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PELO SIM, PELO NÃO...

PELO SIM, PELO NÃO...
J.B.Xavier

São as pessoas, não as coisas, os agentes de transformação. Na busca de mudanças, de nada adiante modificarmos as coisas, se não se pensar primeiro nas pessoas.

Se você não concordar com isso, pare a leitura agora, porque este artigo é inteiramente baseado nesta premissa!

Apesar de parecer óbvia, a premissa acima ainda é ignorada por ampla maioria.  As sociedades humanas foram se desenvolvendo em torno de idéias que levaram à criação de coisas, através dos avanços técnico-científicos.

Esses avanços promoveram sensíveis mudanças na percepção da realidade em que vive e atua o ser humano, a ponto de, ao longo dos séculos, deslocá-la da origem que lhe fez nascer – as idéias – e assentá-la nas consequências desses avanços – as coisas.

Assim, centrada nas coisas, a humanidade atribuiu cada vez mais valor à tecnologia e cada vez menos à humanidade em si.

Crê-se verdadeiramente que se estará aumentando a competência de uma empresa, se nela for instalada uma rede de computadores, mas pode ser que esta rede apenas amplie a incompetência de quem a opere, porque são as pessoas, não as coisas os agentes de trasnformação!

Há muito que o medidor para aferição do sucesso são as coisas. Não importa se são quantas cabeças de gado possui um guerreiro massai, na África, ou se são quantos carros possui um executivo da Avenida Paulista. As coisas assumiram o papel de escala, contra a qual é medido o sucesso.

Valores sociais, culturais, manifestações artísticas, etc, tudo cedeu lugar à entronização das coisas como divindade onipresente dos valores humanos.

Na história do mundo, não há um único período de plena paz na humanidade. Nem mesmo ao tempo dos grandes avatares e iluminados, como Cristo ou Buda – apenas para citar dois dos maiores.

E não há paz devido a dois fatores primordiais: A natureza belicosa da humanidade, e à ascensão social de certas camadas da sociedade, que dominam as tecnologias – coisas -  e as fazem ter poder sobre as demais.

Uma vez estabelecido esse desnível de poder, eles se multiplicam e dividem as sociedades humanas em fatias de tamanhos inversamente proporcionais ao poder que detêm. Ou seja, as fatias sociais menos populosas são precisamente as que detêm mais poder, em função da compreensão e da perícia que adquirem na manipulação das coisas.

Assim, desde a aurora da humanidade – respeitadas as devidas proporções – a grande maioria dos seres humanos são seguidores de uma minoria que os lideram.

Ao longo da história, as sociedades humanas foram se organizando, ou melhor, se acomodando num sistema em que as camadas que detêm o poder,estabelecem os padrões de comportamento que serão seguidos pelo restante da sociedade. É o que chamo de “Síndrome da Manada”.  Como cardume de peixes ou manadas de búfalos, a humanidade também se desloca tangida por classes dominantes que a conduz para onde forem.

Uma vez encasteladas no poder que a tecnologia lhes fornece – seja o arco e flecha da Idade Média ou a bomba H da idade moderna – as classes dominantes passam a moldar também o pensamento do restante da humanidade, e não somente seus atos. Ou seja, todos ficam cada vez mais parecidos com os líderes que os governam.

Essa cultura de deificação das coisas em detrimento das pessoas, se por um lado favorece as soluções de curto prazo e simplifica a condução das massas humanas, por outro lado as despersonaliza e fá-las se afastar dos valores essenciais de convívio, num lento retorno aos níveis dos primórdios ancestrais de nossos distantes parentes das cavernas.

De tempos em tempos, de maneira cíclica, a maioria conduzida toma consciência da manipulação de que é vítima. Nessas ocasiões que chamo de “Marco Zero”, o sistema de domínio por classes minoritárias começa a devorar a si mesmo e a implodir, até o ponto em que a manada se dispersa e perde força como massa de manobra.

Isto se dá devido a dois fatores: Primeiro porque as classes dominantes, embriagadas pelo poder, não percebem o momento de afrouxar a corda das diferenças sociais, e, por isso, as distensões vão se intensificando até o ponto de ruptura. Segundo porque de alguma maneira, alguns setores das classes dominadas obtêm algum acesso às informações que antes eram exclusivas das classes dominantes, e, com o conhecimento adquirido por essas informações, conseguem mobilizar parte da sociedade à qual pertencem no sentido de assumir as rédeas do próprio destino.

Então um novo ciclo se inicia – o Marco Zero - lastreado por novos valores, que algum dia, serão igualmente corrompidos pela cegueira que o poder produz, e todo o ciclo recomeça novamente.

Essa é a principal razão pela qual as classes dominantes sempre dificultaram o acesso das classes dominadas à informação e ao consequente esclarecimento por ela produzido.

Todas as falcatruas de que se valem as classes dominantes para permanecer no poder, são meras tentativas de alongar o mais possível a duração desses ciclos. Não porque elas tenham consciência deles, mas porque acreditam realmente que será possível se manter no poder para sempre, a despeito do quanto a História lhes demonstre o contrário.

Uma dessas falcatruas é exatamente a inversão dos valores. Podemos dizer que o tempo de duração de um ciclo é inversamente proporcional à velocidade com que a humanidade se afasta de seus valores essenciais. Portanto, quanto mais distante a humanidade estiver de sua essência, tanto mais próxima estará do fim de um ciclo.

O paradoxo da questão é que para se manter no poder, as classes dominantes precisam alienar as classes dominadas, afastando-as tanto mais quanto possível de seus valores essenciais. Porém ao fazê-lo, estão mais e mais apressando o fim do próprio ciclo de poder.

