Construção de realidades - Todo Incognoscível 45

1 - O SÍMBOLOS DEFINEM NOSSA REALIDADE

2 - ALTERANDO OS SÍMBOLOS ALTERAMOS NOSSA REALIDADE

3 - OS SÍMBOLOS SÃO LIVRES DE AMARRAS METAFÍSICAS

4 - AS VERDADES NÃO SÃO RELATIVAS (SÃO NECESSÁRIAS AOS SISTEMAS SIMBÓLICOS QUE DECIDIMOS SEGUIR)

5 - OS SISTEMAS SIMBÓLICOS SÃO DEFINIDOS A PARTIR DE ALGO DE FORA DE CADA UM DELES

Há muitos anos, logo no comecinho da faculdade de biologia tivemos uma recepção com alguns professores, incluindo a chefe de departamento. Lembro bem de sua aparência, baixa, magrinha, bem branca, cabelo castanho cortado curto, nariz meio grande. Foi marcante ela falando a respeito de passarinhos cantando: "A gente entende quando dizemos que um passarinho canta. O passarinho produz sons ritmados a partir da voz. Mas é apenas uma metáfora, cantar é algo específico a humanos.” Bem, se definirmos canto como “produzir sons musicais utilizando a voz POR HUMANOS” então o que ela falou está correto. É uma questão de definição. Da mesma maneira é possível definir ‘brincar’, ‘inteligência’, ‘amizade’ incluindo “por humanos”. Desta maneira somos vistos como seres especiais, diferentes de quaisquer outros. Nem um programa de AI nem um chimpanzé seriam considerados inteligentes. E a relação que se estabelece entre cães não poderia ser chamada de amizade. Oras, incluir “por humanos” em cada conceito é possível e tem profundas consequências. Mas é uma complicação excessiva, retira clareza de cada um destes conceitos.

Definir cantar como “som que sai da boca" é demasiadamente simples. Tal definição inclui arrotos e conversas cotidianas. Ao colocar mais elementos como “ser produzido com intenção” excluímos sons involuntários, como o soluço. Mas ainda é uma definição excessivamente abrangente. Se incluirmos algo como “ser ritmado” excluímos conversas cotidianas. De repente incluir algo como “e tem que ser elaborado apenas por humanos”, destoa. É possível, mas me parece um adendo ad-hoc criado exclusivamente para dizer que humanos são especiais. Caso “e tem que ser por humano” seja excluído da definição de ‘cantar’, ‘inteligência’, ‘brincar’, ‘amizade’ percebemos que tratamos de maneira cruel seres sensíveis que estabelecem relações e ternura como qualquer um de nós. Repare, os dicionários não incluem “tem que ser ser humano” nas definições. Ainda assim, ainda é a maneira que muita gente entende estes conceitos. Tal questão é de extrema importância pois a maneira com que definimos símbolos e sistemas simbólicos têm implicações extremas - assunto que entrarei em mais detalhes quando eu escrever a respeito da ética argumentativa adotada pelos anarcocapitalistas. O objetivo deste ensaio é notar que nem ‘cantar’ nem tampouco nenhum outro conceito possui uma amarra metafísica que o obrigue a ser de determinada maneira.

Um conceito se torna mais específico quanto mais qualificações tem, é o que ocorre quando incluímos ‘por humanos’ ao conceito ‘cantar’: excluímos todos os sons produzidos por pássaros ou por sereias (o que tornaria a literatura bem estranha). De maneira inversa, é possível construir predicados menos rigorosos que incluam tanto os sons das sereias como também os sons produzidos pelo vento acariciando as árvores. 1* De maneira semelhante podemos alterar o próprio conceito ‘realidade’ e, assim, construir realidades inteiramente novas! A minha definição do conceito ‘real’ é qualquer sistema simbólico com o qual cada pessoa está acostumada a se pautar 2*. Posso ampliar a extensão do conceito de realidade retirando a exigência de “estar habituado”. Nesta definição qualquer sistema simbólico é considerado realidade (ao pensarmos em ‘mundo’ ao invés de ‘realidade’ chegamos exatamente à proposta que Nelson Goodman defendeu no seu livro ‘Ways of worldmaking').

