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 RECORDAÇÕES

Mais um fim de semana!
Micaela detestava os fins de semana. Sabia que iria para casa, se encafuava no sofá a ver televisão, ou a dormir.  Como era sozinha, nunca tinha vontade de sair de casa.
Houve um tempo que ainda saía de vez em quando com sua amiga Raquel, mas esta tinha arranjado  um companheiro, e já não lhe sobrava tempo  para saídas com a amiga. Pelo menos Raquel andava feliz, já era algo de positivo.

Olhou o relógio, 18,30h. Tinha despachado o seu trabalho cedo. Pôs em ordem os papeis, arrumou-os na gaveta da secretária, tapou o computador, acendeu um cigarro, que raio de vicio tinha arranjado, enfim alguma distracção havia de ter...esta era a desculpa que ela dava, quando lhe chamavam a atenção por fumar, ás vezes em demasia.

Recostou-se na cadeira saboreando o cigarro, e sorriu para consigo, pelo facto de ter sempre a sua secretária impecavelmente arrumada. Suas colegas diziam que era mania, mas não, era tão somente a força do hábito. Fechou os olhos, e recordou com alguma saudade o seu primeiro  emprego.   Luísa, sua chefe era exigente, e não gostava que as empregadas deixassem as secretárias desarrumadas de um dia para o outro. Dizia e com razão que havia documentos com alguma confidencialidade e não deveriam ser expostos á curiosidade dos empregados de limpeza. Assim Micaela ficara com este pequeno defeito profissional. Talvez por isso entre outras coisas, ela era a funcionária em quem o Director mais confiava. Voltou a olhar para o relógio, faltavam cinco minutos para as sete, preparava-se para sair, quando o Director a chamou pelo interfone.
- D. Micaela?
- Sim senhor Director.
- Ainda bem que não saiu, poderia chegar aqui ao meu gabinete?
O que seria  este queria agora?
Bateu á porta, e, entrou.
- Desculpe D. Micaela, mas preciso que me faça o favor de enviar por correio electrónico, ainda hoje, este relatório para Deutz,  é que só agora o Conselho de Administração deu autorização para comprar as peças dos motores das máquinas, e sabe como é importante que as mandem com a maior brevidade.
Com certeza Sr. Director. Respondeu cortesmente.
Já ia a sair quando ele pergunta:
Espero que não vá transtornar os seus planos, como é fim de semana...

- De modo algum. Não tenho nada importante para fazer este fim semana. Não atrapalha nada.
- Nesse caso, fico muito grato. Até segunda e bom fim de semana.
- Bom fim de semana também para si, responde ela já da porta.

Como era seu costume leu atentamente o relatório, e só depois o passou no computador. Eram 21h quando deu por findo o trabalho.
Pegou na mala e saiu.
Na rua estava um calor infernal, como tinha ar condicionado nem se tinha apercebido do calor que estava. Ainda bem que o carro já estava á sombra.
Pôs o carro a trabalhar, e enquanto o motor aquecia acendeu outro cigarro. Apetecia-lhe sair, ir ao cinema ou a outro lado qualquer, mas sozinha? Suspirou e arrancou um pouco irritada consigo mesma.
O transito estava impossível, o que contribuiu para a enervar ainda mais.
Por fim lá conseguiu chegar a casa, cansada e aborrecida.
Foi ver se tinha mensagens no telefone, mas ninguém lhe tinha telefonado como era usual, nunca ninguém lhe telefonava...
Tomou um duche frio, e preparava-se para comer qualquer coisa, quando, milagre dos milagres, o telefone tocou. Viu as horas, era já meia noite, quem seria a esta hora? Ficou um pouco assustada, seria alguma má notícia?
Um pouco a medo atendeu:

