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SAIU NO JORNAL DA POUSADA DO RIO QUENTE-GO

Genaura Tormin é uma pessoa especial, diferente, não só no visual, mas na sensibilidade que lhe comanda o coração, a vida. Ela é uma escritora. Não só uma escritora: uma mulher de garra, de fibra. Um exemplo de vida. Uma mulher da Lei. Vítima de uma paraplegia que lhe meou o corpo, não se deixou ficar à  margem da vida. Foi à luta! Embora não marque o chão com os passos, ela anda com a mente, com o coração. Caminha em ideais, em trabalho, em afetividade, deixando sempre o sorriso estampar-lhe o rosto. Pernas não são problemas para ela. Mesmo andando numa cadeira de rodas, Genaura exerceu, com galhardia, o cargo de Delegado de Polícia de Goiás até assumir o de Analista Judiciário no TRT-GO, em Goiânia, onde exerce suas atividades na Diretoria de Serviço de Recursos e Distribuição . Se um deficiente de cadeira de rodas pode ser até um delegado de polícia, o que mais ele não poderá fazer?

PV - Em qual delegacia a senhora atuava?

Atuei em várias delegacias distritais, afinal, trabalhei 30 anos na Polícia Civil do meu Estado. Entre outros, fui delegada adjunta da Delegacia da Mulher, Delegacia de Trânsito e Delegada Titular da antiga Delegacia de vigilância e Proteção de Menores, com circunscrição em toda a grande Goiânia, além de exercer o magistério na Academia de Polícia de Goiás, nas cadeiras de Organização Policial e Deontologia Policial.

PV - Com a experiência no trato com crianças e adolescentes, o que a senhora acha da adoção de crianças brasileiras por estrangeiros?

Acho que o bem maior não tem nacionalidade. Entretanto, o Brasil é um País viável e dentro dos parâmetros de ser humano somos capazes de criar nossas crianças. Basta conscientização e solidariedade social, além de um pouco mais de responsabilidade governamental. Talvez uma campanha como: "Troque seu cão por uma criança" poderia ajudar. Por outro lado, sempre houve muita burocracia para o processo legal de adoção de crianças.

PV - Qual a conseqüência do tóxico para o adolescente?

As conseqüências são desastrosas, haja vista que 90% dos adolescentes que passavam pela delegacia eram usuários de substâncias tóxicas, até as drogas injetáveis que causam dependências e grandes perdas à  saúde física e mental, levando, à s vezes, à  morte, sem se falar nos prejuízos morais. É drogado que o indivíduo perde o juízo crítico, entrando na permissividade para praticar delitos hediondos que o marcarão até o fim de seus dias.

PV - Quantos anos a senhora tem?

Já vivi meio século, conheço bem a jornada. Fui menina, rebelde, barulhenta, traquina. Mulher, hoje sou. Laboriosa, complicada, parideira, dona de casa... Ardo em orgasmos, arquejo em lágrimas... Acredito que a idade está relacionada com a mente, com o encantamento de viver, com a decisão de sermos bons para conosco e para com o próximo, pelo menos o mais próximo. É um compromisso com o sorriso que me estampa o rosto, como você disse. Por isso, reputo-me sempre com 20 anos, pois as faces se enrugam, mas o essencial não pode se enrugar nunca! Estou certa?

PV - E a sua família?

Sou casada com o odontólogo Alfredo Tormin e temos quatro filhos. Uma família que me ama e não me castra as oportunidades. Pelo contrário, é um nascedouro de forças, incentivos que me fazem caminhar mesmo sem o uso das pernas. E isso é de importância vital. Talvez seja o segredo de todo o sucesso que tenho conquistado.

PV - Fale dos seus livros.

