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O papel do Artista na Obra

O ensaio escrito por Emanuel Carneiro Leão, \"O Papel da Obra na Criação Artística\", abre portas para o caminho de entendimento e correlação entre a obra artística e seu feedback nos processos de orientação dos processos da arte, que podemos chamar de \"estilo\", \"modus operandi do artista\", ou qualquer termo que denote a formação, consolidação e declínio de diferentes formas de representação física do abstrato humano. Mas faz-se necessário ter em mente, amiúde, o lugar que cabe ao catalisador destas manifestações, ou mesmo o progenitor delas, ou seja, o papel do artista na obra, e, conseqüentemente, na Arte¹.
O entendimento das formas de arte \"primitivas\" - entenda-se: relacionada a povos cujos modos de vida remontam a épocas mais próximas à origem universal do homo sapiens sapiens - nos dá o primeiro passo para este entendimento, na medida em que tais artes seguiam padrões rígidos de representação, seja ela na escultura, na pintura, na arquitetura, na música. Não cabe aqui destacar os meios que levaram a essas \"leis\", pois tal é a abordagem de Leão, e de inúmeros outros filósofos e estetas da Arte, mas aqueles concernentes ao artista em si.
Na arte do Antigo Egito, o artista era meramente um executor de um modus operandi que perdurara durante três milênios, não cabendo, a ele, nenhuma tentativa de rompimento com os padrões estéticos da arte de então. Cabe aqui ressaltar que a arte egípcia era uma forma mística de preservação dos reis e nobres mortos, e garantia de que sua forma, seus servos, escravos, ou mesmo feitos e glórias o acompanhariam através do além². O ofício cabível ao artista, portanto, era o de dominar as técnicas existentes, e aplicá-las segundo o retratado.
Cabe aí uma primeira consideração a respeito do artista. Tido como um modelo de precisão, de inteligência superior, de capacidade de análise reconhecidamente superior às pessoas de seu meio e, sobretudo, de afronta às formas de governo existentes, mesmo em tempos imemoriais à nossa história, o artista foi severamente reprimido pelos nobres egípcios, a fim de que não buscasse novos caminhos, novas culturas, e para que não se conhecesse outras formas de governo de origem não-divina, e um possível questionamento das dinastias nílicas. Muitos certamente foram condenados à morte por sua ousadia, o que reduziu o artista a um mero executor de moldes, subvalorizando-o.
A arte grega trouxe progressos magníficos, quanto à forma, concepção, refinamento, caracterização e técnica. Mas coube a Policleto (com seu kourós Doríforo) a primeira mudança histórica na concepção artística de até então: o movimento, concretizado por Miron.
Essa ruptura da estaticidade artística - associado ao curto período de existência dos povos do Peloponeso, se comparada à do povo egípcio, até então - mostra claramente uma diferença enorme do papel do artista, tido aqui não como o executor de padrões imutáveis, mas como a pessoa que, ativamente, contribui para inovações técnicas, renovando não só a Arte, como seu próprio papel, e maximizando sua importância secular.


