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As Cuscas

As Cuscas

Teria eu talvez os meus 13 ou 14 anos, quando ia passar a maior parte das minhas férias escolares na quinta que meu Pai adquirira em Aldeia do Souto, bem frente a Belmonte, mas ainda no concelho da Covilhã.

Era a terra de meu avô materno, e este possuía ali alguns terrenos que havia hipotecado a um cunhado, irmão de minha Avó.

Como este estava a atravessar uma fase menos boa da sua vida, propuseram ambos a meu Pai, adquirir  por sua vez a referida hipoteca, o que acabou por ser feito, mas de modo diferente do inicialmente proposto.

Assim e com o acordo dos restantes herdeiros de meus Avós, meu Pai não só adquiriu a referida hipoteca, mas tambem o resto da propriedade, tendo assim dado início à mais tarde denominada Quinta da Calheira.

Digo início porque a pouco e pouco foi ele adquirindo várias parcelas vizinhas desta, tendo então construido uma das mais importantes casas agrícolas da região.

Posteriormente adquiriu igualmente a Quinta da Flandina, o que veio duplicar práticamente os terrenos desta.

Isto tudo apenas para começar a falar das “cuscas”.

Vivi desde sempre na Covilhã, onde nasci, em casa, tal como era costume na época, na travessa de Sta. Marinha, na Freguesia de Nossa Sra. da Conceição, mas como a minha vida em pequeno era bastante recatada, nunca me apercebi desse flagelo que é a cusquice.

É certo que aos 11 anos fui estudar para o Fundão, como semi-interno, no melhor Colégio, o Externato de Sto. António, ( E.S.A. ), que havia segundo muitos em toda a Beira Baixa.

Aí vi muitas vezes, sentadas à porta de casa, em amena cavaqueira as “velhotas” daquela bonita, hoje Cidade, mas então ainda Vila, e nem assim alguma vez me passou pela cabeça, qual a sua razão de acompanharem com o olhar os transeuntes, muito em especial as mulheres que passavam nas próximidades.

Havia a pouca distância da Quinta da Calheira, na estrada que levava á Aldeia do Souto, uma Capela muito antiga, a Capela da Sra. Do Carneiro, que a custas de meu Pai foi, uns anos mais tarde reconstruída, devido ao seu estado ruínoso e cuja festa se realiza no 2º Domingo do mês de Agosto.

Junto a esta, havia uma propriedade de meu Avô denominada, “ O Chão”, e onde eu por vezes me ia encontrar com ele.

Adorava andar descalso na terra enquanto o ajudava a regar.

Para encurtar caminho, fazia-o a corta mato, passando pela quinta do Sr. Bidarra, amigo de meus Pais e cujos filhos haviam sido amigos e colegas de infância de minha Mãe.

Era um casal já de certa idade, mas muito simpático e eu gostava, em especial de o ouvir, contar histórias locais, o que sabia fazer tal como meu Avô com um floreado especial, normal na altura aliás, pois ainda não era coartado esse modo de comunicar, o que acontece hoje, pois por aqueles lados ainda à época, nada estava influenciado pela televisão.

Tal como na mairia das casas rurais antigas, o rés do chão, a que se chamava as lojas eram ocupados pelas adegas, arrecadações de alfaias agrícolas, e até por “currais “ do gado.

No primeiro andar, era a parte residêncial, e para ali o acesso era feito por uma escadaria de pedra, granito naquela zona, sem qualquer espécie de protecção na maioria dos casos.

Não era o caso da nossa, pois havia esta sido construida já com todos os requisitos de modernidade existentes na época. A do Sr. Bidarra, no entanto, era uma casa já com muitos anos e como tal, embora bastante grande, tinha as caracteristicas das antigas.

Ao fim da tarde, era costume aquele casal sentar-se nas escadas a tomar ar, e por vezes até a fazer ali a ultima refeição do dia, a denominada ceia, hoje jantar.

Como lhes passava à porta, ficava-me por vezes por lá em amena cavaqueira com eles, pelo menos até ver chegar meu Pai que vinha da Covilhã ao fim da tarde e cujo pó do automóvel dali via mal este deixava a estrada Covilhã-Guarda, e entrava na de terra batida, que dava acesso à Aldeia.

O Sr. Bidarra, costumava então dizer que essa era a hora das comadres, e foi por ele que soube que assim era, é que por aquela hora as “cuscas” se costumavam reunir na Aldeia a cortar na casaca de tudo e de todos, e até delas próprias, na falta de outros.

Dias mais tarde da conversa sobre este assunto, fui ao cair da tarde a casa de meus avós, e constatei que tal era real, pois até á minha passagem, um miudo então, elas falavam baixinho e entre dentes, o que me levou a virar para traz, soltar uma sonora gargalhada e lhes deitar a lingua de fora, (mal educadamente).

Chamei minha prima Ana Maria, tão ou mais irreverente que eu, e resolvemos gozar o “pagode”…

Descemos a rua de mãos dadas, o que era o suficiente para reparo na altura, e passeamo-nos no local durante algum tempo.

