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Escrita, Alfabetização e Letramento




Seria um erro separar as bases conceituais de escrita, alfabetização e letramento; da mesma forma, seria outro erro dizer que compreendem a mesma coisa ou são de mesma valia. Estes três pontos lingüísticos têm entre si uma relação de interdependência, porém, eles se diferem quanto à essência e ao campo de atuação.

Mas o que podemos entender por “escrita”? Nasceu, há quatro milênios e meio antes de Cristo, um sistema de signos gráficos com a finalidade de passar para um plano concreto tudo o que apenas ficava num plano imaginário; ou seja, redigir a fala de um modo que se pudesse vê-la. Com todos os seus aspectos (gráfico, visual, articulada, linear, arbitrária), a escrita passou por modificações compatíveis à época e ao local de uso, desde o seu surgimento; para tal fato temos o exemplo da forma de escrita cuneiforme que evoluiu a ponto de chegar a esta que agora usamos. Em suma, a capacidade de escrever foi a evolução do poder de falar.

E “alfabetização”, o que seria? Lacônica e subjetivamente posso dizer que alfabetizar é ensinar a leitura e o uso da escrita. Mas este conceito faz surgir também questionamentos acerca da “escolarização”: ensinar a ler e a escrever não é produto do ato de escolarizar? Dúvidas podemos ter daí, mas basta atentarmos para o esclarecimento de que escolarizar é submeter alguém ao ensino escolar, enquanto alfabetização é processo de busca pessoal de destrezas referentes à  leitura e à escrita; entretanto, como é na escolarização que a alfabetização parece se consolidar, dizemos que ambas têm relevantes relações.

Assim, já que todos sofrem constantes mudanças, a alfabetização como procedimento individual jamais se acaba, fazendo com que a atualização pessoal sempre se modifique também. E como isto varia de pessoa a pessoa (e para não criar identificações de extremos por meio de discriminações), não devemos tomar o processo de alfabetização como um todo ou um ponto máximo a ser atingido, devemos observá-lo como uma escala que determina a cada indivíduo o seu grau próprio de detenção de alfabetização.

Sobre “letramento”, posso alegar que o mesmo compreende um processo de detenção de conhecimento lingüístico que está em um patamar maior que a alfabetização vinculada à força da escolarização sofrida. Contudo, mais uma vez aqui eu ressalto o ponto da discriminação acerca da linguagem e os mitos infundados que a permeiam.

Se não tratarmos o letramento como medido em graus ou níveis, idem à alfabetização, implantaremos uma enorme distância entre os que detêm algum saber e os que detêm pouco. Surgem os conceitos de pessoa “letrada” e pessoa “não-letrada”, referentes respectivamente a “alfabetizados” e “não-alfabetizados”. A inferência também leva a aparecer um julgamento a dizer que os “alfabetizados” ou “letrados” são os que têm a capacidade de fazer raciocínios lógicos e dedutivos, à base de silogismos. Então, os “não-alfabetizados” ou “não-letrados” seriam os que não conseguem pensar de forma lógica ou racional.

Sabemos, claro, que isto nada mais é que um pedaço da complexa mitologia que ronda a língua brasileira: posso citar o mito de que o português é muito difícil e está destinado apenas aos ricos, ou de que o português está voltado às pessoas de maior importância simplesmente por ele representar objeto de ascensão social (se assim fosse, gramáticos e lingüistas estariam no topo da pirâmide de status social). E por que disse sabermos isto ser mentira? Porque é fato que muitas pessoas que nunca absorveram a essência da gramática da língua brasileira expressam-se melhor do que muitas pessoas que têm a possibilidade de ter tal gramática sempre ao lado, todos os dias. Por isso, muitos pontos sobre teorias de linguagem precisam ser reformulados.

Um ponto que mais me surpreendeu e causou repugnância foi o que um teórico chamado Malinowski disse: “os membros analfabetos de uma comunidade civilizada tratam e consideram as palavras de um modo semelhante aos selvagens”.

Sincera e pessoalmente, não consigo concordar com a crítica de Malinowski. Ele deve ter tido os seus motivos para falar assim, mas acho que ele se prendeu tanto à incumbência de explicitar o lado negativo do letramento e do analfabetismo que se esqueceu completamente de levar em consideração a pluralidade lingüística, a competência, o grau de aquisição e a possibilidade de cada ser.
Rodrigo Corrêa Mergulhão
Enviado por Rodrigo Corrêa Mergulhão em 13/11/2005
Reeditado em 02/04/2007
Código do texto: T71106

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Sobre o autor
Rodrigo Corrêa Mergulhão
Macapá - Amapá - Brasil, 29 anos
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