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Monólogo de uma demente


Monólogo
Cena 1
Da platéia, a atriz sai
_Alguém pode me dizer o que é a loucura?
_Ei, o senhor sabe me dizer por que há tanto louco hoje em dia?
_A senhora aí, acha que tenho cara de louca?
_Ah, você se acha louco? Pode falar não se envergonhe não!
_Alguém, na platéia, conhece algum louco?
_Existe alguém aqui que, por acaso, conhece a Juliano Moreira?
_O papo é sério!

Cena 2
Num canto qualquer da platéia, já incorporando pouco a pouco o seu personagem
_Eu tenho certeza que sou louca! Louca...louca...louca!
Pudera! Desde de criança, sempre me chamaram de louca! Meu irmão, então era quem mais me chamar assim.

Cena 3
A atriz já no palco; vozes narradas como se fossem de sua lembrança (no auto-falante); dissonantes. A atriz corre de um lado pra outro.
“Essa menina é louca!”
“Que louca é essa garota!”
“Louca!”
“Louca...! Sua louca!

Cena 4
A atriz totalmente incorporada numa louca. A luz se fecha nela.
_Minha irmã, você não enxerga um palmo além do nariz!  Eu amava meu irmão. Ele não, me odiava, só queria me molestar. Não sabia quanto me feria! Às vezes, eu o odiei! Ele me chamava de alienada, pior; chamava-me de:
“A b e s t a l h a d a!”

Cena 5
A atriz se olha num espelho, como se tivesse encontrado um sentido.
_Acho que meu irmão tinha toda razão? Vai ver que sou mesmo maluca. Ele sempre me disse que eu nunca tive nada na cachola. Estava certíssimo! Nunca tive nada, nadinha! O bicho, com certeza, comeu meus nerônios.

Cena 6
Vozes do além. Um buchicho medonho.  A atriz fixa a platéia; daí ,escuta o seu irmão nos seus devaneios. (fantasma do irmão na platéia)
“Sua m a l u c a!”
“Louca de pia!”
“Você é maluca e não adianta negar!”
“Maluca, tá me ouvindo?”
“Louquinha de marré de si!”

Cena 7
A atriz aperta os ouvidos desesperadamente. De uma hora pra outra, como se estivesse cara-a-cara com o irmão
_Meu irmão, quer saber? Sou louca mesmo e daí? Todo mundo é louco mesmo. Um a mais ou a menos. Não é diferente com você não, viu? Sabe de uma coisa? Sou louca e você não tem nada a ver com isso, seu retardado! Quero ser louca. Gosto de ser louca. Sou louca, mas sou feliz, mais louco é quem me diz.

Cena 8
A atriz, nesse instante, se dirige a um balanço. Está muito feliz. Balança-se pra lá e pra cá. Dá gargalhada. Gargalha sem parar. De repente, mira séria numa só direção, como se alguém lhe chamasse a atenção.
_Cadê você papai? Preciso do seu amor; do seu carinho. Por que o senhor abandonou minha mãe? A gente era tão feliz! Mas, o senhor tinha que nos deixar! O senhor foi mau conosco! Puxa vida! Por que o senhor fez isso?  Como eu gostava de passear com o senhor no parquinho! Lembra-se, pai, como brincávamos de gangorra? Mamãe agora trabalha de sol a sol, ela é doméstica pra nos sustentar. Não tem tempo pra nada, muito menos pra brincar comigo. Parece uma maluca, a coitada! O senhor onde está, paizinho? Volta! Sinto muito sua falta.

Cena 9
A atriz, sem quê nem pra quê, levanta a saia. Agacha-se, mostra a vontade de fazer xixi. Ela realmente faz xixi na frente de toda platéia.
_Ai que vontade de tomar café! Tem um cafezinho aí, mãe?  Nada de me bater, viu? Eu já estou no vaso. Odeio sentar aqui, minha mãe! A sra. adora me pôr de castigo no vaso e ainda me chama de doida por fazer xixi no chão.

Cena 10
A atriz brinca enquanto faz xixi, está improvisando um desenho no chão.
_A Lília é linda! Minha amiga do peito! Tola! Pensa que eu não sei que roubou meu namorado! Aquele outro, somente me fazia de boba. Mas quem era bobo era ele. Sempre soube de suas pilantragens com minhas amigas. Santinho do pau o-c-o!

Cena 11
A atriz faz de conta que confidencia com a platéia
-Ei, não digam pra ele não, senão o pau vai quebrar. Ele vai querer me bater. Ele não pode nem sonhar. A mãe dele há anos ficou louca; depois que o filho caçula morreu de overdose.

Cena 12
A atriz estatela-se no chão. Enquanto isso, chupa os próprios dedos. Encarna-se na pele dum bebê. Chora.
...
De repente para de chorar e grita:
_Que danado foi isso, meu amor? Tá louco, é? Penso que o fim de todo mundo é o hospício. Também, as pessoas são umas tontas, não fazem coisa com coisa. Creio nisso, somente eu me safarei porque sou a neném da mamãe.
_Glu...glu, gla...gla

Cena 13
Finalmente, enrosca-se como se estivesse no útero de sua mãe.
Ali fica, cada vez mais enrolada, parecendo mais um caracol. Ali ela apenas quer ficar na paz. Vivenciar o momento placenta.

Lourdes Limeira
Enviado por Lourdes Limeira em 12/09/2011
Reeditado em 12/09/2011
Código do texto: T3214990
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Sobre a autora
Lourdes Limeira
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 47 anos
308 textos (10086 leituras)
4 e-livros (166 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 18/12/14 13:25)
Lourdes Limeira



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