Antes de nos retirarmos, chegamos muito mansamente junto delas e disparámos:
-- Podem passar a novidade, somos primos mas tambem namorados…
E entre gargalhadas de troça disparámos rua acima.

Antes que houvesse problemas em casa, resolvemos contar tudo a meus tios logo que chegámos a casa, o que os levou alias a rirem-se da situação.

Por incrível que pareça, dois ou três dias depois, minha Mãe perguntuo-me á hora do almoço quando era o casório, tendo-me deixado completamente encavacado, pois o meu pensamento, voou de imediato para junto da Graça a minha namorada já na altura, mas olhando de relance para a Manuela, nossa empregada e vendo-a sorrir, lembrei-me de imediato a que se referia.

A família da Manuela vivia na Aldeia e atravez dela, por intermédio do falatório das “cuscas”, chegara a “notícia” à quinta.

Claro que tive de contar o que se passara na realidade e combinei com minha mãe continuar a bricadeira, até para descomprometer a Ana.

No fim de semana seguinte as minhas primas e os Pais, como era habitual aos Domingos, foram almoçar connosco, e a convite de minha mãe levaram com elas a Graça.

Para dois miudos, a Graça teria 11 ou 12 anos e embora espigadota, era um caso raro o nosso caso ser aceite por ela, mas minha mãe era uma pessoa muito avançada para a época e até acarinhava a situação.

Meu pai nada poderia no entanto saber, pois era nesse campo o antípoda de minha mãe.

Ao fim da tarde fomos até à Aldeia, claro que iamos brincar com as proficionais da maldiscência… iamos passar agarradinhos à sua porta na hora das “Avé Marias”, e tambem a sua preferida.

Foi uma bomba, e de tal ordem que desta vez chegou aos ouvidos de meu pai dias depois, e claro nessa altura tive mesmo que lhe contar o que se passara, ocultando no entanto o meu real namoro com a Graça.

Foi, de que me tenha apercebido o meu primeiro contacto com as profissionais da maldiscência, e atravez dos anos sei ter sido, pelo bem e pelo mal, perseguido pelas mesmas.

Quando me apercebo dessa situação, deito achas na fogueira e gozo o pagode, embora saiba de antemão que me pode sair o tiro pela culatra, o que aliás já tem acontecido, mas o resultado que recolho da satisfação sentida é compensatório.

Tudo isto, apenas para, agora que as referidas senhoras, e não esquecer em muitos casos, tambem referidos senhores, já normalmente não se reunem na soleira da porta, mas nos cafés, nas esplanadas, ou nos bancos de jardim.

Tambem já as encontrei nos transportes públicos em especial nos comboios, onde atravez dos tempos nos encontramos amiude com as mesmas pessoas, e passamos a trazer para eles um pouco do conhecimento das nossas vidas.

Mas é nos cafés, que elas se tornam mais notadas.

Hoje, constato que nos meios pequenos, a “cusquice” é muito maior, e tambem não é só nas pessoas de idade como outrora era mais notado isso acontecer, mas é na meia idade que “ela” graça com maior intensidade.

Por vezes, dá mesmo vontade de rir a maneira pouco subtil como algumas perguntas são feitas, outras, é o pouco cuidado que têm ao falar entre si.

Há dias estava encostado a uma parede no exterior dum café, e quem estava dentro, atraz das cortinas não se apercebiam de que a janela que lhes estava próxima estava aberta, fartei-me de rir interiormente, pois todos os que entravam eram alvo de “corte”, sem falar de mim que estava numa mesa no exterior.

No que me diz respeito, só não me ri alto, para não darem porque eu estava a ouvir tudo, e senti que tal como comigo as apreciações nalguns casos estavam certamente a Km de distância, da realidade.

Mas só difícilmente não “disparei” às gargalhadas, quando uma delas , a mais “feroz”, se levantou e saiu, e o “corte” passou para ela, acontecendo o mesmo com uma outra que era bem vigorosa no acenar com a cabeça mas que pouco falava.

É assim a vida das pessoas, hoje tal como ontem o “corte e costura”, continua a invadir a privacidade de todos nós, a mairia das vezes sem razão de ser, muitas outra explorando a mentira e a suposição, mais olhando aos ideais próprios e ao que a sua “deles”, maneira de ser julga ser a “prova”, esquecendo-se de que cada um é como cada qual, que cada pessoa pensa de modo diverso, que o aspecto quer fisico quer a maneira de estar e de ser é o que menos interessa, mas sim aquilo que nos vai dentro e que por vezes fechamos no nosso intimo, para não dar azo a interpretações erradas.

Em certos meios, o simples gesto de ajudar, vou mesmo mais longe, o ajudar, pode ser levado para o lado mais repelente do pensamento alheio, e trazer resultados nefastos para a harmonia periclitante e falsa, ali reinante.

Apenas um desejo; que a todos os “cuscos e cuscas” das nossas terras, seja dado o tratamento que merecem; que sejam alvos da “cusquice” uns dos outros.


Antonio Freire
2005
Antonio Freire
Enviado por Antonio Freire em 16/09/2007
Código do texto: T654812

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Sobre o autor
Antonio Freire
Portugal, 75 anos
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Antonio Freire