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MEU FILHO

Meu Filho

Ainda hoje, fecho meus olhos e posso me lembrar com detalhes da grande emoção de ver meu filho pela primeira vez, de ter seu rosto colado ao meu, seu corpo buscando meu calor, meu aconchego. Posso sentir ainda, me invadindo, a imensa ternura e maravilhosa sensação de, num único momento, viver toda a felicidade possível e, num único segundo, entender o verdadeiro motivo de estar viva.
É um grande momento de amor que explode no peito e nos preenche corpo e alma e a gente sente como se esse amor se fundisse em outros, que liberados também por outros seres, contribuísse de alguma forma, para abastecer a fonte de todo o amor que alimenta o mundo.
Dar à luz e ao mesmo tempo iluminar-se e fundir-se ao Todo.
Naquele momento, eu estava atuando e transformando o mundo de alguma forma. Afinal, outro ser nascia e com ele renasciam esperanças, sonhos, expectativas e possibilidades.
Que contribuição ele traria para o mundo?
Seria ele, uma página em branco onde seriam escritas novas mensagens, nova história, novas formas de amar, entender a vida e realizá-la?
Ou um livro, que se abrindo, mais uma vez, permitisse novas interpretações, provocasse novos questionamentos, possibilitando novas conclusões e novos caminhos a trilhar?
Um filho ...
Um ser que depende de nós e de nossa segurança, força e amor. Alguém que nos permite enxergar novos horizontes, que nos abre os olhos do coração, da maternidade e vestidas do arquétipo da Grande Mãe, nos tornamos mais sensíveis, mais solidárias com as dores do mundo, pois sentimos que cada ser que habita entre nós, nosso filho poderia ser.
E a maternidade traz consigo um exercício diário, que exige confiança, desapego e coragem.
Confiança em nossos princípios, em nossa verdade, em nossas melhores intenções.
Desapego, porque precisamos muitas vezes adiar planos, reformular o que nos parecia definitivo em nossas vidas.
Coragem para enfrentar a vida todos os dias, apesar do que possa estar à nossa espera do lado de fora.
Um filho sempre nos traz a sensação de confiança diante da vida e nos mostra, que a partir daquele momento, somos referência e exemplo. Isso sempre nos torna melhores. Somos responsáveis por outro ser, por sua sobrevivência e sua visão do mundo.
E o grande milagre da vida se desenvolve diante de nós. Explora o mundo com os olhos, com as mãos, até que dá seus primeiros passos. E manifesta sua interação com a vida, através dos sorrisos, do choro, até que pronuncia as primeiras palavras. E então pode empreender sua grande viagem.
Atentos, nosso papel é supervisionar, esclarecer e compartilhar suas descobertas e conquistas.
E então, um dia, percebemos que cresceu e apesar de suas raízes estarem plantadas perto de nós, seus galhos buscam um lugar ao sol e parece não precisar mais de nós.
E vem sempre a dor, de sentir e permitir, o verdadeiro corte do cordão umbilical, aquele que liberta o filho de nossa proteção. E somos obrigados a constatar que ele não é extensão de nosso corpo e muito menos de nossa mente e nossa visão de vida. Ele possui um mundo próprio, dele, em que na maioria das vezes, não nos é dado penetrar.
Grande mistério, grande preocupação que tentamos administrar com calma e uma certa sensação de inutilidade muitas vezes nos invade, na medida em que não somos “essencialmente” necessários à sua sobrevivência. Tem suas vontades, preferências, seu próprio sistema de crenças, seus próprios sonhos e esperanças. E então, nos questionamos.
Será que lhe demos estrutura, base?
Será que ainda há tempo de lhe ensinar alguma coisa, de lhe apontar caminhos?
Será que possuímos competência pra isso, ou simplesmente possuímos a falsa noção que possuem todos os pais, de conhecerem a vida o suficiente para se julgarem mais sábios e experientes?
Rezamos pelo que vão enfrentar. Torcemos por como reagirão às dificuldades e conquistarão seus espaços no mundo. Procuramos demonstrar confiança em seus avanços, solidariedade em seus tropeços, alegria em suas vitórias.
Logo no início da adolescência, me preocupou sua falta de entusiasmo, um certo desinteresse pelas conquistas, um olhar vazio pra vida – sem raiva, sem tristeza, sem alegria, sem perspectivas. Um “tanto faz” e um “mais ou menos”, sempre. Sempre uma fuga dos sentimentos, dos encontros, dos combates.
Hoje sinto com grande alegria, um renascimento, uma abertura maior pra vida, na busca da própria liberdade. Já posso sentir-lhe a necessidade de perseguir objetivos, de buscar um caminho, um sonho. E sinto que neste momento, tenho a grande felicidade de compartilhar com ele, um instante de crescimento único, um dos mais importantes na sua vida até agora.
O momento de mais uma vez abrir os olhos pro mundo, encher os pulmões de ar e caminhar sem medo pra vida.
wanner oliveira
Enviado por wanner oliveira em 30/09/2007
Reeditado em 30/09/2007
Código do texto: T674273

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Sobre a autora
wanner oliveira
Araruama - Rio de Janeiro - Brasil
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wanner oliveira