Depende da forma em que ele é realizado, de acordo com as atitudes do inconsciente. A diferença da força desse complexo de indivíduo para indivíduo é o quanto de associações emotivas ele atrai, o quanto de carga energética ele armazena, algumas idéias, lembranças, pensamentos não são tão relevantes para um indivíduo o quanto são para outros. Se esta pessoa  tiver vivenciado situações muito ligadas ao poder seja de submissão ou de atuação pode ser que este complexo adquira força suficiente para romper a consciência e este individuo viva guiado pelo complexo, obcecado pelo poder.
Há diversas motivações para se querer o poder, às vezes o motivo é aparentemente saudável, quero o poder para derrotar o “mal”, mas, por fim quando o mal é derrotado, quando não há mais motivos que justifiquem a manutenção do poder há a resistência em se livrar do poder e assim se encontra outra ameaça para ser combatida pelo poder ou a anarquia para justificar a ordem imposta pelo poder, ou mesmo em tempo de paz, o poder causa  a cobiça daqueles que o não tem, porque desejam impor aos outros as suas vontades, querem que tudo se guie em redor de suas preferências, isso sim, tudo isso é verdade, mas não se pode esquecer que por trás há a força dos arquétipos impulsionando os complexos em direção a um dos pólos, positivo ou negativo. Há um Cronos devorando seus filhos, com medo que um deles venha a destroná-lo. E um Zeus incitando seus filhos e irmãos a compartilhar O Olimpo.
E ao encontrar e investigar essa ambivalência da vontade de poder encontramos em Reich embasamento para consubstanciar a pergunta mental que nos fizemos neste percurso: Qual o comportamento daqueles que dominam e daqueles que se deixam dominar em relação com a vontade de poder? “Em seu livro ‘Psicologia de massas do fascismo’ Reich estuda o comportamento das massas diante do movimento fascista, aplicando seus conhecimentos clínicos sobre a estrutura do caráter humano no cenário político e social” (OLIVEIRA; CRUZ, 2009, p. 71). Para esse autor o vínculo criado entre um líder político e a massa, ou nas relações de poder, tem origem na “família autoritária” e na igreja, para ele, este é a extensão da educação desenvolvida por estas instituições ligadas através de aspectos psíquicos significativos e remanescentes que se interligam a esse líder social como se ele fosse a figura do pai ou do líder religioso, buscando proteção e padrão de modelo. “É  nos  primeiros  anos de  vida,  na  família  autoritária,  que  se  dá  a  inibição moral  da  sexualidade  natural  da  criança.  A  igreja continua  essa  função  quando  o  indivíduo  se  torna adulto.  A  educação  autoritária  é  a  base  psicológica das massas em todas as nações para a aceitação e o estabelecimento da ditadura” (OLIVEIRA; CRUZ, 2009, P. 72-73)
Reich vê essa repressão como universal e não a restringe ao fascismo. Portanto, é de se aceitar que essa base serve como referência para qualquer estudo sobre o comportamento político. A criança apreende a ter medo de se expressar, é engessada em convenções e papéis sociais, refletidas dentro de tais instituições, cujo objetivo é manter o controle sobre a sociedade através de padrões que todos devem seguir: aqueles que não se enquadram ou se se rebelam são considerados anormais.

Essa  inibição  torna  a  criança  medrosa,  tímida, submissa, obediente e dócil no sentido autoritário da palavra. A última etapa é o grave dano à sexualidade genital  (madura).  Isso  leva  a  uma  paralisação  das forças  de  rebelião  porque  qualquer  impulso  vital  é associado  ao  medo.  ‘A  estrutura  humana  debate-se na contradição entre o desejo intenso de liberdade e o medo de liberdade’.  (...)  O sexo sendo  um  assunto  proibido  leva  a  uma  paralisação geral  do  pensamento  e  do  espírito  crítico.  ‘O  medo de  liberdade  das  massas  humanas  manifesta-se  na rigidez biofísica do organismo e na inflexibilidade do caráter’. O sexo sendo  um  assunto  proibido  leva  a  uma  paralisação geral  do  pensamento  e  do  espírito  crítico.  ‘O  medo de  liberdade  das  massas  humanas  manifesta-se  na rigidez biofísica do organismo e na inflexibilidade do caráter’  (...)  A  inibição  sexual  altera  a  estrutura  do  homem oprimido  economicamente  de  tal  maneira  que  ‘ele passa  a  agir,  sentir  e  pensar  contra  os  seus  próprios interesses  materiais’  (...)  Também cria  na  estrutura  do  indivíduo  uma  força  secundária que  também  apóia  ativamente  a  ordem  autoritária. Quando a repressão impede a sexualidade de atingir a satisfação normal, o indivíduo recorre a satisfações substitutas: a agressão natural se torna sadismo, que é a base psicológica das guerras imperialistas. Também o efeito do passo de ganso executado ritmicamente, o exibicionismo de uma parada militar são exemplos de   satisfações   substitutas.   Todas   essas   situações exploram  a  sexualidade  reprimida  da  juventude  que se tornou sexualmente faminta.  (OLIVEIRA; CRUZ, 2009, p. 73)