Depreende-se daí que não há déspotas esclarecidos. Ao se esclarecer, um déspota deixa de sê-lo, porque passará a compreender a lei dos ciclos, e saberá que seu poder chegará ao fim tão mais depressa quanto tentar mantê-lo.

Para as massas manipuladas, que não têm os meios de olhar a questão de maneira panorâmica, resta a desesperança de se sentir em um mundo sem perspectivas, no qual a falta de motivação as desestimulam de tentar, geralmente por não acreditar ser possível vencer as dificuldades com as quais se defronta.

Essas dificuldades geralmente são de ordem material – coisas. São duas as principais razões para que assim seja. Primeira: Às classes dominantes não interessa a discussão ampla de idéias, um terreno perigoso, movediço e de difícil controle. Segunda: A elas interessa que os valores sejam todos representados por coisas, que são tangíveis, fáceis de visualizar, fornecer, manter e – pricipalmente - controlar.

Essa cultura voltada para as coisas, impõe padrões de comportamento novos e urgentes, porque a nova consciência do tempo, fez com que as pessoas o percebam sempre menor do que o que necessitam para conseguirem atingir suas metas.

Surgiu então a geração “fast”. Almoça-se em pé, lancha-se no carro, no ônibus, na fila do banco. Não mais nos abraçamos, apenas nos damos “tchau” à distância. Não mais nos reunimos para o almoço em família, onde todos tinham oportunidades de saber o que estava acontecendo com os demais. Não mais nos preocupamos se ouvirmos um grito de socorro do vizinho, com medo de nos envolvermos em algum problema que “não nos diz respeito”.

Esse isolamento ao qual nos lançamos nos leva a criarmos também nossos próprios mini ciclos de poder, onde começamos a nos crer auto-suficientes, e a acreditar que podemos viver isolados do convívio social mais profundo.

Então somos - em última instância – os construtores da sociedade em que vivemos, na medida em que em nossos mini mundos também nós nos interessamos apenas por nós próprios e, como exemplo, passamos a tratar cães com mais carinho do que tratamos crianças.

É precisamente nesse nível pessoal, que nasce então a egocentria que leva uma sociedade a perder seus elos de convívio, tornando-a não mais uma corrente onde cada indivíduo depende em algum grau do outro, mas num amontoado de elos independentes incapazes de sustentar-se por longos períodos.

E é exatamente esse esfacelamento da interdependência, a liga, a argamassa que faz falta ao edifício humano, e que por não existir, não fornece solidez ao edifício fazendo com que as sociedades implodam e desabem sobre si mesmas.

Mas antes que isso aconteça, muitos sinais são emitidos. Premissas equivocadas serão formuladas, com o risco de se encontrar alguma resposta que as satisfaça. Atenção às coisas serão exacerbadas, e muito se dirá a respeito da melhoria de pontes, de viadutos, de preços de mercadoris básicas, de bens de consumo etc. Muito se dirá sobre as providências para coibir a criminalidade via aumento da repressão, e muito se gastará com programas sociais subsidiados.

Obviamente tudo isso é como tentar conter a explosão da caldeira reforçando sua tampa. Se não arrefecer a fornalha ela explodirá inapelavelmente, pondo fim a outro ciclo, as vezes de maneira trágica.

A tentativa de desarmar o Brasil, sem que os bandidos sejam também obrigados a fazê-lo é apenas mais uma tentativa de abordar um problema social a partir das coisas – armas – ao invés das idéias – leia-se educação dos verdadeiros valores humanos.

Com base nesta premissa irreal – a de que a ciminalidade diminuirá com a ilegalidade do porte de armas, ter-se-ia que apreender também todas as armas brancas, facas, estiletes, canivetes, e talvez até mesmo os lápis pontiagudos, com o qual pode-se facilmente matar uma pessoa.

E se o argumento for o de que a proibição de armas de fogo diminuiria pelo menos o número de mortes causadas por acidentes com elas, então, por esta lógica, ter-se-ia que proibir também o uso do automóvel, cujo objetivo é o conforto e o prazer, mas que se transforma numa arma letal que ceifa e inutiliza não algumas, mas milhares  de vidas todos os anos.

Entretanto, um automóvel é apenas um instrumento inerte, como uma arma de fogo é apenas uma máquina que dispara um projétil a grande velocidade. Tanto um carro quanto uma arma podem nos divertir nos esportes, ou tirar uma vida. Tal como um lápis pontiagudo pode escrever um livro ou ser cravado no peito de alguém.

Tudo depende da mente que os empunha. E esta, nenhum manifesto é capaz de apreender.

Entretanto, no dia seguinte ao manifesto, a caldeira continuará com a fornalha acesa, a sociedade terá se adaptado às novas regras, as motivações belicosas continuarão as mesmas, bem como o aparato repressor, e nós continuaremos a nos sentarmos ao volante fazendo de nosso automóvel uma arma.

No dia seguinte, as escolas públicas continuarão abandonadas, sujas e violentas, as prisões continuarão como latrinas fétidas, mas nós seguiremos nossas vidas com a consciência tranquila, certos de que fizemos nossa parte.

Discutir idéias dá trabalho, causa desconforto, desestabiliza velhos hábitos e exige abrir mão de certas conquistas. Claro, estaremos sempre dispostos a isso, contando que sejam os outros que o façam.

E assim, seguiremos até que o ciclo se finde, e outro recomece, independentemente de nosso SIM ou NÃO.

* * *


 
JB Xavier
Enviado por JB Xavier em 18/10/2005
Reeditado em 20/10/2005
Código do texto: T60908
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