A partir desta perspectiva mudar os símbolos implica em alterar os sistemas simbólicos (alterando a própria realidade). E os símbolos podem ter seus parâmetros alterados da mesma maneira que uma cinegrafista regula sua máquina de filmar: podemos tanto regular parâmetros como podemos incluir ou excluir parâmetros inteiros. Podemos regular a abertura do diafragma (alterando a profundidade de campo), “bater o branco” na cor que quisermos (fazendo com que todas as outras cores sejam alteradas), alterar lentes ou mesmo podemos meramente excluir a cor (fazendo um filme preto e branco), podemos deixar o filme mais lento (ao gravar muitos frames por segundo) ou mais rápido (ao gravar poucos frames por segundo). Ainda podemos excluir o movimento, tornando a imagem estática (fotografia) ou mesmo podemos incluir sons e excluir imagens (gravação de áudio)... enfim, as possibilidades para a construção de conceitos são infinitas. A título de exemplo vamos brincar um pouco com o conceito ‘trabalho’.

Suponhamos que a definição base de trabalho seja ‘1. todo o valor gerado; 2. mediante uma alteração; 3. diretamente ou indiretamente por humanos; 4. mediante gasto de energia’. Podemos tirar do predicado ‘3. diretamente ou indiretamente por humanos’ e ‘1. todo o valor gerado’. Neste caso teremos uma definição que considera aquilo que a água faz com uma pedra (ao bater tanto nela que a desgasta) trabalho, também consideraríamos o que uma chama faz a um cubo de gelo (o derretendo em água) trabalho. Agora consideremos que a alteração da definição base consiste em trocar ‘energia’ por ‘esforço’. Ficamos com: ‘esforço desprendido por seres humanos para realizar alguma transformação que acarrete criação de valor’. Assim, o trabalho de um agricultor por meio de sua enxada (capinar) é considerado trabalho (mesmo que ele não tenha tocado diretamente na terra, mas apenas a tenha tocado a partir de um instrumento). O alcance desta definição se torna mais claro com o caso da tradução.

Milhares de pessoas trabalham com esta profissão o que gera valor para muita gente, inclusive para quem as contrata. Agora imagine que um grupo de 10 pessoas cria um programa com inteligência artificial que faz uma boa tradução. Tal programa se aprimora com o uso e depois de 10 anos se ele torne tão bom quanto um tradutor não profissional, depois de 50 anos se torne tão bom quanto bons tradutores. Neste caso os criadores do programa realizaram um trabalho que indiretamente gerou valor semelhante a milhares (quiçá milhões) de traduções 4*. A definição de trabalho que estamos usando é a de ‘valor gerado por humanos (mesmo que indiretamente)’. Se alguém fizer um robô com inteligência artificial e este robô desenvolver diversos outros robôs que desempenham trabalhos diversos, o trabalho de quem desenvolveu o primeiro robô gerou indiretamente todo o valor produzido por tudo aquilo que todos os robôs fizeram (no caso o construtor do primeiro robô indiretamente gerou muito valor). De acordo com tal definição, algumas pessoas geram mais valor do que milhões de outras pessoas. Uma musicista popular (como a Anitta) gera mais valor do que milhares de musicistas que tem menos alcance que ela. 5*

Da mesma maneira que podemos alterar os parâmetros de conceitos, podemos também combinar ou cindir conceitos que farão parte do nosso sistema simbólico (nossa realidade). Por exemplo, o conceito de veículo pode ser considerado a soma de diversos outros conceitos (como o conceito de avião ou de bicicleta). O conceito de unidade (se referindo a corpo físico) é apenas uma dentre inúmeras possíveis. Ao invés de considerarmos o trabalho como executado por alguém, podemos considerar o trabalho como algo desempenhado por uma classe inteira. Oras, todas as traduções realizadas pelo google tradutor podem ser atribuídas à meia dúzia de pessoas que o programaram. Como elas são trabalhadoras (e a unidade que estamos usando é classe trabalhadora), então todas as traduções do google tradutor podem ser atribuídas à classe trabalhadora. Todas as máquinas que foram geradas pelas máquinas que alguém criou podem ser atribuídas à classe trabalhadora. Portanto, com os conceitos de unidade (se referindo a classe trabalhadora) e de trabalho (valor gerado diretamente ou indiretamente pelo esforço humano) temos, por enquanto, que todo o valor foi gerado pela classe trabalhadora. Agora vamos manipular mais um conceito, o de justiça.

