VIAGENS - EXPERIÊNCIAS ALÉM DO CORPO

A noite já ia alta no céu e ele seguia caminhando sem parar, nem sabia ao certo por que, ou pra onde caminhava. Vez em quando topava em algum arbusto no meio do caminho. Lá no alto do firmamento a formação do cruzeiro do sul mostrava-se brilhante. Caminhou por mais quarenta minutos e parou diante da casa de taipa, de janela e porta pintadas de amarelo ouro, no chão ao invés de tapete, um pedaço de couro de jacaré, animal comum da região. Enfia a mão no bolso direito e tira de lá um molho de chaves, depois de três tentativas, finalmente abriu a porta que emitiu um rangido fantasmagórico.

- Preciso lubrificar estas dobradiças - Pensou. Tirou a camisa pendurando-a numa forquilha adaptada na parede como cabide. Livrou-se do restante das roupas e foi para o quintal onde um tanque cheio de água bem frio o esperava. Tomou uma cuia e despejou seguidas quantidades de água sobre a cabeça. Ao longe o barulho característico de uma coruja anunciava mau agouro. Procurou mudar de pensamento, lembrar de coisas felizes, de banho de rio, de pescaria, de descidas de escorrega do grande morro branco. Permaneceu por mais uns dez minutos observado o céu a procurar estrelas fugidias, o que era facilitado pela absoluta ausência de lâmpadas elétricas. Voltou para dentro de casa, atiçou o as brasas do fogão de lenha, pôs água para ferver, colocou uma porção de café moído no velho pilão para preparar um café típico da região, beijus endurecidos são retirados da lata hermeticamente fechada, ainda com cheirinho característico. Toma o café com um pouco de leite trazido da fazenda do vizinho do lado, come o beiju, controla a luz do petromax, arma a rede de linho de varandas longas, toma o romance de páginas envelhecidas, ajeita-se apoiando a cabeça com o lençol e começa a leitura. Não demora muito um estranho formigamento que começa pelos pés, e vai aos poucos atingindo as pernas. Abre os olhos, mas não consegue se mexer, acha estranho, mas permanece parado, os formigamentos evoluem para pequenos beliscões, quer gritar, mas o corpo não parece obedecer a mente, é como se um estivesse separado do outro, abdomen, pernas, peito braços, ombros cabeça, tudo parece estar em movimento contínuo, fecha os olhos e uma estranha sensação de leveza toma conta do seu corpo, o medo se torna maior quando percebe que está separado do próprio corpo, como pode estar em cima e em baixo ao mesmo tempo? - Pensa.

Do alto quase chegando no teto observa o corpo em sono profundo na rede, sente um imenso temor, um medo insuportável, mas ao mesmo tempo uma sensação de liberdade nunca experimentada, estende a mão e esta atravessa as palhas bem trançadas no texto, depois a cabeça e o resto do corpo, rodopia no ar , lança-se para cima e para baixa sem nenhuma gravidade, por um momento se diverte, agora a mais de um quilômetro de altura da casa observa os morros e o mar, impulsionado para a frente avança, cruza com pássaros, tenta pegá-los, em vão, eles passam por "dentro" do corpo dele.

- Vou até a casa de Joana - Pensa, e dirije-se para lá. A casa pintada de azul de telhas bem queimadas ficava a pouco mais de dois quilômetros dali, aproxima-se e atravessa a porta sem dificuldade, flutua pela sala e por um momento pára e fica na dúvida de entrar ou não, entra assim mesmo, ela está deitada de bruços, envolta em lençol de lilás, cruza as pernas em lótus e sorri, faz caretas, fala, mas ninguém ouve, tudo permanece em absoluto silêncio. De repente sente como se algo lhe puxasse, tenta subir, mas já não consegue flutuar com a mesma facilidade, desperta num suor intenso e um coração quase saindo pela boca, tudo parece normal; a rede, o petromax o livro caído no chão, as brasas ainda levemente acesas.

Meus Deus o que aconteceu?, terei sonhado, isto não deve ser coisa do bem - Estava muito confuso, tudo era novo e estranho. Levantou-se foi lá fora, tomou um banho caprichado, voltou para a rede e dormiu um sono profundo.

Logo bem cedo, foi correndo na casa de Joana. Tava meio sem jeito para perguntar, mas não resistiu.

- Joana, qual a cor do lençol que você se encobriu ontem à noite.

- Que pergunta louca, por que você quer saber ?

- Um bobagem, deixa pra lá.

- Tá legal, era lilás.

A resposta provocou tal impacto que ele quase caiu da cadeira, nunca estivera antes no quarto de Joana e muito menos sabia a cor dos lençois que usava. Joana notando o semblante sério de Iago, assustou-se.

Está acontecendo algum problema, você está se sentindo bem ?

Iago nem ouvia, as lembranças do acontecido apareciam como video-tape à sua frente. Naquela noite dormiu preocupado, mas só acordou no dia seguinte quando o sol já ia alto no céu.

RobsonJr
Enviado por RobsonJr em 01/01/2013
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