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NOSSA BAIANIDADE

Meu avô era ateu.  Dizia-se completamente ateu e rezava berros terços quando o contrapunham. Proclamava aos quatros ventos sua filosófica decisão pautada em pirraça religiosa, talvez até uma picuínha estratégica ou preguiça de se aceitar um qualquer homem diferente de seu passado contestador. Pirraça e preguiça são próprias da nossa baianidade.
Meu avô rezava enquanto dormia. Entoava cânticos católicos, Hosanas nas alturas, aleluias e aleluias, Marias e Pai Nossos, Deus Salve a Rainha e as outras nobrezas, numa atitude mediunicamente não explicada e cientificamente ignorada por conta da contradição do crer e agir, própria de nossa baianidade.
Meu avô detestava o sincretismo baiano mas era d’Oxum como seu neto. Ser desse Pai é próprio da nossa baianidade.
Meu avô era negro de ascendência, não de pele, porque como farinha foi socado em pilão (como foi da mesma forma esse Jerico) e cheirava canela, entretanto não gostava de sua estirpe afro. Na verdade ele detestava estirpe. Amamos a raíz. Detestar estirpe é própria de nossa baianidade.
Meu avô tinha orgulho da raça negra como todo bom baiano que se preze, seja preto, pardo, mulato, branco ou cabloco. Ter orgulho da cor negra é próprio de nossa baianidade.
Meu avô tinha tesão por negras. Adorava bundas, peitos e beiços com suas bucetas complexas, mas preferia comer as brancas. Complexidade de buceta é própria de nossa baianidade.
Meu avô nunca se formou, mas lia filosofia, poesia e era prosa. De pescador se tornou contador de uma indústria. Meu avô fazia versos em números e contos com letra de moça. Meu avô trabalhou desde sempre e dormia na rede à tarde. A rede? A rede é própria da nossa baianidade.
Meu avô não era santo, era sábio. Não tinha boas ações, mas fazia as suas ações serem boas. Não era bom, era do bem. Não era bonito (muito feio por sinal), entretanto não havia quem não se apaixonasse por suas admiráveis orelhas, seu nariz escorregado, seus olhos de me dá e toma, suas mãos de pai e pesca, seu coração de elefante ou por seu saco graúdo e marrom escapando pela bermuda sem cuecas. Saco graúdo e escapada é próprio de nossa baianidade.
Meu avô usou bem seu sexo. Teve seis mulheres. Não sei dizer com certeza quantos filhos pôs no mundo (nem ele), sei que tenho dezenas de primos de todas as cores.
Meu avô tinha um pau enorme e morreu de câncer da próstata.
Meu avô era homem de extremos e extraordinários contraditórios, próprios de nossa baianidade.

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André um Jerico
Enviado por André um Jerico em 14/10/2007
Código do texto: T693945

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Sobre o autor
André um Jerico
Monte Santo de Minas - Minas Gerais - Brasil, 47 anos
56 textos (824 leituras)
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André um Jerico