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Uma noite de Natal


                                   
                       Uma noite de Natal

Rita, está só. Só, na mais completa  profunda e amarga solidão. Ela sempre gostara de estar sozinha, todavia, como essa solidão hoje é dolorosa...!

Recorda com alguma amargura, as palavras proféticas de sua mãe, quando ela era ainda uma garota, e se isolava do mundo...
- Credo rapariga! Só, se veja, quem só, se deseja....
Lembra-se ainda, de na sua curta infância, dizemos curta porque ela mal desfrutara da infância, adolescência, e até da vida, já que fora, desde muito nova, marcada pelo infortúnio, de ser filha única de pais sempre desavindos.
Como sempre se sentiu mal amada, daí, o seu isolamento, o seu fugir constante de tudo e da todos, como se assim, pudesse alijar de si o fardo que era a sua vida.

Pegava num livro, seu companheiro inseparável, e, lá ia sozinha para o montado...Como ela dizia, metia-se dentro do livro e viajava, pelo mundo largo e grande da fantasia. Era feliz assim.
Seus pais, esqueciam-se que ela existia. Não ligavam nada ao que ela fazia, desde que não falasse com rapazes, tudo estava bem.
Casara, não fora feliz nem infeliz. Entregue de corpo e alma ao marido e aos filhos, lá foi vivendo.
Ás vezes, ao domingo, seu marido que gostava de jogar futebol, saía para jogar e ela deixava que os filhos também fossem, para desfrutar de duas horas de solidão, paz e sossego, já que as crianças, alegres e vivazes, faziam barulho com as suas brincadeiras e ela sentia-se por vezes cansada. Sabia-lhe bem aquele bocadinho.
Contudo, sabia que não estava só. Eles chagavam alegres e felizes, contavam todas as peripécias do jogo, e era a alegria que se instalava, no lar que, sempre tentou fosse feliz, dando aos filhos tudo aquilo de que tinha sentido falta.
Mas a vida passa. Ao fim de 23 anos de casamento mais ou menos felizes, Rita ficou só.
O marido falecera, os filhos casaram, e, seguindo o curso natural da vida, ela ficara só, definitivamente.
Tentara reconstruir a sua vida, mas não deu certo.
De quem seria a culpa? Dela certamente...
 O primeiro relacionamento, aconteceu pouco tempo depois de enviuvar...
Fora uma paixão louca e desenfreada. A paixão que deveria ter sentido na sua adolescência talvez. Só então se deu conta de que nunca sentira pelo seu marido, o amor, a loucura que sentira por Luís.  Mas...havia sempre um mas, a estragar a sua felicidade. Luís era casado, e embora quando Rita o conheceu, já não vivesse com a esposa, esta quando soube do seu romance, fez-lhe a vida num verdadeiro inferno.
Luís, embora a amasse, também não lhe dava estabilidade emocional, até que um dia, sete anos após a relação, Rita se cansou, discutiram e ele saíra da sua vida.
Foi muito dolorosa para ambos esta separação. Ele tentou tudo, para se reconciliarem, pediu ajuda á mãe de Rita, aos filhos, aos amigos, mas Rita fora irredutível.
Melancolicamente Rita, relembra a sua vida com Luiz e lamenta a sua atitude de então. Como foi louca e orgulhosa...E como fora feliz! Junto de Luiz, Rita vivera o péssimo e o óptimo. Divertiu-se, viveu como  nunca se sentira viva. Foram anos inesquecíveis, mas ela tinha de estragar tudo, convencida, de que tinha a verdade na mão...deitara tudo a perder, com o seu orgulho besta e estúpido. Louca  que foi...! Agora chora a felicidade perdida, mas nada pode remediar o mal que a si própria causou...
Quando soube da rotura, Madalena esposa de Luiz pediu o divórcio... Por ironia do destino, seria ironia? Ele não foi para nenhuma das duas.
Mais tarde, conheceu Rui, foi uma relação curta, que chegou para colmatar a falta de Luiz, tudo parecia correr bem entre eles, mas mais uma vez o destino fez das suas, e Rui acabou preso nas redes da melhor amiga de Rita, facto que quase arruinou a vida de Rui.

