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Uma nova e diferente história

"Faça o que eu digo, não faça o que eu faço." Já dizia meu velho e bom pai, violentando minha frágil honra infantil.

Mas ao menos tive meus 'verdadeiros' heróis... Falhos, as vezes covardes, no fundo pessoas normais. No entanto, somente a ilusão de sua 'divindade' bastava para mim que não reparava nestes pequenos detalhes (humanos!). Tive sorte... Só agora me dou conta disto. Passava horas e horas perdido em meus sonhos "do que eu ia ser quando crescer". Via-me um policial prendendo ladrões, um médico salvando vidas, um bombeiro apagando incêndios, um jogador de futebol fazendo gols, um engenheiro construindo coisas. E 'brincava' me imaginando um herói, apenas o meu herói talvez. E, mesmo não enxergando bem a humanidade dos meus heróis, mesmo com desejos não realizados, mesmo levando algumas pancadas da sempre presente realidade, tive o direito de sonhar e viver enquanto criança a minha infância.

Fui crescendo e as coisas mudando... E o mundo mudando. No jornal entre a das 7 e a das 8 não se fala outra coisa já há muito tempo, tanto que nem lembro o quanto. Guerras, assaltos, tiros, assassinatos. Violência explícita pública e gratuita em horário nobre. Crianças crescendo nesse meio. Aprendendo com ele enquanto seus pobres pais nutrem a vã esperança de que seus filhos terão um 'futuro' diferente. Que futuro? Eles, os filhos, crescem correndo das balas em meio aos 'policiais' e 'bandidos' dessa nova e diferente história.

Crescem vendo o vizinho esperto cheio de ginga que leva e traz drogas. Também faz 'pequenos delitos' como exemplo do que sua esperteza pode trazer. Crescem vendo o amigo rico da família em seu carro importado e com belas mulheres. Admirando-o. Vendo também este mesmo amigo na capa do jornal, assassinado enquanto assaltava um banco. Crescem vendo o pai policial de um amigo de brincadeiras de rua lavar a farda do serviço escondido, sem entenderem como a roupa seca sem ir para o varal no quintal.

Nem bem crescem e também começam a interagir com isso tudo. A longe e distante escola já não interessa mais. Não ensina nada interessante para o mundo deles. A escola da vida ensina bem mais. Esquecem-se que são crianças. Têm suas pequenas e frágeis vidas usadas num jogo que nem se quer entendem. Têm armas nas mãos e balas no peito. Já não têm esperanças em um futuro que provavelmente nem chegará. E, enquanto burocratas perdem um tempo precioso perdidos entre a infância e a maioridade sem nem lembrar que esses tantos 'menores' nunca foram crianças, permanecemos atônitos, chocados com nossa dura realidade... Até quando?
Joao Paulo Magalhaes
Enviado por Joao Paulo Magalhaes em 28/11/2007
Código do texto: T755853

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Sobre o autor
Joao Paulo Magalhaes
Recife - Pernambuco - Brasil, 33 anos
3 textos (84 leituras)
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Joao Paulo Magalhaes