Uma dentre as infinitas definições possíveis de justiça é ‘dar a cada um na medida do valor que ela gerou’. Recapitulando: 1) o valor é gerado pelo trabalho - do último ser humano que desprendeu esforço na transformação; 2) justo dar em conformidade com o que foi gerado; 3) a unidade que fez o trabalho é a classe trabalhadora. Assim temos que é justo dar tudo o que foi produzido à classe trabalhadora, PORQUE foi ela a responsável pela geração de valor. Tal sistema simbólico mimetiza grosseiramente o marxismo, da mesma maneira que a definição de trabalho mais acima mimetiza grosseiramente o conceito de trabalho da física clássica 6*. O que eu gostaria de chamar a atenção neste ensaio não é se um destes sistemas simbólicos é Real (defendo que nenhum sistema é Real, nenhum tem amarras metafísicas que nos obriguem a entender tal sistema simbólico como necessário). A escolha por um sistema simbólico não se dá procurando enxergar as amarras metafísicas que ligam um conceito à Realidade (tais amarras nem existem), a escolha por um sistema simbólico se dá através de outra coisa, através de algo que está fora do sistema simbólico 7*.

Douglas Hofstadter demonstrou no livro GEB que o teorema de incompletude de Gödel vale para sistemas simbólicos 8*. Desta maneira devemos apelar para algo fora do sistema simbólico para recusar, aceitar ou alterar algum sistema simbólico. De acordo com meu sistema de crenças qualquer pessoa deve ter direito a uma vida digna. Entretanto, derivar tal direito da capacidade da produção de valor é (novamente, de acordo com meu sistema de crenças) disparatado. E este é o objetivo do ensaio: mostrar que os conceitos não são necessários (não tem amarras metafísicas), portanto somos livres para construir realidades alternativas (sistemas simbólicos alternativos). Entretanto, é recomendável escrutinar as realidades alternativas que criamos a partir de valores mais básicos. Aqui o exemplo do que busco em sistemas simbólicos: 1) inteligibilidade - eu ter capacidade de entender o sistema simbólico; 2) consistência interna - quanto menos contradições melhor; 3) compatibilidade com minhas experiências. 4) coerência com outros sistemas simbólicos. Agora critérios que eu me esforço para evitar: 1) conveniência - acreditar em algo porque me favorece, 2) conforto cognitivo - acreditar em algo apenas para não questionar outras crenças estabelecidas (sem me questionar se tais crenças são pertinentes) e 3) familiaridade (algo é verdadeiro porque estou habituado a acreditar que aquilo é verdadeiro).

Me repetindo: a escolha por determinado sistema simbólico se dá através de algo de fora do sistema simbólico em questão (o próprio sistema simbólico não pode se justificar/embasar/provar, como mostra o teorema de incompletude de Gödel 9*). O meu valor pessoal é o de que todas as pessoas devem ter condições de ter uma vida digna, entretanto não derivo isto da capacidade das pessoas de gerar valor. Até aqui construí alguns significados de ‘cantar’ e de ‘trabalho’ para mostrar como é possível construí-los de infinitas maneiras. Gostaria de chamar a atenção para o fato de que diversos conceitos que já foram vistos como necessários - como se tivessem alguma amarra metafísica no Real (objetivo) - sofreram mudanças ao longo da história.

Houve uma época que o conceito ‘número’ contemplava apenas 1, 2, 3… Apenas os inteiros positivos. Com o tempo o zero passou a ser considerado um número, bem como o -3 ou o pi (uma dízima periódica que não se repete, um número tão maluco que contemplá-lo nem chega a ser racional!). Cada um dos conceitos varia não apenas no tempo, mas especialmente de acordo com cada pessoa. É seguro dizer que o meu conceito de número possui um predicado muito maior do que o conceito ‘número’ do vendedor de frutas na entrada da quadra (ele mal é alfabetizado, provavelmente nem sequer conhece o conceito de números irracionais ou dos números imaginários). Também é seguro dizer que o meu conceito ‘número’ é reduzido e mais simples do que o conceito ‘número’ de um matemático - que é familiarizado com campos da matemática que eu nem ouvi falar.

