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Fidelidade

FIDILIDADE

Era uma tarde de Verão, já perto do crepúsculo, sentados á porta de minha casa, estavam os meus pais, o Zé Simões e o Libaneo . Tinham acabado as festas de Stº  António.
Estavam todos muito animados. Cada um contava uma graçola. Eu estava como sempre afastada do grupo. Aquelas conversas sem consistência não me interessavam.
Subitamente, aparece um cão perdigueiro, castanho como uma estrela branca na testa. Aproximou-se de mim, como quem pede amizade. Fiz-lhe uma festa, perante o olhar horrorizado de todos, pois o animal era estranho e podia morder-me. Mas não, começou a abanar a cauda, e a repuxar os beiços, como querendo rir.
Notando este movimento, o Libeneo comenta:
- Ó sor Galveias, já viu este cão? Parece que está a rir...
- Como se chamará ele, pergunta meu pai.
O Libeneo, começa então a dizer alguns nomes, o cão respondeu ao nome Tejo.
- É Tejo sor Galveias, diz o Libeneo todo contente por ter “adivinhado” o nome do cão. Ri-te Tejo! Ri-te, e o Tejo ria-se....
Tejo, foi adoptado, mais por mim que pelos meu pais, e lá ficou em nossa casa. Era muito meu amigo. Lembro-me que o meu pai de manhã, vinha para o Monte e chamava-o, ele ia; Chegados lá, o meu pai punha-lhe o saco do pão e o jornal na boca dizendo: - Vá, vai levar á menina, e o Tejo lá vinha, correndo, para me entregar a encomenda; devo salientar que, a dita só a mim era entregue, pois ele não a dava a mais ninguém.
Quando eu pegava no meu cobertor e no livro, ele já sabia, começava a abanar o rabo e corria em direcção ao montado, direitinho ao sobreiro onde eu costumava  sentar-me a ler, e ali ficava  deitado, com a cabeça entre a patas, até á hora de regressarmos.
Recordo, que um dia adormeci. Acordei com os latidos do Tejo, que ao tempo que ladrava, me puxava uma manga, acordei e que vi eu? Um lagarto, tão assustado, como eu fiquei, e como o Tejo estava, julgo que receando que o lagarto me fizesse mal, pobre bichinho....nem se mexia.

Ás vezes, eu ia até ao Monte, o meu pai logo que via o Tejo dizia: -  Vem aí a minha filha, já aqui está o cão, ela não deve estar longe.
Muitas vezes, a minha mãe, que era muito doente, tinha que ficar hospitalizada, meu pai saía por vezes durante uma semana, eu ficava sozinha em casa.  Sozinha não, o Tejo estava sempre comigo, entrava em casa, deitava-se aos pés da cama e, era o meu guardião.
Se eu saísse já depois de escurecer, e, ele visse algum vulto, ou luz de bicicleta, começava logo a rosnar...Nem os meus pais podiam levantar-me a voz, o Tejo não gostava. Um dia em que o meu pai levantou a mão pra me bater, ele quase o mordeu.
Foi o Tejo, o meu companheiro durante muito tempo. Já não sei quanto, um ano dois, não me lembro.
Um dia, aquele que viria a ser meu marido, foi lá a casa, ao ver o cão disse:
- De onde veio este cão?
- Não sei, responde o meu pai, apareceu aí, afeiçoou-se á minha filha e não a larga pra onde quer que ela vá.
- Este cão, é do meu primo Alfredo Maneta. Ele tem andado doido á procura dele, até ofereceu uma recompensa a quem o encontrasse, amanhã já lhe digo que o cão está aqui.
- É pá, diz meu pai, tens a certeza? É que o animal, parecia não ter dono, é estranho, os animais sabem sempre o caminho de casa, principalmente os cães.
- Tenho a certeza, respondeu o “meu futuro marido”
- No dia seguinte lá apareceu o dono do cão. Tejo não se mostrou muito contente, quase o ignorou. Porém, o dono chamou-o: Nero! (ao ouvir aquele nome pensei que aos ouvidos dele, Tejo era o nome mais parecido com Nero) Vem ao dono. Um pouco triste ele lá foi para casa do dono.
Eu fiquei muito triste. O meu fiel amigo fora embora.
Um dia, oiço uns latidos de alegria, era o Tejo. Chegou-se a mim, lambeu-me as mãos e o rosto, gania e latia de contentamento.
Ficou uns dias, depois foi-se embora. Aconteceu assim durante muito tempo...Ia e vinha, sem que o chama-se ou mandasse embora. Até que numa das suas viagens, foi atropelado por um camião e morreu.   Chorei muito.  Ainda hoje me vêm lágrimas aos olhos, quando lembro aquele amigo, fiel, que, nunca mais se esqueceu de mim., ao contrário do que acontecia em relação ao seu verdadeiro dono....
Arroja, 16 de Julho de 2004
Maria Isabel Galveias
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Maria Isabel Galveias
Enviado por Maria Isabel Galveias em 17/08/2005
Código do texto: T43326
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Sobre a autora
Maria Isabel Galveias
Portugal, 74 anos
8 textos (898 leituras)
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