- Sim?
- Boa noite, responde uma voz masculina que lhe era vagamente familiar, é de casa do sr. David Falcão?
Ficou um pouco indecisa, quem seria este? Pelos vistos não sabia que estavam divorciados.
Mas deixou-se levar pelo instinto, e respondeu:
- É sim.
- Seria possível falar com ele?
- E quem quer falar com ele?
- Sou um amigo e antigo camarada da tropa, o Simões.
O Simões? Que estranho, então ele não sabia? Cada vez mais intrigada responde:
-Ah  Olá sr.  Simões como está? E a sua esposa como vai?
- Eu estou bem, ela não sei, nós separámo-nos, já há três anos.
- Sim? Não sabia. O David não me contou nada.
- É natural, eu desde que vocês estiveram em nossa casa nunca mais falei com ele, por isso suponho que ele ainda não sabe.
Pelos vistos fora contagioso, pois havia também três anos que ela e David se tinham separado.
Contudo alguma coisa lhe soava estranho. Porque haveria o Simões de telefonar aquela hora? Aqui havia coisa. Sorriu, a desconfiança tinha sido nela inoculada por David.

- Pois ele não está. Neste momento está a trabalhar.
Qualquer coisa lhe dizia que não devia falar da sua separação, assim, seguiu o seu instinto que raramente a enganava.

- Então a D, Micaela pode dizer-me onde ele está a trabalhar?
Gostava  de falar com ele.
E agora Micaela? Como vais descalçar esta bota? Mentindo claro.
- Pois não sei! É que ele foi para um novo cliente, e ainda não me disse onde estava.
Pareceu-lhe que ele estava a rir-se. Também Micaela és uma desconfiada, pensou, apercebeu-se porém que para ela era difícil dizer que era divorciada, era como se tivesse sido marcada com um ferro em brasa...
-  Ah! Se ele lhe telefonar diz-lhe para ele me ligar por favor? Eu hoje estou de serviço nos bombeiros.
-  Com certeza, dir-lhe-ei sim.
-  Então boa noite, e desculpe tê-la incomodado a esta hora.
-  Não tem importância, boa noite!

Tinha perdido o apetite. Ela que tudo fazia para tentar esquecer David, havia sempre alguma coisa a recordar-lho. E como não havia de haver, se ela tinha fotos dele espalhadas por toda a casa, exactamente no mesmo sítio onde as colocara ainda casada.

Olhou  para uma que estava sobre a televisão. Ele parecia sorrir-lhe, dava a sensação que queria dizer-lhe algo.
Mas David nunca mais dera sinal dele. Isso entristecia-a demasiado. Tinham decidido continuar amigos, mas sem ela saber porquê ele deu o dito por não dito, e nunca mais soube dele....

Contra sua vontade, lágrimas rebeldes rolaram-lhe na face.
Não fora de sua vontade a separação. Sabia que ele também não queria isso, então o que foi que aconteceu? Que foi que os separou? O orgulho, só o orgulho idiota de cada um deles.
Agora ela levava uma vida vazia sem interesse por nada.
Tinha alguns amigos que ás vezes a convidavam para sair, mas sabia de antemão que a intenção não era só levá-la a passear, almoçar, ou ir ao cinema.....Só que ela fazia-se desentendida, eles acabaram por desistir. Agora sozinha muitas vezes se arrependia, mas não podia fazer nada. David era e seria sempre o seu marido....

Embrenhada nestes pensamentos, nem deu pelo tempo passar, e quando viu as horas era quase dia, cinco da madrugada....
resolveu tomar um comprimido para dormir, dormir, esquecer, era tudo o que lhe restava.
Estava quase a adormecer, quando o telefone toca de novo.
Meu Deus, pensou, quem será agora? Só temia que algo acontecesse a algum dos seus filhos, estavam tão longe dela.... E tão esquecidos que tinham mãe....
- Estou?
- Boa noite! Ou será bom dia? Ainda acordada?
Micaela deu um pulo. Aquela voz...estava a sonhar ou era David? Não, não podia ser....
- Estou sim, quem fala?
- Ainda não passou tanto tempo que não reconheças a minha voz, ou já?
- Na verdade não estou reconhecendo não, respondeu insegura.
- Estás sozinha?
- Isso interessa?
- Sim. É até importante, para mim, saber.
- E porquê?
- Diz-me só se estás sozinha ou acompanhada.
- Se é tão importante, estou acompanhada, mentiu. Lá estava o orgulho a falar mais alto. Mas que queres? Precisas de alguma coisa?
- Afinal sempre conheces a minha voz. Preciso sim. Preciso de ver-te.
- Lamento, mas não vai ser possível.
- Está bem, sendo assim até outro dia em que estejas sozinha.
- Adeus, até esse dia.