Encontramos também aqui, evidenciado, a ambivalência da vontade de poder porque segundo Reich, a inibição sexual, representada dentro das instituições como submissão, e ao mesmo tempo identificação com a figura do pai, é que formam o caráter passivo e ativo do indivíduo atuante em relação à autoridade socio-politica. Segundo Reich, essa é a base da identificação emocional com todo tipo de autoridade. Portanto, podemos concluir que a vontade de poder está dentro tanto de quem lidera quanto de quem é liderado. Aquele realiza a vontade de poder deste, que engessado pelo medo repressivo em si, criado pela família autoritária e posteriormente pela igreja, não consegue alcançar aquilo que deseja e despreza ao mesmo tempo, através da identificação emocional, que outrora pertencia ao pai.

Na  psicologia  de  massas  o  Führer  nacionalista é  a  personificação  da  nação.  Essa  ligação  pessoal com  ele  só  se  estabelece  se  ele  encarnar  a  nação  em  conformidade  com  o  sentimento  nacional  das massas.  Ele  atrai  todas  as  atitudes  emocionais  que foram  num  dado  momento  devidas  ao  pai,  severo, mas também protetor e poderoso na visão infantil. É essa necessidade das massas por proteção que torna o ditador capaz de conseguir tudo. Nenhuma democracia autêntica se assenta sobre essa base.
Quanto mais desamparado se tornou o indivíduo de  massa,  mais  acentuada  é  a  sua  identificação com  o  Führer. A  necessidade  infantil  de  proteção  é disfarçada sob a forma de um sentimento em relação ao Führer. Com essa identificação, sente-se defensor da  herança  nacional.  A  sua  situação  miserável  no campo material e sexual é escamoteada pela exaltação da ideia de pertencimento a uma raça dominante e de ter  um  Führer  brilhante.  Com  isso  não  percebe  que está numa posição insignificante de submissão. (OLIVEIRA; CRUZ, 2009, P. 73-74)

Em seu livro in political life Robert Lane escreve que “a fim de ser bem-sucedida em política, uma pessoa deve ter suficiente habilidade interpessoal para estabelecer relações efetivas com outras” (REGO, 1985, p. 6). Mas sob essa habilidade, um político eficiente, compõe o seu discurso verbal e não verbal utilizando-se de argumentos dessa natureza a fim de tocar o outro, convencê-lo no seu íntimo, propondo uma cooconstrução com o eleitor, onde estes estão interligados por desejo de poder, por suas identificações, por suas ideologias e por seus princípios. É próprio, na definição da palavra política, estar sugerida as extensões semânticas de arte de convencer, persuadir e influenciar. O avanço técnico-cientifico, principalmente nos campos da Psicologia e da Teoria da Comunicação, nos fins do século XIX, trouxeram transformações significativas no ato de fazer política. A revolução comunista e o fascismo não teriam atingido a sua extensão sem a propaganda política.
Mais que estadistas e líderes guerreiros, esses dois homens, que de maneira, sem dúvida, bem diferente vincaram profundamente a história contemporânea, são dois gênios da propaganda e ambos proclamaram a supremacia dessa moderna arma: ‘O principal - asseverou Lenin - é a agitação e a propaganda em todas as camadas do povo’; Hitler disse: ‘A propaganda permitiu-nos conservar o poder, a propaganda nos possibilitará a conquista do mundo’.  DOMENACH, Jean-Marie, 2001, p. 3)

Quando analisamos a ação da Vontade de poder sob os mecanismos que abordamos até agora, principalmente, a característica principal do poder, a qual é sine qua non para sua existência, ou seja, o encontro entre duas, a formação do grupo, da massa, do povo, da civilização vemos que o político, o homem que deseja o convencimento político, nunca fala ao homem isolado. O italiano, um dos pioneiros no estudo de massas,  Scipio Sieghele em seu livro A massa criminosa procurou analisar os crimes coletivos: revoltas, linchamentos, etc. e concluiu que era impossível determinar culpados, porque os crimes eram cometidos, dentro do geral, sem detalhamento, como se todos agissem ao mesmo tempo, com a mesma intenção e intensidade. Para explicar o impulso de ação da massa ele trabalhou com a tese de que havia ali uma espécie de sugestionabilidade que levava os membros, dessa massa, a agir operacionalizadas por uma ideologia ou por um líder com o qual se identificasse e obedece sem consciência de ação. Ele foi um dos primeiros “a perceber a importância dos meios de comunicação de massa  (...)  Para ele, a nova imprensa seria uma manipuladora da massa” (OLIVEIRA, 2003, p. 5).
Tomamos o termo “massa” aqui como fora tomado pelo professor Ivan Carlo Andrade de Oliveira “A massa age como multidão, de maneira irracional e manipulável. Mas não há proximidade física.  (...)  Nos grandes centros as pessoas estão isoladas, atomizadas, e a principal influência acaba sendo os meios de comunicação de massa” (OLIVEIRA, 2003, p. 6), diferente do que ele próprio aponta que pensadores contemporâneos definiram como “Multidão”: onde todos agem por ação de ferormônios, irracionalmente, e podem ser dissipados por gás lacrimogêneo ou por um novo objetivo instintivo, biológico. A massa não pode ser dissipada porque não está nesse “transe sonambúlico” e também porque não se encontra unida geograficamente num mesmo espaço como a “multidão”. Ela só pode ser dissipada através de ações da Psicologia e, principalmente, da Pedagogia num processo de desalienação.
A  principal  característica  da  massa  é  o  pseudo-pensamento.  A  massa  acredita  que pensa,  mas  só  repete  o  que  houve  nos  meios  de  comunicação  de  massa.  Segundo  Luiz Beltrão,  o  poder  massificante  da  sociedade  é  de  tal  ordem  que  o  indivíduo  se  recusa  a acreditar que é apenas uma peça da engrenagem social e que suas idéias são idéias que lhe foram  implantadas  pela  mídia.  Ao  ser  perguntado  o  porque  de  suas  idéias,  o  integrante  da massa  repetirá  exatamente  o  que  ouviu  de  seu  apresentador  de  TV  favorito.  Ou  então  dirá simplesmente: ‘É claro que é assim. Você não viu que saiu no jornal?’ ou ‘mas todo mundo gosta disso, por que você não gosta?’  (OLIVEIRA, 2003, p. 6-7)

