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Ofcina Literária - Sobre o Fazer Literário 1

A grande Clarice Lispector disse que escrever é descobrir. Ou seja, então, é tirar as máscaras, é deixar somente o essencial, preciso, coerente e epifânico. Epifania segundo o Hoauiss é "a apreensão instintiva da realidade por meio de algo simples e inesperado (como um lugar-comum ou uma pessoa vulgar)" e cita um exemplo: "no percurso de seu trabalho, Joyce foi das coisas à sua epifania". Escrever é recriar a idéia concebida no pensamento, através de palavras. É imaginar essa idéia e com palavras torná-la em imagem fatídica, real e visível.

Para que essa imagem seja concebida o escritor dá vida e função às palavras. Para um pintor que concebe um quadro, é este, o quadro, o todo que ele imagina, mas cada componente na composição recebe dele uma especial dedicação, pois só através desse detalhe é que o todo será concretizado. Sem essa dedicação o quadro sairá prejudicado e não expressará a idéia inicialmente concebida na imaginação do pintor. Isso é arte.

O mesmo se aplica à idéia do texto: a escolha das palavras, o como elas são empregadas, o ritmo da pontuação, a concatenação das frases, tudo isso forma a idéia no todo. Se esse processo for mal-concebido o intuito de arte fracassará.

Escrever é um ato de concepção e não-somente um acidente, não é só dispor palavras em uma folha branca. Elas estão lá com a função de revelar a idéia original que estava no cérebro e no sentimento do autor. Revela sempre o conflito que envolve o ser humano, é sempre a expressão dessa experiência.

Se as palavras forem mal empregadas não veremos a concepção da idéia, não veremos o que imaginamos, confundindo e deformando o pensamento original.

Talvez o que Clarice Lispector quisesse dizer é que devemos trazer aos olhos dos outros aquilo que está na realidade, mas que estes não vêem. Devemos transpor a superfície das aparências cotidianas. Se não empolarmos o pensamento com palavras mal-concebidas (imagens conturbadas), enfeitadas, sem nenhuma precisão e nem nos enganarmos por vaidade tola chegaremos a uma contribuição útil para a sociedade, com nossos textos.

Quando Chico Buarque diz na música "construção": "morreu na contra-mão atrapalhando o trânsito". Ele ao descrever de forma objetiva um fato que provoca tanto sentimento (ou seja, subjetividade), provoca um estranhamento no leitor que o faz refletir e perceber que na rotina daquele operário existe muito mais do que a simples rotina. O Operário paradoxalmente só passa a existir dentro do cotidiano quando morre.

há mais sob superfície para "descobrir", trazer à tona do que uma carreira de plavras vazias, mal empregadas, desprovidas de função. Os impressionistas, por exemplo, quiseram ir além da fotografia. Van Gogh disse a seu irmão que quando pintava uma paisagem queria retratar o metabolismo das plantazinhas em movimento, se pintasse o sol queria refletir que dentro dele, o sol, naquele momento ocorria centenas de pequenas explosões nucleares. Ele queria mostrar que as coisas aparentemente imóveis estavam vivas: mudando, morrendo, renanscendo, envelhecendo e que nada era inerte no Universo. Quando ele pintou o quadro "os comedores de batatas" disse que queria mostrar que estes estavam em contante contato com a terra. E que a terra possuia pra eles um significado muito mais forte do que a simples reprodução da terra. Toulose Lautrec percebeu no mundo mórbido e hilário dos bordéis parisiense algo que não poderia um homem insensível perceber - a precisão da expressão e dos sentimentos no cotidiano das meretrizes saltam consubstancialmente de dentro do mundo dicotômico dessas personagens.

Dessa forma, a expressão que devemos captar por si é a comunicação precisa que tudo fala. Fala e se cala. O desnudamento da idéia através das palavras é a sintese da imagem que perceberemos como um todo. E que todo escritor deve perseguir.


 
     
Sérgio Caldeira
Enviado por Sérgio Caldeira em 26/05/2011
Reeditado em 26/05/2011
Código do texto: T2994921

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Sobre o autor
Sérgio Caldeira
Itapecerica da Serra - São Paulo - Brasil
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