Outro conceito que parecia necessário (ou seja, parecia que estava atado através de alguma amarra metafísica com o Real) é o conceito de geometria. Há poucos séculos acreditava-se que só seria possível a geometria euclidiana - aquela que aprendemos no ensino médio e que diz que a soma dos ângulos do triângulo é 360 graus. Atualmente existem diversos modelos de geometria e a própria relatividade geral usa um espaço em uma geometria não euclidiana, o espaço da relatividade geral tem 4 dimensões (ao passo que a geometria euclidiana só tem três). Mas a lista de exemplos é incontável, o conceito ‘sol’, por exemplo, muda de cultura para cultura. No Egito antigo era um Deus, na idade média o conceito ‘sol’ o descrevia como orbitando ao redor da Terra… A variação dos conceitos é de tal magnitude que Douglas Hofstadter afirma que é impossível que dois símbolos sejam iguais em duas pessoas diferentes 10*.

Agora se entendermos que uma verdade é uma afirmação dentro de um sistema simbólico (e que os sistemas simbólicos não são necessários), então chegamos à conclusão de que a verdade é não necessária. Neste sentido há quem diga que a verdade é relativa. Prefiro outro ponto de vista: a verdade é necessária a determinado sistema simbólico. Dentro do sistema simbólico da religião católica a afirmação ‘Jesus Cristo transformou água em vinho’ é uma afirmação correta. Dentro dos sistemas simbólicos 11* que eu decido aceitar há a necessidade de coerência - mesmo que esta coerência se mostre inadequada à luz de novas experiências e aprendizados. Assim, dois mais dois, dentro do sistema algébrico, são necessariamente quatro. Da mesma maneira prezo pela inteligibilidade (que caminha lado a lado com a simplicidade). Desta maneira o predicado ‘por humanos’ em ‘cantar’, ‘amizade’, ‘inteligência’ ou ‘trabalho’ me é tão disparatado como dizer que o sol gira ao redor da terra.

REVISÃO

Defendo a perspectiva de que é possível a construção de símbolos e de sistemas simbólicos livres de qualquer amarra metafísica à Realidade (quando escrevo em caixa alta me refiro a algo objetivo, inevitável, necessário). Os sistemas simbólicos são a realidade que vivemos, assim a escolha por sistemas simbólicos tem grandes consequências (a respeito das quais não abordei neste ensaio). A partir do que defendo alguém poderia imaginar que a verdade é relativa e que podemos acreditar no que quisermos ao nosso bel prazer. Não é o caso: as verdades são afirmações produzidas e avaliadas dentro de sistemas simbólicos. Dentro do sistema simbólico em que escolho viver o sol é o centro do sistema solar, 2 + 2 = 4 e o valor que cada pessoa atribui a cada coisa é subjetivo aos interesses e valores de cada uma delas. Da mesma maneira que é possível mostrar que uma afirmação ‘2 + 2 = 5’ é falsa (apelando para o sistema simbólico ‘matemática algébrica’) é possível mostrar que a afirmação ‘existe valor objetivo’ é falsa apelando para algo que está fora do sistema: a coerência com as experiências que vivemos (nem todo mundo valoriza o café que estou tomando e que eu valorizo muito).

É mais simples desenhar um modelo matemático em que o sol é o centro do sistema solar, mas também é possível fixar o planeta terra como ponto de referência. Inclusive, é o que faziam na idade média e os astrônomos conseguiam fazer previsões de eventos astrológicos com décadas de antecedência (como um eclipse ou a passagem de um cometa). Entretanto, o modelo com o Sol no centro do sistema solar tornou todas as previsões mais simples. Da mesma maneira é possível colocar ‘por humano’ no conceito de inteligência. Desta maneira teremos que dar explicações esdrúxulas para a maneira que animais e programas de computador encontram soluções novas para problemas (é sabido que o AI revolucionou a maneira com que humanos passaram a jogar xadrez).

Da mesma maneira, é possível definir ‘trabalho’ com os predicados ‘origem de todo o valor’ e com ‘resultado da ação humana’. Assim o valor gerado pelo programa google tradutor (incontáveis traduções sendo feitas a cada momento) pode ser atribuído aos últimos seres humanos que entraram na cadeia de produção. Entretanto, prezando pela simplicidade, prefiro descartar um conceito de trabalho que inclua ‘origem de todo o valor’. Assim, o valor do jamelão que comi ontem a caminho da minha casa não é fruto do trabalho de ninguém. Caso o conceito de trabalho inclua o predicado ‘origem de todo o valor’, então o esforço de esticar a mão para pegar o jamelão será considerado trabalho.

