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Deus morreu... ?

Deus morreu, eis a declaração maior do niilismo, que é a dissolução de qualquer fundamento último.
"Deus está morto" é talvez uma das frases mais mal interpretadas de toda a filosofia. Entende-la literalmente, como se Deus pudesse estar fisicamente morto, ou como se fosse uma referência à morte de Jesus Cristo na cruz, ou ainda como uma simples declaração de ateísmo são idéias oriundas de uma análise descontextualizada da frase, que se acha profundamente enraizada na obra nietzscheana. O dito anuncia o fim dos fundamentos transcendentais da existência de Deus como justificativa e fonte de valoração para o mundo, tanto na civilização quanto na vida das pessoas, segundo o filósofo, mesmo que estas não o queiram admitir.
Nietzsche não se coloca como o assassino de Deus, como o tom provocador pode dar a entender: o filósofo enfatiza um acontecimento cultural, e diz: fomos nós que o matamos.
(..."Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós! Como haveremos de nos consolar, nós os algozes dos algozes? O que o mundo possuiu, até agora, de mais sagrado e mais poderoso sucumbiu exangue aos golpes das nossas lâminas. Quem nos limpará desse sangue? Qual a água que nos lavará? Que solenidades de desagravo, que jogos sagrados haveremos de inventar? A grandiosidade deste ato não será demasiada para nós? Não teremos de nos tornar nós próprios deuses, para parecermos apenas dignos dele? Nunca existiu ato mais grandioso, e, quem quer que nasça depois de nós, passará a fazer parte, mercê deste ato, de uma história superior a toda a história até hoje! - Friedrich Nietzsche, . A Gaia Ciência)
O termo niilismo assumiu uma centralidade sempre mais evidente como categoria interpretativa da situação histórica de incerteza e precariedade do homem contemporâneo: “conhece muito pouco nossa época quem não experimentou a enorme força do nada e não foi tentado por ela”.
O Niilismo indica, com efeito, de um lado, o vazio que se perfila no horizonte do homem ocidental depois do declínio do Deus da tradição metafísico-teológica cristã, com todas as certezas que este comportava, e, de outro, a conseqüente dramática problematização da fé no sentido do existir e no valor do agir. Em termos de visão de mundo e dos valores últimos, o niilismo representa a corrosão das crenças e a difusão do relativismo e do ceticismo.
O motivo da morte de Deus, presente na literatura alemã desde o romantismo, a originalidade de Nietzsche interpreta como um crime. Segundo Nietzsche, depois da morte de Deus, sobram apenas dois caminhos: ou a invenção de uma nova inocência, o duro caminho do “além do homem” como sentido da terra, ou a vitória definitiva da decadência do homem, ou a criação de sentido, sabendo-se que se trata de mera criação ditada pela vontade de potência, um auto-engano consciente, ou o vazio paralisante do tudo é vão.
A proposta do niilismo é que Deus morreu, mas Nietzsche interpretava tal proposta como um crime. O filósofo alemão  Friedrich Nietzsche foi quem diagnosticou o niilismo como a “doença do século” e o tomou como eixo temático e problema capital expresso na “morte de Deus”. É este o fenômeno que Nietzsche consegue ler no pessimismo filosófico do século XIX. O homem do niilismo será agora uma consciência infeliz, ele sabe que o mundo, tal como deveria ser, não existe, e sente que o mundo que existe não deveria ser.
A filosofia de Nietzsche se coloca como tarefa de “julgar a vida”, portanto, Nietzsche era crítico dos textos das Escrituras que falam que Deus tem sempre alguma razão para agir, mas seus desígnios são insondáveis. Nietzsche era crítico do fanatismo e da tirania da Fé.  Pela e em nome da Fé, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em nome de Deus (... Acredito hoje que estou agindo de acordo com o Criador Todo-Poderoso. Ao repelir os Judeus estou lutando pelo trabalho do Senhor. - Adolph Hitler, Discurso, Reichstag, 1936). Pela Fé se produziu muitos dos sofrimentos, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana, em troca de promessas de paraísos e ameaças de infernos.
Daí, em seguida, Nietzsche escreve: "O reino dos céus é um estado do co-ração, e não algo capaz de descer sobre a terra, ou que venha depois da morte. O reino de Deus não é alguma coisa pela qual se possa esperar. Ele não tem ontem, nem amanhã, não vem em mil anos - é uma experiência íntima do coração: está em toda parte e em parte nenhuma".
Bem antes, por volta de 1650, em seu Sermão do Quarto Domingo do Advento, Padre Antonio Vieira disse: "Comove-me muito mais a imagem dos meus pecados do que essa imagem de Cristo crucificado. Porque diante da imagem de Cristo crucificado, eu sou levado a ensoberbecer-me por ver o preço pelo qual Deus me comprou. Mas diante da imagem dos meus pecados, eu sou levado a apequenar-me, por ver o preço pelo qual eu me vendi. Quando vejo que Ele me comprou com todo o seu sangue, eu não posso deixar de pensar que eu sou muito, eu valho muito. Mas quando vejo que eu me vendi pelos nadas do mundo, aí penso que sou nada, valho mesmo é nada".
Como bem disseram, Nietzsche e Padre Antonio Vieira, posso levantar que no processo evolutivo e do desenvolvimento intelecto e espiritual, a mente e o coração do homem aprendeu a Crer, a Sentir e Ter a sensibilidade pelo que passou e ensinou o próprio homem, pelos ensinamentos e experiências do próprio homem.
Não são nos princípios conflitantes dos manuais religiosos, filosóficos e científicos que vamos chegar a ter a real percepção que tudo e o fato sim é SABER e TER a "percepção consciente" de quanto há de imbecilidade em nossas mãos, em nossos pensamentos (cheios de egoísmos e vaidades), em nossas mentiras e falsidades, nas aparências exibicionistas do querer ser o que não é, e em nossas ações e atitudes.
Creio que a tarefa existencial da nossa vida constitui em nos colocarmos a altura de sermos nós mesmo, aprendendo a viver  sem as necessidades das próteses, das muletas. Consiste em dar caráter a nossa vida. Colocar o selo da nossa responsabilidade, a marca do nosso caráter, e isso coloca um peso extraordinário sobre cada uma de nossas escolhas e sobre cada uma de nossas ações.

consulta a http://ceticismo.net/ e http://ateus.net/
Plínio Sgarbi
Enviado por Plínio Sgarbi em 08/11/2007
Reeditado em 15/08/2011
Código do texto: T729367
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Plínio Sgarbi
Jaú - São Paulo - Brasil, 55 anos
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