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Recordar é viver

O meu dia de 20-7-2004

Hoje fui a uma entrevista a fim de arranjar um emprego, para as minhas horas livres. Foi uma autentica romaria de saudade.
A entrevista era nos Olivais. Olivais Sul como agora é designado. No tempo em que lá vivi, era Olivais somente.....

Teria que estar ás 13h no n.º 56 da rua Cidade da Beira. Não sabia onde era, no meu tempo por ali só havia quintas, e oliveiras.
Fui cedo, para descobrir o local, e, chegar a horas á entrevista, perguntei ao motorista da Carris, onde ficava a dita rua, ele parecia não saber ao certo. Nesta bem fadada terra, se alguém souber alguma coisa vai preso, por certo.
Desci do autocarro, na rua de Nampula, passei nas ruas de Quelimane, João Belo, Lourenço Marques, Inhambane.......No espaço de uma hora percorri, Moçambique do Rovuma ao Maputo, até que chaguei á rua Cidade da Beira.
Esta rua fica perto do lindo Vale do Silêncio, esse sim, é do meu tempo.

Para fazer tempo, pois era ainda muito cedo, entrei num café, e, quando estava tomando a minha bica, entrou um senhor, muito bem disposto e galhofeiro. A empregada começou a brincar com ele, e, ele acabou por dizer que tinha 80 anos. (Não lhe daria mais de 50)

Como boa Moçambicana, logo entrei na conversa, perguntando se ele era daqueles sítios, ao que ele respondeu:
- Sou aqui nascido e criado minha senhora, já lá vão 80 anos....
- Então, deve lembrar-se da Quinta dos Serrões...
- Se me lembro! Havia lá uma fábrica de Curtumes, trabalhei lá
- Conheceu portanto, o meu avô, ele era o encarregado da fábrica.
- Se conheci. Era boa praça esse sr. Paulino, era assim o nome dele não era?
- Era sim. Eu fui para essa quinta, quando tinha 18 meses, vivi lá até perto dos 14 anos....
- Ai minha senhora, isso é que eram tempos...!
- É verdade! Sabe? Estes Olivais de hoje não me dizem nada, já nem sei onde estou.
- Aqui é a quinta do Patacão, lembra-se?
- Lembro sim, vim muitas vezes aqui apanhar caracóis, com a Rosita da Alaguesa.
- A Rosita? A senhora conheceu a Rosita?
- Sim. Fomos criadas juntas. Nunca mais a vi!
- Ela mora na Rua Alves Gouveia vejo-a muitas vezes.
- Quando estiver com ela, diga-lhe por favor, que encontrou a Belinha dos Serrões, e que ela lhe manda um grande abraço está bem?
- Minha senhora, ainda hoje lhe vou dar esse abraço, fique descansada!
- O senhor lembra-se, dos bailaricos dos Santos Populares, que havia no Rossio? (Largo da Viscondessa)
- Se me lembro... Eram outros tempos. Quantas vezes lá ouvimos os Lírios, no tempo do Jacinto Lopes...
- É verdade. Ele cantava tão bem! Havia também os Mensageiros do Ritmo, com o João Loureiro....Era a época do give, das rumbas, o xa-xa-xa, o tango, enfim nesses tempos não eram ainda consideradas danças de salão, dançavam-se em todos os bailaricos...
- Minha senhora, nem imagina, quanto me alegro, por poder falar desses tempos, com quem os viveu...Esta mocidade de agora, tem tudo o que nós não tivemos, mas com tanta coisa, que nem sabíamos que existia, nós fomos muito mais felizes.  Fala-se da fome que se passava nesse tempo...Eu nunca tive fome! Haviam tantas árvores de fruta, e fruta da boa, sem corantes nem conservantes, como a de agora. Ia-mos á xinxada, e enchia-mos a barriga. Os donos faziam de conta que não nos viam, e no fundo, era a maneira da rapaziada se divertir. Não havia droga, nem nada disto que o dito progresso nos trouxe.
Eram quase horas da minha entrevista. Com alguma pena, pois havia ainda tanta coisa a recordar ,despedi-me do senhor, dizendo:
- Bem tenho de ir. Talvez nos encontremos por aqui mais vezes.
- Aí minha senhora. Oxalá assim seja. Hoje foi um dos dias mais felizes que tive. É tão bom recordar o passado!
O senhor tinha lágrimas nos olhos, e eu também. Afinal, não sou só eu que tenho saudades, há mais quem tenha.
Acrescento, que consegui o tal emprego. Fico duas vezes feliz. Uma porque o consegui, outra porque vou ter oportunidade de voltar a ver aquele senhor, que tanto gosta, como eu, de recordar o nosso lindo bairro dos Olivais, quando ele tinha realmente oliveiras, e, muitas quintas, com alegres camponesas, com quem eu cantava ao desafio.
Foi um lindo dia para mim.....
Arroja-21-7-2004
Maria Isabel Galveias
Maria Isabel Galveias
Enviado por Maria Isabel Galveias em 17/08/2005
Código do texto: T43335
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Sobre a autora
Maria Isabel Galveias
Portugal, 74 anos
8 textos (898 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/12/16 04:34)