PÁSSARO SEM ASAS , em 5ª edição, é um livro autobiográfico, de pensamento positivo, em que eu tento transformar derrotas em conquistas. Mostro-me por inteira, escudando as dificuldades com o positivismo que decidi adotar. É um relato escancarado de quem protagonizou no palco da vida uma história diferente, cujas machucaduras tento reverter. Além de tudo, é um romance, um compêndio de ensinamentos para quem ganha uma deficiência e não sabe como proceder. Tento passar uma mensagem de otimismo, de coragem, que poderá ajudar outras vidas, provando que o "querer é poder". Defensora do trabalho como religião da vida, também como terapia, sentimento de utilidade, rebato paternalismo e ouso dizer que "não se deve dar ao homem o que ele pode conseguir com o fruto do seu trabalho, sob pena de roubar-lhe a dignidade". Um de seus capítulos, " O deficiente físico sob a luz da Lei" é uma resenha jurídica da legislação que trata de toda a sua problemática e, com certeza, é de grande valia. Encontra-se na internet, em forma de artigo, no site jurídico - Apriori - sob o nº 106, e em outros sites...

PV - A senhora também é poetisa?

Tenho um livro, APENAS UMA FLOR, um vôo pelos veios da poesia para acalentar a vida, colorir os instantes desbotados. Não me importa se canto o amor, a vida, a morte... O que importa é cantar, extravasar, curtir as palavras lindas, tristes ou fortes. E a vida continua. Ainda sou perseguidora de sonhos. As portas me fascinam. A vida ainda acontece inteira no meu coração. Acredito no amanhecer, no poder recomeçar a cada dia. Sou a síntese dos meus desejos, compilação de inércias extáticas, mas, ainda, uma inesgotável fonte de encantamento pela vida, pelos amores, pelo belo, pela arte de fazer versos.

PV - A senhora está sempre na Pousada do Rio Quente, não é?

A Pousada do Rio Quente é um lugar de felicidade e paz com maravilhoso visual e piscinas de água corrente, clara como cristal, lendariamente, proveniente de um possível vulcão extinto. Sua natureza verde e florida nos proporciona momentos de gostoso lazer. Dizem, ainda, que as águas são notáveis por suas propriedades terapêuticas na cura das mais variadas moléstias. Possuem uma quantidade considerável de azoto e outros gases. O calor, o forte poder dissolvente e sua hipotonicidade ajudam a eliminar as toxinas do organismo e estimulam as funções do fígado, secreção biliar, intestino e a circulação.
Temos uma casinha de veraneio perto da Pousada, onde passamos todos os fins de semana. Assim, estamos sempre em suas águas, aproveitando da beleza da natureza e do afeto dos amigos, tendo a oportunidade de sempre conhecer outros mais, aumentando o círculo de amizade e o prazer de viver. Tenho um "scooter"(veículo tricículo, movido à  bateria), que me permite uma liberdade muito maior Assim, galgo todos os caminhos até as mais íngremes veredas, misturando-me às pessoas normais sem a rotulagem costumeira. Enrosco-me nas asas do vento e o meu caminhar fica leve, ligeiro... É uma mordomia que tem sabor de liberdade. Meu espírito transcende, fabricando felicidade. De roupa de banho, um camisão, um chapéu para proteger-me do sol, locomovo-me sozinha de minha casa à  Pousada, que se encontra em terreno muito acidentado, o que é irrelevante para o meu veículo, por ser movido à  bateria e especificamente desenvolvido para pessoas com deficiência física. Retorno quando quero, sem precisar ficar sob o jugo de terceiros. Além de tudo, consegui ser uma campeã. Atiro-me na piscina mais funda e atravesso-a, várias vezes, aos olhos dos espectadores que me viram entrar. Uso um colete salva-vidas para aumentar a minha liberdade na água, o que me permite, também, ficar na vertical sem que sofra arranhões. A profundidade da piscina permite-me esse conforto com segurança. Não tenho sensibilidade. Os que chegam depois nem percebem que sou uma deficiente física, e assustam-se quando me transfiro para o "scooter". É o exercício do meu show e eu gosto disso.


Genaura Tormin
Enviado por Genaura Tormin em 02/05/2006
Reeditado em 07/04/2007
Código do texto: T149197
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre a autora
Genaura Tormin
Goiânia - Goiás - Brasil, 71 anos
311 textos (395827 leituras)
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Genaura Tormin