Rita perdeu o namorado, e perdeu a amiga....
Perante este pensamento, ela sorri, se os perdera, é porque não eram lá grande coisa, nem como amiga, nem como namorado.

Só, que naquela altura Rita era ainda jovem, bonitona, cheia de energia e vitalidade.
Luiz continuava a persegui-la, e, então, conheceu Carlos.
Para fugir ás investidas de Luiz, começou a sair com Carlos, apenas como amigos, só que a amizade acabou em casamento.
E que casamento!
Irascível, pouco comunicativo, Carlos tornou a vida de Rita insuportável.
Ela perdoava-lhe tudo. Ainda hoje se pergunta porquê.
O casamento durou dez anos...E mais uma vez Rita, se fartou de ser feliz..? infeliz..?
Na altura, sentia-se muito, muito infeliz. Agora, sozinha, numa casa que para ela se tornou um sepulcro em vida, sem amigos, longe da família, mais uma vez Rita chora a falta da “infelicidade” que tinha,
E sente o travo amargo, da solidão mais profunda e absoluta, que alguém alguma vez sentiu.

Como sua mãe vaticinou, está só. Angustiosamente só..... Restam-lhe apenas as suas tristes recordações.

É Natal. Rita, recorda sem muita saudade, alguns Natais da sua infância. Não eram muito alegres, nem divertidos. Passados sempre com seus pais, algumas vezes com seus tios. Não se lembra de alguma vez ter passado o Natal com os avós....O avô vinha de vez em quando, mas avó não gostava nada destas festas em família...Só mais tarde Rita percebeu porquê.

(Em tempos seu avô bebia muito, andava sempre bêbado, contudo fez um tratamento para deixar de beber, quando fora para a fábrica dos Serrões. A avó temia que por motivo das festas, o avô voltasse a beber, era esse o motivo. Rita sempre ouvira dizer aos pais e aos tios, que a avó era má, e, não gostava da família. Ao chegar á idade da razão, Rita compreendeu que a maldade da avó era tão somente medo, medo de voltar á vida desgraçada que havia tido, contudo, parece que só Rita não via maldade em sua avó. Para todos ela foi sempre má. Pobre avó, sempre tão incompreendida! Só Rita a tinha amado de verdade....)

Á noite, ela colocava o seu sapatinho na chaminé, e de manhã, encontrava invariavelmente um saquinho de bombons. Jamais uma boneca ou outro qualquer brinquedo.
Houve porém um ano, tinha ela oito anos, seu pai, presenteou-a com um pequeno, mas lindo presépio, que a tinha deixado encantada. A partir de então, seus presentes de Natal, eram figurinhas que foram ao longo dos anos tornando o presépio maior. Passados cinquenta anos esse presépio ainda existe em casa de sua filha, só que em vez de crescer, vai minguando, exactamente como Rita....
Com um sorriso triste, ela lembra, quantas vezes pediu ao menino Jesus uma boneca... chegou a fazer promessas, mas nunca foi atendida. Seus tios davam-lhe quase sempre algo para vestir mais nada.
Em relação ás guloseimas natalícias, apenas as filhós de abóbora, e os coscorões, feitos durante a Noite do Galo, por sua mãe. Bolo Rei? Ela nem sabia o que era. Nunca ouvira falar. Nozes, pinhões, passas, que era isso? Ela não conhecia. Também não era de admirar, tinha havido uma guerra mundial, e os tempos eram de racionamento.
Era tradição, a mãe fazia as filhós, o pai e ela faziam ao presépio. Nessa noite, ninguém dormia. Seu pai fazia questão disso. Havia também as morcelas de arroz, e o delicioso cacau quentinho, para acompanhar as filhós. E era tudo.