¹Contrariando, portanto, a opinião de Gombrich quanto à arte em excelência, caracterizada com maiúsculas.
²Fato é, que todos os objetos retratados pelos egípcios são representados segundo seu ângulo mais representativo, necessariamente de modo a mostrar o objeto em toda a sua extensão, para que fosse todo ele preservado para a eternidade.
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Prova maior da liberdade que os gregos atribuíam a seus gênios, e o respeito que guardavam pelos mesmos, é a missão atribuída a Fídias de reconstruir a Acrópole, com seu Parthenon, seu Erectéion, suas métopas, frontões, cariátides. Fato é que nenhum artista egípcio da era antiga possui representatividade no mundo de hoje; sua obra bem poderia ter sido feita por qualquer outro artesão da época, enquanto os gregos, sobretudo nos períodos clássico e helenístico, deixaram inúmeros nomes e obras, para uma referência eterna do papel artístico, mais até que da já valorizada arte grega em si. A obra é lembrada, indissociavelmente, aos seus autores, como manifestação única do pensamento individual, expressão máxima e insubstituível do universo humano.
A Igreja relegou o artista novamente a um plano pouco inferior (fato é que a retomada da liberdade artística chama-se, não sem lógica, \"Renascimento\"), mas a técnica medieval não foi comprometida; apenas a temática era, em si, desprovida de originalidade.
O Renascimento Italiano foi a grande retomada do papel do artista, que atingiu novamente um papel de liderança intelectual, liberdade essa comprometida, durante mil anos, pelo clero¹.
A essa altura, o artista possuía um mecenas, nome dado ao burguês de uma rica classe emergente, que via na arte uma forma de equiparação social à nobreza decadente. Como antes, a arte continuou sendo praticada com uma finalidade ainda muito concreta: o adorno de paredes burguesas, de tetos eclesiásticos, de castelos reais.
A próxima ruptura a ser realizada é a da arte pela arte, que é o patamar no qual calçamos nossa idade contemporânea. É quando as manifestações artísticas tomam proporções não evidentes, retratando, à sua maneira, elementos do universo humano. A partir do momento em que ela deixou de ser sinônima da busca do belo (tornando-se \"degenerada\", segundo Hitler), passou a ser cada vez mais depreciada e distanciada do ser humano comum².
Em uma outra vertente desse distanciamento, surge a multimídia, e uma conseqüente massificação de gostos e opiniões, transformando o ser humano num \"bloco\" de consumo pronto, e diminuindo mais uma vez o papel e o prestígio dos artistas. É o ponto onde emerge o entretenimento midiático, que é uma forma simples, pouco original e nada reflexiva, de difundir opiniões já existentes, já divulgadas, sem ganho para a manifestação artística. Foi pertinente a afirmação de Stockhausen³ nesse sentido, em uma franca e desesperada tentativa de devolver à arte o seu devido papel, e de definir arte como as ações humanas responsáveis por mudanças, severas ou não, benignas ou não, nos processos humanos.
A asserção do prof. Karlheinz foi vilipendiada pelo mundo, e notadamente pelos americanos, que são justamente o império que menos contribuiu artisticamente para a humanidade, embora seja responsável por grande parte do entretenimento massificado. Tal postura só reafirma o pequeno papel cabível ao artista, e a enorme e preocupante relevância que o entretenimento ocupou no lugar da arte.
Os grandes meios de comunicação - personificados, no Brasil, sob a forma de grandes empresas, como a Rede Globo - consolidam a passividade relegada a seus artistas, com suas novelas, seriados e programas diversos, em que nada de consistente é verdadeiramente trazido à tona, senão alguns tabus culturais e sexuais, oportunamente esquecidos após o término da discussão. Em troca a esse abandono do papel do artista, oferece-se uma ampla exposição midiática, e oportunidades de estabilidade financeira, o que, ironicamente, nos remete há quatrocentos anos atrás quanto ao mecenato, e há cinco mil anos atrás quanto ao niilismo inovador em que nos metemos.
Não há dúvidas de que esta dicotomia perdurará por muito tempo, para o franco prejuízo humano, onde deixa-se a Arte de lado, para abraçar momentos de diversão acéfala, que nada contesta, muda, destrói. Culpa, sobretudo, dos artistas que constroem sua carreira por si, e não pela mãe Arte, um erro punido pelas aparentemente frágeis mãos da mesma. Culpa de quem não entende (ou não quer enxergar) que seu talento não é seu, seu corpo, sua beleza, suas mãos e pernas, mas dons divinos, com os quais devemos assumir nossa grave responsabilidade de cumprir o papel concernente ao dom que nos foi emprestado.
Aos artistas, fica uma permanente dúvida: a verdade ou a ilusão? A Arte nos faz enxergar a verdade, não sob uma ótica externa, como um telejornal, mas sob uma perspectiva interior, capaz de mudar a humanidade, de transformar seu caráter. O impacto que uma obra de arte causa no ser humano é único para cada indivíduo, e produz uma transformação única, ao passo em que o entretenimento padroniza sensações e, se é que não transforma ninguém, converge a massa para uma mesma opinião.




¹Não à toa, o autor reconhece profundas semelhanças, a tal ponto, com o papel do artista egípcio, e a necessidade do não-comprometimento da estrutura político-religiosa vigente. Basta lembrarmos os inúmeros artistas e intelectuais que foram condenados e tiveram sua obra renegada durante séculos, para então serem reconhecidos.
²Em tempo: \"A distância entre homens como Platão, Goethe, Nietzsche, e um ser humano comum é muito superior à distância entre um ser humano comum e um macaco.\"
³\"Os atentados terroristas de 11 de setembro foram a maior manifestação artística da história humana.\"
Thiago Salinas
Enviado por Thiago Salinas em 02/07/2005
Código do texto: T30424
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Sobre o autor
Thiago Salinas
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 35 anos
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Thiago Salinas