CONCLUSÃO

A partir de uma perspectiva ampla, é possível entender todos os sistemas simbólicos como partes de um só. Desta maneira é impossível um sistema simultaneamente consistente e completo: o conhecimento perfeito, o acesso ao Real (entendido como objetivo e necessário) é impossível - é por isto que sou cético. A maneira com que entendemos nossas experiências, que atribuímos sentido à própria vida e à de outros seres, bem como a maneira que pautamos nossa ação se orienta por sistemas simbólicos. Estes, como defendia Nelson Goodman, constituem o mundo que experimentamos, também constitui aquilo que entendemos como real. Uma vez que não existem amarras metafísicas que obriguem que determinados conceitos sejam de determinada maneira, ao invés de buscar ‘A’ Verdade (cuja percepção depende do hábito) recomendo que busquemos a coerência com princípios externos ao sistema simbólico. Os princípios que eu recomendo são 1) inteligibilidade; 2) coerência com outros sistemas simbólicos; 3) coerência interna - quanto menos contradições melhor; 4) simplicidade; 5) coerência com a experiência. A partir do escrutínio dos nossos sistemas simbólicos podemos viver uma vida mais coerente com nossos valores.

1* De acordo com a lógica aristotélica as coisas designadas (que aqui chamo de conceitos) tem uma extensão. A extensão de ‘pessoas no meu prédio’ são todos os seres humanos que aqui estão. Já a compreensão de um conceito são os predicados que definem o conceito. Então a compreensão são os predicados 1. Seres vivos 2. Da espécie humana 3. Situados no interior do prédio. Repare que desta maneira quanto mais predicados, menor a extensão. Se eu colocar mais um predicado 4. crianças, vou considerar apenas as pessoas com menos de 12 anos - a extensão se reduziria drasticamente (pois estes apartamentos são de um quarto, quase nenhuma criança mora aqui).

O conceito de extensão e compreensão são incríveis, mas percebo que o conceito ‘número’ mudou muito com o tempo, seu predicado apenas aumentou, mas, ao mesmo tempo, sua extensão também aumentou. Antigamente o zero não era considerado um número, hoje é. Assim me pergunto se existem predicados qualitativos (como os pensados originalmente por aristóteles) e os predicados aditivos (predicados que ampliam a extensão do conceito).

De qualquer modo, mesmo pensando exclusivamente de acordo com a lógica aristotélica (na qual a quantidade de predicados reduz a extensão do conceito) é possível um conceito com mais predicados possuir maior extensão do que outro com menos predicados. Digamos que eu defina ‘moto’ como 1. Veículo; 2. Duas rodas e defina ‘veículo’ como 1. máquina ou animal; 2. Usado para transporte; 3. Situado dentro da Via Láctea. O conceito de moto tem menos predicados, mas tem menos extensão. Isto acontece porque o conceito de veículo entrou dentro do conceito de moto, assim os predicados de veículo entraram subrepticiamente dentro do conceito de moto.

2* Tal definição traz a percepção de David Hume que o sentimento de realidade vem do hábito, mas também com a proposta de Nelson Goodman de que qualquer sistema simbólico é um mundo.

Seria um pouco mais fiel a David Hume se definisse ‘real’ como qualquer sistema simbólico com alguém está acostumada a considerar real. Se o fizesse estaria entrando em uma definição circular, mas é impossível definir um símbolo que se refere aos próprios símbolos do sistema simbólico sem incorrer em circularidade. Isto evidencia que o teorema da incompletude de Gödel se aplica a sistemas simbólicos. Este é um exemplo do que Douglas Hofstadter chama de ‘strange loop’, ciclo estranho, em português.

3* O ensaio tal qual apresentado está considerando ‘valor’ como um conceito objetivo. Posição contra a qual me posiciono veementemente. O faço apenas para simplificar o exemplo. Se dissermos ‘trabalho gera valor a alguém’ a afirmação se torna mais precisa. Quem paga o salário percebe que aquele trabalho gera valor (de acordo com sua perspectiva pessoal), caso contrário não se disporia a pagar pelo trabalho. No outro lado da transação o trabalho gera valor para quem trabalha. Quem trabalha só o faz por entender que aquilo que o seu pagamento vale mais do que o tempo e o incômodo do trabalho (desutilidade do trabalho).

