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Enquanto morro

Você sabe que eu sei que você sabe
só não sabe que sei o que você sabe
e sei o que você não sabe que eu sei

Você sabe que eu sei que você sabe
e o que sei você não sabe que eu sei
nem sabe o que sei e você não sabe

[Tudo o que você conseguiu juntar nas suas vidas
não é nada perto do que obtive com a minha morte]


Estar dentro do impossível é como perder a vida sem ter vivido. Gozar sem ter gozado. Morrer sem ter nascido.

Quantas ilusões consegue um coração suportar? Quantas mentiras alguém consegue fingir não ver? Quantas dores há que se ter antes de morrer?

Não sei as respostas. Mal consigo formular as perguntas.

Dentro de mim há a letargia dos movimentos.
Já não falo mais como antigamente e não sei de nada. Ocupo tão pouco espaço e já não me caibo dentro. A cidade tem o olho fechado, a mata está pegando fogo e eu? e eu? Eu estou aqui, ainda viva.

- Por que será que visto essa roupa?

- Senhora-dos-coitadinhos, clareie essa minha insânia, por favor!

Quantos favores já pedi hoje? Acho que uns mil. Só para mim foram 999. Número desgraçado se invertido. O número do Tinhoso. Que se dane se mergulhei fundo, se viajei. Que se dane se eu errei, se me fodi toda. Pior pra mim. Que é que você tem com isso?

O movimento aumenta, há um remexer, um desaguar... Seria eu tentando respirar? Seria eu tentando? Inútil. Estou afogada. Deságuo em mim mesma e me afogo. Morro agora.

Por favor, respeite minha dor. Respeite meu féretro. Hasteie a bandeira.

- Qual?

- Sei lá, qualquer uma!

Me deixe, ao menos, me sentir importante nessa hora. Façam uma salva de tiros, façam um minuto de silêncio. Que esse maldito padre faça logo sua declaração estúpida:

- Deixa-nos a alma crédula, a palavra em seu estado bruto. Deixa-nos com as dores que a fizeram ferida viva. Deixa-nos essa que não se conhece e não se sabe. Deixa-nos a indigente. A pobre.

<Silêncio>

Haverei de renascer judas, para que possa beijá-lo no rosto.
Haverei de renascer pedro, para que possa negá-lo três vezes.
Haverei de renascer, novamente, humana.

[E renasço, porque essa Ópera é minha e ainda está em cartaz XVII IX MMV XVII IX MMVI XVII IX MMVII]


http://versosprofanos.blogspot.com/
Maria Quitéria
Enviado por Maria Quitéria em 17/09/2007
Código do texto: T656545

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Sobre a autora
Maria Quitéria
São Paulo - São Paulo - Brasil
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