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Breve desabafo...

breve desabafo...
Tenho uma história com o Partido dos Trabalhadores, e especialmente com Lula, que poucos sabem, e que em determinado momento da minha própria história recente, tão recente quanto o Brasil democrático, foi decisivo em muitas das minhas convicções políticas.
Vou contar a vocês “rapidamente”, mas já vou adiantando: é bem bobinha. Não esperem morrer de rir (ou de chorar), mas serve pra ilustrar bem umas certas coisas...
Era 1989, o Brasil preparava e se preparava para uma data que já tinha entrado para a história brasileira, ainda antes de acontecer. A ditadura militar tinha finalmente dado seus últimos suspiros alguns anos antes, bem como Tancredo Neves, Sarney terminava um mandato atribulado e o povo poderia escolher, utilizando-se do sufrágio universal, o seu representante direto no Palácio do Planalto (nem se quer se discutia se a Granja do Torto poderia ser a residência oficial de um Presidente da República ou não).
Comícios eram feitos aos montes pelo país afora, e em Campina Grande não era diferente. O movimento sindical era forte por aqui e não foi à toa que foi organizado um comício desses grandes na nossa cidade. É verdade!! Pra quem não se lembra... Aquele barbudo barraqueiro veio sim à nossa cidade pra falar pra uma multidão de desiludidos (alguma semelhança 15 anos depois??).
Lembro como se fosse hoje. A camisa de campanha era uma branca com um desenho bem interessante: se você reparasse bem, viria que milhares de pequenos rostos em preto-e-branco se juntavam e formavam uma figura maior: o rosto do nosso presidente (e haja cabecinha pra formar aquela barba enorme da época!!!). Eu, com somente 4 anos já estava lá no meio: essa camisa ficava enorme em mim, lembro que batia muito abaixo do joelho. Caminhava pelo Parque do Povo, olhava pra cima e só via um monte de gente maior que eu, com um monte de bandeiras do PT, do PCdoB e do Movimento Sindical, dessas com o mastro de bambu... e eu achando aquilo tudo o máximo!! Ainda mais porque chovia muito e o meu tênis branco-com-rosa fazia um barulhinho engraçado quando eu caminhava.
Todo mundo prestava muita atenção ao que aquele homem dizia... talvez por isso eu tenha me perdido no meio daquele povo todo. Só me lembro que depois de um tempo, Fátima, amiga dos meus pais me achou, segundo ela, brincando ali nas escadas do Centro Cultural. Mainha e Papai já estavam loucos, lógico... Depois disso só lembro que eu cheguei em casa já de noite e com o pé todo engilhado (que palavra é essa?!?) por causa de tanta água.
Alguns muitos anos depois, sempre assistia ao resultado das eleições (lembram que demoravam dias, sendo computados os votos um-a-um??) e Lula nunca ganhava... daí eu comentava em casa: “será que Lula vai esperar eu votar nele pra ele um dia ganhar as eleições?!” . Dito e Feito. Ano eleitoral, vesti, literalmente, a camisa. Andava com botton, fazia apologia, até crime eleitoral cometi, fazendo boca-de-urna quando dava e não tinha ninguém vendo...
Outros poucos anos depois, o governo acabou ficando muito aquém do que 53 milhões de pessoas que votaram lá em seu Luís esperavam.
Acabou!?!? Bom... pelo menos essa é a impressão que se tem passado. Estava lendo o blog do jornalista Roberto Noblat ( www.noblat.com.br ), e vi um artigo com esse título: “O Governo Lula acabou?”, escrito pelo cientista político Murillo de Aragão, onde ele fala que Basicamente, a maioria daqueles que decreta o fim do governo Lula está em duas categorias absolutamente enviesadas. Uns torceram muito para Lula dar certo. Outros torcem desesperadamente contra.
Eu torci, e ainda torço, desesperadoramente a favor.
Toda essa m**** que tem sido jogada no ventilador tem somente confirmado o que já se é sabido: há algo de podre no reino da Dinamarca. E o pior: já não se sabe se há tempo para resgatar algo de bom, ou pelo menos a dignidade.
Realmente não creio que todos esses escândalos sejam prova absoluta de que o Presidente não é o homem que acreditávamos que fosse, mas também só ir à televisão e dizer que é honesto, um poço de moral não é o suficiente, ainda que seja verdade.
Acho, sinceramente, que ele deve deixar essa diplomacia com complexo de inferioridade como se ainda fosse um sindicalista negociando com patrão, e falar como um Presidente da República, com respostas rápidas e sinceras, como ele mesmo faz questão de dizer: “doa a quem doer”, e de uma vez por todas, representar o país como ele deve ser representado (não como merece!) e ponto!
Eu não votei em um homem pra ver ele sendo tratado como um palhacinho... que é o que tem sido: ir à encontros pra contar piadas, e todos rirem dele, e outra meia dúzia pensar, “nossa...como Lula é divertido!!”.
Ou ele pára de ser somente divertido e agradável e começa a ser pragmático e duro, ou ele nunca será respeitado como deve ser. Chega de fogo-amigo!!! Ser derrubado por uma oposição ferrenha é uma coisa. Tiro pelas costas é outra completamente diferente e é nojento.
Mostro hoje a todos a minha indignação por uma pessoa na qual acreditei muito (que ainda acredito, mas a crença está sofrivelmente abalada), mas que hoje se mostra como uma pessoa que se não participou de todo esse horror que corre na boca pequena, não percebeu o que estava acontecendo, o que é fatal para uma pessoa que ocupa uma posição como a que ele ocupa.
Não acho que seu governo tenha acabado... Não serei eu a concordar com ACM (eca!) que falou que a situação era pior que a de Collor, mas se Lula não tomar as rédeas de seu governo, não tirar todos esses nojentos que têm “mamado nas tetas do governo”, mostrar que não é somente retórico e mostrar que 53 milhões de esperanças não foram em vão... não serei eu quem fará campanha a favor nas próximas eleições.
Hoje vejo que Lula está bem mais perdido do que eu na multidão, e que dificilmente alguém o encontrará brincando. Ou ele nos dá uma resposta convincente e tão importante quanto a crise que enfrenta e sai sozinho dessa lama toda, ou será muito tarde, e aí sim o governo terá acabado muito antes do final, e sem essa de deixar o melhor pro fim.
Tenho muita vergonha quando vejo tudo o que está acontecendo, e até chego a me sentir um pouco responsável por tudo o que acontece, ainda que não seja, por que tenho vergonha nessa minha cara.
Ninguém, nem nada, suja as minhas ideologias políticas e sai ileso.
Alguém se candidata a ir comigo à Brasília tocar foto no Congresso Nacional???


p.s.: Lembram daquela música de Paralamas?
“Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou: são 300 picaretas com anel de doutor!”
(junho-2005)
Gabriela Gonçalves
Enviado por Gabriela Gonçalves em 04/01/2006
Código do texto: T94147
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Sobre a autora
Gabriela Gonçalves
Campina Grande - Paraíba - Brasil, 31 anos
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Gabriela Gonçalves