Portanto, em regra, o trabalho gera valor ao menos para ambas as partes da transação. Mas isto não quer dizer que isto é valor para quem está de fora da transação (quem observa pode achar que aquilo que está sendo transacionado não tem valor nenhum). Já tratei o tema em diversos ensaios. Buscar

4* Esta é uma comparação imprecisa. O advento de um programa como o google tradutor se tornou disponível para muitas pessoas que nunca teriam acesso a alguém que fizesse uma tradução e a uma velocidade instantânea. O alcance do google tradutor é muito maior do que o das profissionais que fazem tradução. Além disso, pessoas bem formadas ainda traduzem melhor do que o google tradutor. O google tradutor também já excluiu do mercado tradutores que sejam piores do que ele (os tradutores do mercado sempre serão melhores do que o google tradutor, caso contrário ninguém os contrataria). Além disso, quem trabalha com tradução pode recorrer ao google tradutor (e a outros programas de tradução). Ainda assim, a comparação com o programa dá uma ideia do quanto valor foi gerado por este programa acessível a qualquer pessoa com internet.

5* Como não existem parâmetros objetivos para nenhum conceito (nem para ‘boa música’) então o valor gerado pela música é atribuído a cada pessoa que escolhe ouvi-la. Talvez haja alguma musicista com mais domínio técnico e teórico que a Anitta, mas se tal musicista é considerada boa e apreciada apenas por meia dúzia de especialistas, então a musicista só gera valor para tais pessoas.

6* Versões simplificadas de teorias frequentemente são acusadas de ‘falácia do espantalho’. Tal falácia se vale de uma versão simplificada para fazer uma crítica que, segundo os defensores da teoria, não se aplica à teoria original. Sou favorável às simplificações e defendo que é impossível fugir delas - inclusive para quem defende a teoria. A este respeito faço uma defesa dos espantalhos neste ensaio:

A falácia do espantalho x A falácia do manequim

https://www.recantodasletras.com.br/ensaios/7368355

7* Este ‘algo de fora do sistema simbólico’ merece um nome. Em breve escreverei um ensaio para batizar este conceito.

8* O que leva a um problema: a partir de uma perspectiva ampla tudo o que acreditamos se constitui em um sistema simbólico (que se confunde com cada um de nós). Portanto, de um ponto de vista amplo, nenhuma crença é justificada. É por isto que sou cético. Entretanto, haja vista que temos algumas crenças não justificadas é possível excluir outras crenças por não se adequarem a elas. Alguns exemplos de crenças não justificadas são os princípios, os axiomas, os dogmas e os postulados. É interessante notar que a lista de crenças não justificadas é infinita e a percepção da crença não justificada se dá a partir de uma investigação que se faz a respeito de algo. Para este texto, por exemplo, as regras sintáticas são uma “crença não justificada”.

Verdades Céticas https://www.recantodasletras.com.br/ensaios/7381017

9* Douglas Hofstadter mostrou que é possível traduzir o sistemas simbólicos em sistemas formais, desta maneira o Teorema da Incompletude de Gödel se aplica a qualquer sistema simbólico. Eu esperava que isto fosse encarado com naturalidade pois que as linguagens de programação estão cada vez mais semelhantes às linguagens humanas (compare uma linguagem de alto nível com programar com 1 e 0) e que as linguagens computacionais são sistemas formais.

10* Pois o significado de um símbolo se dá em sua relação a outros símbolos, inclusive através do que Hofstadter chama de ‘strange looping’.

Entender e Significar https://www.recantodasletras.com.br/ensaios/7217916

11* O que é um sistema simbólico e o que é um símbolo? Qual a distinção entre ambos? Oras, a atribuição do sentido de um símbolo necessariamente se dá através de sua conexão com outros símbolos. Inclusive há símbolos auto referentes (como ‘eu’) através dos quais a atribuição do sentido se dá através do ‘strange loop’. Assim, qualquer símbolo pode ser considerado um sistema simbólico. Da mesma maneira, qualquer teoria pode ser referida através de um nome, por exemplo, ‘teoria da evolução’. Assim, a ‘evolução’ pode ser considerada um símbolo.

Chico Acioli Gollo
Enviado por Chico Acioli Gollo em 03/12/2021
Reeditado em 03/12/2021
Código do texto: T7399014
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