Desligou o telefone e chorou, de raiva, se queria tanto vê-lo, porque respondera assim? Maldito orgulho, que falava sempre mais alto!
Não foi para a cama, deitou-se no sofá e ali ficou a chorar de raiva e saudade.
Pouco tempo depois era a campainha da porta que tocava. Raio! Quem seria agora, será que não podia dormir nem um segundo esta noite?
- Quem é? Ninguém respondeu. Devia ser algum vizinho que se esquecera da chave, só podia.
- Quando ia voltar para o sofá, ouviu um pancada leve na porta. Espreitou pelo ralo, e... era ele! Era David!
Não podia ser. Não podia acreditar. Abriu a porta e lá estava ele sorrindo com ar burlão.
- Posso entrar?
- Claro. A casa é tua.
- Posso beijar-te?
- Também. És o meu marido. Podes e deves.
- Ele beijou-a suavemente como era seu costume.
- Micaela estava radiante. Não cabia em si de tanta felicidade.
- David fora visitá-la, ao fim de tanto tempo....
- Sentaram-se e conversaram imenso tempo, até que ele perguntou, posso cá dormir hoje?
- Podes a cama está vazia, eu durmo no sofá.
- E não queres dormir comigo?
- E tu queres?
- Foi para isso que vim, apesar das tuas mentirinhas...
E foram...Que bem lhe sabia sentir o corpo dele encostado ao seu.
- Ouviu ao longe uma melodia de Mozart...ela adorava Mozart
- A melodia repetia-se uma e outra vez...até que acordou e se viu deitada no sofá, e era o telemóvel a tocar, o seu amigo Ricardo, convidava-a para ir tomar café com ele. Reparou então que era domingo, pois só ao domingo ele a convidava...
O que ela julgava ser o corpo de David, eram as costas do sofá.
Mais uma vez a visita de David não passara de um sonho...
Porque acordou? Estava tão feliz a sonhar...
E o telefonema teria sido sonho também?
Efeito dos comprimidos para dormir que ela tomara....
Sentiu-se mais triste e infeliz que nunca.....
Mesmo assim, vestiu-se para ir  tomar café com o amigo.  Talvez David aparecesse por lá....Quem sabe? A esperança é a última a morrer....
Quando chegou, já Ricardo a esperava. Acolheu-a com o seu costumado sorriso amigo...
Entretanto, o sr. Maurício que era o dono do café, pessoa sempre bem disposta, e, que parecia gostar de Micaela, chamou-a e, disse-lhe baixinho:
    -  Sabe quem esteve aqui ontem?
O seu coração pulou-lhe no peito, mas disfarçando respondeu:
- Não. Quem foi?
- O sr. David.
- Sim?
- Sim. Vinha com pressa, mas veio cumprimentar-me. Sabe? Achei-o triste, abatido parecia mais velho...
Meu Deus, pensou, todos o vêem menos eu...
Afivelou um sorriso despreocupado, e lá foi tomar café, e conversar com o seu inseparável amigo Ricardo...
De volta a casa, tomou uma dose maciça de sonoríferos, e dormiu até ás 7,39h de segunda feira de um só sono.
Tomou o seu habitual duche, e lá foi para mais uma semana de trabalho.

Arroja 2002-07-26
Maria Isabel Galveias
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Maria Isabel Galveias
Enviado por Maria Isabel Galveias em 17/08/2005
Código do texto: T43332
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Sobre a autora
Maria Isabel Galveias
Portugal, 74 anos
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