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Hoje resolvi fazer uma coisa que há muito não fazia...

Hoje resolvi fazer uma coisa que há muito não fazia...

Fui espreitar a Vida.

Aqui há uns anos atraz tinha por hábito, ir até qualquer lugar onde as pessoas na sua lufa-lufa, costumavam passar a correr para os sítios mais diversos; o trabalho, as escolas, os barcos ou autocarros e até vejam lá para as respectivas casas.

Fazia-o habitualmente, sentado na Praça do Comercio, na Baixa Pombalina, no Rossio, no Cais de Sodre, ou até numa Estação do Metro.

Foi um hábito que adquiri ainda bem novo, e de que me vali várias vezes para fazer trabalhos de Língua Portuguesa, que no meu tempo se dizia ser disciplina de Português.

Devo esse hábito de observar as pessoas e as coisas, ao meu Professor Primário, o Professor Raul.

Homem bastante marcado pela vida, era bastante rígido na Sala de Aulas, mas fora dela era uma pessoa mais que compreensiva...
Era mesmo um "compíncha", sempre pronto a ajudar.

Tinha já nessa altura cerca de sessenta anos, e fora na sua juventude um lutador pelas liberdades estudantis, tendo mesmo sido preso pela Polícia Política de então.

Foi muito acidentalmente que tomei conhecimento de tal facto, o que na altura me causou tanta impressão, que obrigou meu Pai a falar-me de coisas de que na altura, então com 9 anos, ainda não me apercebera.

Estava em casa a fazer os trabalhos da Escola e tendo uma dúvida, resolvi fazer aquilo que já por outras vezes fizera... ir perguntar ao Professor Raul, que até nem morava longe, como resolver o problema.
Fi-lo em má hora, ou talvez não, pois o tê-lo feito, me abriu os olhos para algo que me viria a marcar um pouco pela vida fora.

Quando cheguei a casa daquele, e bati á porta, tive uma assustadora surpresa... Quem me abriu a porta de modo brusco foram dois polícias, que me perguntaram ao que ia.

Mostrei o caderno e respondi que ia pedir ajuda ao professor.
Mandaram-me com brusquidão embora, e que perguntasse no dia seguinte na Escola.

Mas o que mais me alarmou nem foi essa ordem mas aquilo que vira atravez da porta entreaberta... o professor e a esposa sentados em duas cadeiras, e dois homens na sua frente com ar de maus... mais grave ainda, os livros que ele tanto estimava estavam espalhados pelo chão.

Corri tanto quanto pude até casa, e meti-me no meu quarto assustado, tendo hoje a convicção de que sentia medo de que a Policia pudesse ir atraz de mim.

Foi aí que meu Pai me foi encontrar tempos depois, e a quem contei os meus medos.

Foi das poucas vezes que vi meu Pai ter uma atitude que naqueles tempos era pouco vulgar, muito em especial para um miúdo que já tinha 9 anos como atraz disse.

Sentou-se numa cadeira, depois de ter fechado a porta, chamou-me e sentou-me ao colo, coisa que há anos não fazia.

Com um cuidado que não lhe era habitual, falou-me então na PIDE, (Polícia de Intervenção e Defesa do Estado), como então se chamava... mais tarde embora com a mesma sigla passou a chamar-se Polícia Internacional e Defesa do Estado.

Foi uma conversa longa, e hoje avalio as voltas que ele teve de dar, para cuidadosamente me mostrar que havia para alem da Polícia que corria atraz de nós para nos tirar as bolas com que brincávamos na rua, uma bem pior e de que nem se devia falar.

Estivemos sem aulas uns dias, pois o Professor estava doente segundo nos foi dito pelo Director da Escola.

Sabia eu que tal não era verdade, mas nunca me atrevi a dizer a algum dos meus colegas a verdade.

Vejam lá amigos onde nos pode levar a memória, a conversa e a escrita descamba por vezes para sítios não previstos, quando começamos a divagar.

Tudo isto para vos dizer que o meu Professor me ensinara no trajecto até casa, que fazíamos muitas vezes juntos, a olhar para os que nos rodeavam e a tentar ver no semblante destes o que lhes ia na Alma.

Fui observando e aprendendo, e aprendi também a ver atravez dos tempos como ciclicamente, mudam os estados de Espírito das multidões.

Naquele tempo, embora de dificuldades para muitos, estávamos no pós guerra, era a minha terra, a cidade da Covilhã, a mais rica do País, e ali não havia problemas de emprego então, pois havia que trabalhar de dia e de noite para abastecer de lanifícios toda a Europa, sem condições ainda para se auto abastecer no campo do vestuário, com as suas fábricas completamente destruídas.

Normalmente os semblantes das pessoas, embora denotando cansaço, era até bastante alegre, poderei mesmo dizer jovial.

No entanto com o andar dos anos as coisas mudaram, e as pessoas, começaram a ser mais mal pagas, e até com várias Fábricas a entrarem em situação difícil, começaram a mostrar-me um rosto bem diverso... o rosto da preocupação.

Foi assim durante anos, um pior que outro e sem haver um retrocesso visível... íamos de mal a pior.

Mas o pior estava para vir...

Todo se precipitou em 1961.

Em Angola, a 4 de Fevereiro começa a chamada Guerra Colonial, e em Dezembro a União Indiana ocupa Goa, Damão e Diu.