Lembra-se de um Natal, teria por aí uns seis anos. Seus pais, por essa altura moravam na margem sul do Tejo, e ela, estava em casa dos avós. Não foi Natal não. Foi Ano Novo. Seus pais vieram passar o Ano a casa do tio Zé. Como quase sempre estavam todos zangados com a avó. Rita que estava em casa da avó, o que acontecia semana sim semana não, foi também fazer a passagem do ano com os pais e tios, mas queria ir para casa dos pais, aliás ela passava a vida cá e lá. Assim sendo, seu tio Abílio, a quem Rita tinha muito respeito, e a quem obedecia cegamente, sim porque menina mimada por todos, ela era um pouco teimosa, disse-lhe: Vai a casa da avó buscar as tuas coisas, e quando forem três horas vais ter connosco, pois nós iremos no autocarro das três.
Rita assim fez. Deixou passar uns quantos autocarros, e ás três horas em ponto, aí vai ela no autocarro. Este tinha dois pisos, e Ritinha, foi direitinha ao piso de cima, sem nem mesmo ver se os pais ou o tio também iam. A confiança no tio Abílio era cega.
Quando chegaram ao sítio hoje conhecido por rotunda do Relógio, o cobrador, veio pedir-lhe o bilhete, ela respondeu, que, seus pais iam no piso de baixo, e eles é que pagariam a sua passagem, na altura custava a dita 2$00. O cobrador, passado um tempo, veio dizer que ninguém se responsabilizava por ela, portanto teria que a deixar na paragem da rotunda.
Que tempos aqueles hem? Não havia medo nem consciência, para deixar uma criança de seis anos, sozinha num sítio descampado e ermo como aquele era nesse tempo.....
Bem, não haveria, por parte do dito cobrador, porque os passageiros do autocarro, indignados, cada um pagou um bilhete á menina, ficando Ritinha com 10$00, uma fortuna.....naqueles tempos até era.
(Como Rita se sentia velha ao recordar esses tempos tão longínquos....)Mais um sorriso...

Chegada que foi á Praça do Chile, saiu do autocarro, convencida de que, pelo menos o tio estaria lá á sua espera. Contudo, para seu desespero não estava ninguém.
Ritinha  começou a chorar. Não porque tivesse medo, ou porque se sentisse perdida, Rita desde muito pequenina, se habituara a viajar sozinha, e o percurso entre a casa paterna e a dos avós, não lhe era desconhecido.
Nada disso, apenas desgostosa, pensando que sua mãe havia ido embora, e não a quisera levar.
Á boa maneira da nossa terra, ao verem a menina a chorar, logo se juntou um magote de gente, até que, apareceu um cavalheiro, de meia idade, cabelos brancos, que a interrogou, querendo saber se ela pretendia ir para casa dos avós, ou dos pais.
Ela queria ir para casa dos pais. Então o dito senhor, pegou nela, chamou um taxi, e levou-a ao barco. Comprou-lhe o bilhete, e comprou para ele um bilhete de gare, indo dentro da embarcação, onde pediu a uma senhora que tomasse conta da menina, até ela chegar ao destino.( ao que parece, naqueles tempos não havia pedófilos, nem se roubavam criancinhas. Na verdade também ainda não se faziam transplantes de órgãos, a coisa mais moderna que havia era a estreptomicina, para a cura da tuberculose. Bons tempos.....e Rita sorri de novo)
Chegada a casa, Ritinha verificou que não estava ninguém. Aí compreendeu, que tinha havido um desencontro. Expedita, Ritinha, quando viu isso, foi imediatamente telefonar para a quinta, afim de avisarem os avós, de que ela estava em casa e em segurança.
Como sempre sua mãe, tinha-a subestimado, não acreditando que ela iria no autocarro das três horas.
Quando deram pela sua falta, entraram todos em pânico, menos o tio Abílio que, garantia, estar a sobrinha em casa, contudo ninguém lhe dava ouvidos.