Freud em Psicologia de Massa e análise do Ego chama “massa” tal como estamos propondo aqui de “grupo Psicológico” ele se preocupa em explicar o fenômeno de massa, inquirindo, como uma pessoa, a qual todos conhecem a personalidade e os princípios, pode “sentir, pensar e agir” de maneira diferente da qual normalmente sentiria, pensaria e agiria quando estivesse sob influência de um grupo. O fato é que foi Gustave Le Bon quem cunhou o termo Psicologia de Massa ou de grupo e desenvolveu esse tema, sendo até hoje referência básica para estudo. Mas não vamos partir para uma analise mais detalhada desse autor porque Freud fez uma releitura de sua obra. É sobre esse que pretendemos nos debruçar porque vem ao encontro de nossa análise sobre as relações de poder e ajuda esclarecer melhor o fio de nossa meada.
Freud ressalta que agindo sobre essa massa estão fenômenos inconscientes que acham desguarnecidas as barreiras do superego e chegam a tomar a consciência com seu impulso desenfreado de satisfação.
Um grupo é impulsivo, mutável e irritável. É levado quase que exclusivamente por seu inconsciente. Os impulsos que um grupo obedece, podem, de acordo com as circunstância ser generosos ou cruéis, heróicos ou covardes, mas são sempre imperiosos, que nenhum interesse pessoal, nem mesmo de autopresevação, pode fazer se sentir. (FREUD, 1996,  p.88)

E mais para frente reitera: “Um grupo só pode ser excitado por um estímulo excessivo. Quem quer que deseje produzir efeito sobre ele, não necessita de nenhuma ordem lógica em seus argumentos; deve pintar em cores fortes, deve exagerar e repetir a mesma coisa diversas vezes” (FREUD, 1996, p.89). Aquele que deseja conduzir essa massa, só vai movê-la se se disfarçar dela mesma. Ele deve sussurrar o que lá no intimo desse inconsciente coletivo grita, falar a sua língua, comer a sua comida, beber o seu leite. E é o marketing político moderno aquele quem pode atingir essa massa com a melhor eficiência. Conta Gilberto Dimenstein no seu livro as armadilhas do poder conta que Jânio Quadros que nos comícios ele tirava um sanduíche de mortadela, o qual, normalmente não comeria em casa; espalhava imitações de caspas pelo ombro do paletó; fazia papel de vítima inventando doenças. O maior vínculo que o líder pode ter com a massa é o da identificação e a submissão. E sabido como se forma essa identificação e submissão através de Reich, encerramos esse capítulo nas palavras do professor Ivan que nos economiza explicação:
 
Como a massa não pensa, ela precisa de alguém que pense por ela, ela precisa de um pai,  que  lhe  diga  o  que  fazer.  Esse  papel  já  foi  exercido  por  líderes  políticos,  como  Hitler  e Getúlio Vargas. Não é à toa que o ditador brasileiro era chamado de “pai dos pobres”. Hoje quem  normalmente  exerce  essa  função  são  figuras  importantes  da  mídia,  tais  como apresentadores  de  TV.  Esse  inclusive  é  um  fator  potencialmente  perigoso  da  massa.  Como obedece  cegamente  aos  impulsos  recebidos  pela  mídia,  a  massa  pode  adotar  um  tom  de verdadeiro fanatismo contra qualquer um que ouse discordar de seus pontos de vista. (OLIVEIRA, 2003, p. 7)

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SCHOPENHAUER, Arthur. O livre Arbítrio. Minas Gerais: Novo Horizonte, v. III, 1985/1986.
Sérgio Caldeira
Enviado por Sérgio Caldeira em 25/05/2011
Código do texto: T2991881

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Sérgio Caldeira
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