Ficou o País virado de pernas para o ar, e passei a vez semblantes carregados por todo o lado; estávamos enfiados até ao pescoço numa guerra que só servia os grandes lóbis e o orgulho dum governo que cada vez menos governava.

Em 1963 começaram as lutas na Guiné e no ano seguinte em Moçambique.

Se pensarmos que este pequeno país se viu a braços com um desgaste 8 vezes superior ao da guerra do Vietnam, e que não somos mais que cerca de 9 milhões em comparação com os 250 milhões de Americanos, vemos o desgaste tremendo porque passámos.

Morreram nessas guerras mais de 8.000 Portugueses, e sabe-se lá quantos naturais daqueles Países.

Como poderiam andar os semblantes dos Portugueses de então, vendo como víamos a cada esquina, e a maioria estava nos hospitais longe da vista, rapazes sem pernas e braços, apoiados em muletas de madeira, pois não havia dinheiro para outras melhores. Foram anos de tristeza e também duma revolta que nos moía as entranhas.

A minha sorte, foi ter ido á Inspecção Militar no ano anterior a esta ter começado, e por tal motivo ter ficado na chamada Reserva Territorial.

Se assim não tivesse sido, talvez hoje aqui não estivesse a teclar para vós, e como muitos outros podia por lá ter ficado.

Foram anos terríveis até de recordar.

Os anos passaram, dez num caso, onze noutro e treze ainda noutro.

Grande parte da população útil, passava as fronteiras clandestinamente, fugindo uns á ida para a Guerra, e outros em busca de outras vidas, para poderem sobreviver.

Só em Paris, eram muitas centenas de milhares, os clandestinos Portugueses, a viver em bairros de lata piores que as Favelas do Rio de Janeiro.

Quem poderia sorrir então? Talvez alguns previligiados.

Subitamente tudo mudou, e os rostos tristes de um dia, estavam iluminados de luz no outro...

Foi no dia 25 de Abril de 1974.

Tudo virou, utopia, pois a vontade de liberdade que nos havia sido negada durante quarenta anos, transbordava por todo o lado.

Tantas ilusões então surgiram nos nossos corações...

Até parecia que o Sol era mais luminoso!!!

O primeiro, primeiro de Maio após o Golpe Militar foi algo de inesquecível... Foi belo demais para não ser lembrado, foi o transbordar de ilusões e de vontades de fazer, que infelizmente na maioria dos casos deram para o torto...

Mal preparados para dirigir, os que haviam sido dirigentes até então ou fugiram do País ou foram afastados dos lugares que ocupavam, muitas vezes de modo precipitado, estávamos todos um pouco a navegar à deriva, tendo então sido tomadas posições que mais tarde se mostraram ser gravosas para o futuro.

Mas mesmo assim na grande maioria dos rostos ainda havia sorrisos e mostra de vontade de vencer.

O pior foram as lutas partidárias dos novos Senhores da Razão, e que na maioria dos casos só pensavam nos votos que os podiam levar ao lugar antes ocupado, por quem criticaram e combateram.

Nessas lutas perdeu o País tempo e oportunidades, que nunca mais puderam ser recuperadas, e os rostos a pouco e pouco, com o aumento das incertezas, e dos retrocessos contínuos, voltaram agora trinta e tal anos depois de Abril a ser tão carrancudos como na minha juventude, tendo voltado a incerteza no futuro, abalado até aos alicerces.

Fiquei sinceramente desiludido hoje, ao voltar a ver aquilo que não desejaria voltar a ver, e ao ver esses rostos fiquei com uma interrogação dentro de mim?

Que vai ser dos nossos filhos se este estado de coisas não mudar rápido?

Que andam os novos senhores da Guerra que nem Guerra têm para gastar dinheiro, a fazer?

Falam tanto de tanto e nada fazem para construir, apenas com as políticas seguidistas e importadas de quem agora manda em nós, quiçá quem, e estão a esmifrar o pouco que resta, deixando afundar o Barco do Progresso ou a deixa-lo passar-nos uma vez mais ao lado.

Como eu gostaria de voltar a ver rostos sorridentes e até um pouco despreocupados... mas hoje amigos, perdi a esperança de em vida os voltar a ver, pois voltando a analisar os semblantes daqueles que comigo se cruzam, vi o desânimo, vi a incerteza, vi até o medo do futuro.

De quem é a culpa disto tudo pergunto eu?

A resposta que encontrei foi ao mesmo simples e complicada...

Somos nós os culpados de deixar que este estado de coisas chegasse ao ponto que chegou, pois embarcamos na conversa de quem quer estar no poleiro, sem avaliarmos das suas reais capacidades...

Pior que tudo isso, é termos sem dar por isso, talvez perdido para sempre uma Identidade que séculos de Grandes Homens construíram à força de braços, e que agora em poucos anos desaparecem levados como se nas aguas do Tejo tivessem caído.

Como eu gostaria Meu Deus de voltar a ver neste tão belo canto do Mundo, aqueles rostos animados, felizes e cheios de esperança que em tempos vi.



2006

António Freire

Antonio Freire
Enviado por Antonio Freire em 15/09/2007
Reeditado em 31/03/2008
Código do texto: T654050

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Sobre o autor
Antonio Freire
Portugal, 75 anos
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Antonio Freire