Por essa altura, a única pessoa que ficou tranquila, foi a avó. De resto andavam todos como loucos á procura dela. Todos sabiam, que ela não se perdia, mas como sabiam também, que não tinha dinheiro, temiam estivesse nalgum lado, sem poder ir para casa.  O tio insistia, - Vamos para casa, tenho a certeza que a minha sobrinha já lá está. Enfim, lá foi com a mãe.
Quando chegaram a menina estava em casa duma vizinha amiga da mãe.
O tio chamou-a com um assobio, como era seu costume. Quando ouviu o tio, ela teve medo de ser castigada, porém o tio quando chegou perto dela, abraçou-a a chorar, dizendo: - Eu sabia, eu sabia. Ninguém me quis ouvir, quando eu quis vir embora. Ninguém acreditou em mim. Mas eu conheço bem a minha sobrinha....!
Ao recordar a cena, Rita dá uma boa gargalhada.  Ainda hoje não entende, a razão pela qual, sua mãe dizia que só lhe dava vontade de se atirar ao rio. Suporia ela que a filha estava lá no fundo!? Sua mãe e os melodramas dela. A vida tinha sido para si, um eterno e trágico romance. O pai chegou já bem tarde, triste, porque havia encontrado, nas esquadras onde procurara a filha, muitas meninas perdidas, mas feliz, porque a sua menina era demasiado esperta para se perder. Eles é que se tinham perdido....Ao constatar que o principal problema da filha fora a falta de dinheiro, e que por isso, tinha estado na iminência de ficar sozinha num sítio ermo sem hipótese de ir para casa, nunca mais deixou de lho dar. A partir dessa altura, o pai dava-lhe por semana 2$50, ela era uma menina de sorte, com tanto dinheiro...!

Tinha mais sorte, do que hoje. Sozinha em casa, sem dinheiro, pouca comida, este ano nem havia as filhós da mãe, nem o cacau quentinho, nada.
Curiosamente, estes pensamentos fazem-na sorrir, e, também lhe trazem aos olhos uma lagrimita atrevida. Diz o povo que recordar é viver, e, na verdade, estas recordações fazem-na sentir-se bem disposta.
Lembra também dos seus amiguinhos, a Rosinha, o Manel, o Fernando, a Blandina, a Carminha, o Arnaldinho, que seria feito deles? Ainda viveriam? Onde? Lembrar-se-iam dela? Vem-lhe lágrimas aos olhos ao recordar-se deles e das suas alegres brincadeiras.
Recorda, os teatros ou cinemas, que faziam, em que ela era sempre a principal intérprete, e o Arnaldinho era o galã, e não pode deixar de rir, quando se lembra dele a beijá-la á cinéfilo, como ela era a maior de todos, ele para a beijar, tinha de subir para qualquer coisa, a fim de ficar mais alto. É que os galãs de cinema, eram todos mais altos que as mocinhas...ora essa!
Imaginação era o que não faltava. Havia ainda o baloiço. Ou antes, três baloiços, pendurados num tronco duma oliveira, onde ela e a Rosinha e o Manel, costumavam brincar. E onde ela costumava cantar ao desafio com as “saloias” que trabalhavam na quinta. Esse baloiço durou até a nova urbanização dos Olivais; quando ela voltara a Portugal, após estar 15 anos em Moçambique, eles ainda lá estavam, a recordar a sua infância, e única época da sua vida em que tinha sido feliz de verdade, e fora quando estava em casa dos avós. Mais uma lagrimita de saudade á mistura com um sorriso de ternura.
Grandes correrias, pela cevada, alta e fresquinha,  eram polícias e ladrões. Ouviam-se os tiros, das pistolas de caniço, feitas pelo Manel. Pum! Pum! Era assim nesse tempo. Agora com as novas tecnologias, e a era espacial, será Pshiu! Pshiu!...realmente a tradição já não é o que era...
 Como diria a avó: - Modernices! Querida avó, se ela cá voltasse, muito se iria admirar com tanta modernice, viagens de ida e volta á lua,  túneis por sob o mar, telemóveis, enfim....Se bem que a avó, sempre acompanhara a evolução dos tempos, com a maior naturalidade. Ai avózinha! Quanta saudade.! Agora sim. Rita chora a valer. Ela adorava a sua avózinha.
Que importa? È Natal!
Assim, acompanhada pelos seus bons fantasmas já não está tão só. Pela primeira vez, passou um Natal perto de sua avó...Estranhos caminhos tem a vida
Ao longe uma campainha toca. É um toque, fraco, muito fraco mesmo. Afinal, é o telefone do vizinho que a acorda. Já é dia. Rita tinha adormecido, no sofá, entregue ás suas recordações nesta noite de Natal..

Arroja, 25 de Dezembro de 2002
Maria Isabel Galveias











           
Maria Isabel Galveias
Enviado por Maria Isabel Galveias em 17/08/2005
Código do texto: T43364
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Sobre a autora
Maria Isabel Galveias
Portugal, 74 anos
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