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A TURMA DO "SAI DESSA"

[Um convite à reflexão]

Há momentos insuportáveis na vida da gente ("a gente", quer dizer todo o mundo, ninguém escapa). São momentos em que a angústia aflora, com ou sem motivo aparente, pois a gente tem mistérios que não consegue alcançar. Nessas horas, o que mais faz falta é companhia, mas uma companhia inteligente, sensível, capaz de empatia.

Ah, a empatia! Esse sentimento que tem que ser cultivado, o que poucos fazem. É mesmo difícil para alguém em alto astral, entender o baixo astral do outro. E, se todo mundo cultivasse esse entendimento, talvez até perdesse a graça. Então, a maioria se acomoda, sai de fininho, dizendo: se foda!

E aí surge uma turma nada original: a turma do “SAI DESSA”. É aquele pessoal que eu chamo “o pessoal do otimismo vazio”. Se a gente tá querendo morrer, eles dizem que a vida é bela, que tem que amar a vida, tem que querer viver e... blá-blá-blá. Aliás, essa turma também pode ser chamada de “turma do TEM QUE”, pois é um pessoal muito autoritário, pensa que sabe tudo e quer impor sua sabedoria. E aí a gente começa a receber mensagens com palavras que não nos dizem nada, com consolos piedosos (quase sempre conforme a religião que a pessoa professa), com conselhos e até com piadinhas, pois eles acham que “rir é o melhor remédio”. As frases de efeito chovem na horta do sofredor. Começando por aquela que é a mais idiota de todas: “Se a vida te dá um limão, faça uma limonada.” Eu queria enforcar quem inventou essa frase e o que fez para que ela pegasse tanto... Numa crise minha eu ouvi a mesma frase umas duzentas vezes... Bem, o que sei é que, se tivesse obedecido a turminha "dona da verdade", teria me afogado em limonada... Mas saí ilesa da crise...

Nessa crise de que falo, uma pessoa, que eu julgava amiga a ponto de desabafar com ela, nada entendeu e acabou me dizendo que eu estava com pena de mim. A intenção dela deve ter sido a de erguer meu astral com a provocação. Pois não conseguiu nem me animar, nem me provocar. Claro, eu conheço bem meus parâmetros e crise nenhuma me faz esquecer que sou humana e tenho milhares de defeitos. Um deles, para a missivista, é ter pena de mim mesma. E aí o choque: para mim isso é qualidade. Sim, é preciso muita coragem para a gente ter pena de si mesma. E eu tenho de mim, sim senhor. Afinal, quando o bicho pega, que mais posso sentir? Se eu não tenho pena, quem terá? E por que não posso ter pena de mim se tenho pena dos outros? Será que existe alguém no mundo que nunca tenha tido autopena? Responda com sinceridade, por favor... E caso não tenha, desculpe a minha presunção...

Como sou alguém que pensa muito, que está sempre analisando o próprio comportamento, sempre procurando a verdade de mim e, nessa busca, encontrando meus mais cabeludos defeitos, sou excelente candidata a crises. Nem tenho conta das minhas. E, em todas elas, quero mesmo é morrer...

Aí todo o mundo se choca e tem sempre pronto um discursinho fazendo a apologia da vida. E uma coisa é muito importante aqui: ninguém pensa na “qualidade de vida”, digo boa qualidade, que é direito de todos. Como dizer que a vida é bela a quem passa fome? Vida, para ser plena, tem que ter qualidade: saúde, trabalho, salário justo, alimentação, lazer, afeto, companhia, enfim, tudo que significa dignidade. Fora disso, o nome certo é arremedo de vida... Mas, para o otimista de plantão, o importante é estar vivo! Quantas vezes essa frase é repetida como incentivo, como consolo ou como racionalização ante a impotência humana. Poucos pensam na qualidade de vida - vida com resposta às necessidades que garantam um mínimo de dignidade. Qual a importância da vida para o agonizante que definha em seu leito de morte, muitas vezes com dores terríveis, e que achamos estar lutanto pela vida? Qual a importância da vida daquele acidentado que é ainda jovem mas, se viver, vai viver como um vegetal? Qual a importância da vida para quem dorme com fome e acorda perturbado pela idéia de mais um dia sem o alimento que o corpo reclama? Qual a importância da vida para o solitário que não pode partilhá-la com alguém? Qual a importância da vida para quem não tem a mínima perspectiva de futuro? A série de perguntas não teria fim... Como não tem fim a série de respostas que não levam a nada: que o importante é estar vivo, que é preciso ir à luta mesmo sem esperança, que o amanhã será melhor, que sonhar é preciso. Respostas vagas para perguntas objetivas...

Quando temos um mal físico, se ele aparece nos comprovantes da medicina (ultra-sons, radiografias ou relatórios médicos de exames), fica fácil entender e é caminho aberto para a solidariedade. Mas se o mal que tanto judia for da alma, quase ninguém dá importância, afinal ele não fica nunca comprovado... A medicina ainda não inventou aparelhos que comprovem nosso interior. E há muita gente gemendo com as dores da alma...

Acho importante pensar um pouco nisso tudo e, se queremos mesmo ajudar, cultivar a empatia ao invés de ficar decorando frases que nem sabemos quem foi o deslumbrado que disse ou escreveu. Saber se colocar no lugar de quem sofre é uma arte no mundo de hoje. Quem não tem esse dom, essa sensibilidade, melhor ficar calado e respeitar a dor de quem a sente.
Sal
Enviado por Sal em 09/10/2005
Código do texto: T58123
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Sobre a autora
Sal
Marília - São Paulo - Brasil, 78 anos
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