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ANÁLISE SOBRE O CÍRCULO VICIOSO DO PRECONCEITO LINGUÍSTICO DE MARCOS BAGNO

 ANÁLISE SOBRE O CÍRCULO VICIOSO DO PRECONCEITO LINGUÍSTICO DE MARCOS BAGNO
teacherginaldo@hotmail.com


Marcos Bagno em O círculo vicioso do preconceito lingüístico, segundo capítulo de seu livro homônimo Preconceito Lingüístico – o que é, como se faz, publicado em 1999 pela Editora Loyola, faz, de forma clara e objetiva, uma crítica àqueles que cultuam a norma culta e àqueles que não a domina.
O capítulo está divido em quatro partes: 1 Os três elementos que são quatro, 2 Sob o império de Napoleão, 3 Um festival de asneiras e 4 Beethoven não é dançado, as quais estão interligadas formando assim um círculo vicioso ligado ao preconceito lingüístico e tem a gramática tradicional como fator primordial que transmite seus preceitos e estimula a produção de livros. Bagno mostra que há um grande preconceito em relação à língua portuguesa e a seus falantes e que ela é um traço comum a todos que falam. A língua é, sobretudo, dinâmica e não estática, o que a difere da gramática normativa. A proposta do autor é justamente romper essas diferenças referentes à língua e a norma culta.
Para o autor o preconceito lingüístico é baseado exclusivamente na crença de que temos uma única língua portuguesa falada no Brasil, não considerando os sub-falares regionais e as suas variações lingüísticas. Qualquer fala ou expressão que se difere do triângulo escola-gramática-dicionário é considerado um erro, criando assim um preconceito. Neste contexto a noção do que seja correto, para os lingüistas, é exatamente o que está imposto pelo ensino tradicional da gramática normativa desconsiderando as variantes não-padrão. Desta forma a gramática tradicional direciona a prática do ensino, provocando o surgimento da indústria do livro didático, o qual tem a gramática tradicional como referência para a língua. É preciso, no entanto, salientar que as práticas de ensino variam de acordo com cada região, de escola para escola, de acordo com os critérios pedagógicos adotados, o que pode desencadear um contexto ou situação em que a realidade não condiz com o material impresso e a linguagem abordada, tornando-se uma questão social.
Cria-se a partir daí o mito em que muitos brasileiros acreditam não falar corretamente o português e que esse fato só é possível em Portugal. Ou que o português é muito difícil de falar e aprender segundo a norma padrão é um feito quase impossível, pois a língua falada no Brasil está toda errada. A diferença é que a nossa língua evoluiu diferentemente da de Portugal por ser rica em diversidade regional e peculiaridades em suas falácias. Existem também outras manifestações fora do triângulo citado e que não podem ser consideradas um erro, mas que vem sendo vista como preconceito lingüístico por parte de pessoas que pensam desta forma. São os comandos paragramaticais, que segundo Bagno, referem-se aos livros, manuais de redação e empresas jornalísticas, programas de rádio e televisão, jornais e revistas, que poderiam representar e ser de utilidade para quem tem dúvidas na hora de falar e de escrever, e se perde por trás do preconceito que envolve essas manifestações, fazendo com que os meios de comunicação e os recursos de informática, sejam utilizados de maneira oposta e não na destruição de velhos mitos e na elevação da auto-estima lingüística dos brasileiros.
Afirmar que no Brasil ninguém fala o português correto é ignorar completamente esses sub-falares regionais. Segundo o sociólogo Nildo Viana em seu livro intitulado Educação, Linguagem e Preconceito Lingüístico, a linguagem é um fenômeno social e está ligada ao processo de dominação, tal como o sistema escolar, que é a fonte da dominação lingüística e conclui que a escola é à base de todo esse preconceito lingüístico por reproduzir as desigualdades sociais. A pronúncia de certas palavras, a troca do L por R nos encontros consonantais, faz com que pessoas que falam dessa forma, que não tem acesso à educação formal, sejam marginalizadas por utilizar variedades não-padrão.  Essa variação lingüística não deve ser considerada um erro e sim um fenômeno fonético que acaba contribuindo para a formação da língua portuguesa padrão, assim como o excesso de estrangeirismos e até mesmo de neologismos.
Para Bagno o fenômeno que existe no português não-padrão é o mesmo que aconteceu na história do português-padrão. E este fenômeno recebe o nome de rotacismo, pois participou da formação da língua portuguesa padrão e continua vivo e no português não-padrão atual. Não aceitar essa pronúncia na escola, como variante lingüística dos brasileiros que falam o português não-padrão é um preconceito não lingüístico e sim preconceitos de culturas. É o que percebemos com personagens de novelas que representam papéis de nordestinos. Todos possuem as mesmas características, rústicos, atrasados, que tem o coloquialismo regional como traço específico de identificação lingüística.
É preciso respeitar a língua falada que muitas vezes se difere da língua escrita. O que fica claro nesta afirmação é que existem pessoas que se importam com estas questões, de forma pessoal e outras que possuem aversão a estas questões lingüísticas. As discordâncias entre lingüistas e gramáticos remetem a uma verdadeira guerra de razões e egos particulares. De um lado os gramáticos, baseados na gramática normativa, desconsideram qualquer forma de coloquialismo na fala, por não estar de acordo com a norma culta padrão da língua portuguesa. Do outro os lingüistas que tem a gramática descritiva como referência e justificativa para a aceitação dessas variantes lingüísticas da fala. Como exemplo Bagno nos apresenta Napoleão Mendes de Almeida como propagador do preconceito lingüístico através dos comandos paragramaticais, um defensor intransigente da língua, que nunca escondeu sua intolerância e autoritarismo. Para ele a literatura morreu com Machado de Assis e a lingüística não vai além da fonética.
Da mesma forma que há uma evolução na humanidade, a língua também acompanha esta evolução e transforma-se em objeto histórico, que além de se transformar, se modifica no tempo e se diversifica no espaço. Analisar a linguagem escrita, a fala de personagens em certos romances de Machado de Assis, é antes de tudo, perceber a evolução que a língua portuguesa sofreu. Basta compará-lo a um escritor contemporâneo e notaremos quais são essas modificações explicitadas na fala ou até mesmo nas variantes lingüísticas. Algumas modalidades explicam essas variantes lingüísticas: a variação histórica, em que palavras e expressões caíram em desuso com o passar do tempo, a variação geográfica, em que há diferenças de vocabulário e pronúncia de sons e construções sintáticas em regiões que falam o mesmo idioma, a variação social, que é a capacidade do falante em relação ao meio em que vive, e a variação estilística, em que cada falante possui uma forma e estilo de falar próprio adequando-a de acordo com a situação em que se encontra. No entanto, mesmo com a explicitação dessas variantes lingüísticas, o falante que não dominar a língua padrão por sua comunidade lingüística, sofre preconceitos e é excluído pelos que tiveram acesso a educação de qualidade e sob o pretexto de conservar a língua padrão, acreditam que o falar daqueles sem instrução formal é um erro. Essa discriminação é para Bagno um preconceito lingüístico em que consiste discriminar uma pessoa devido a seu modo de falar.
Seguindo a mesma linha de preconceito, Marcos Bagno apresenta o livro Não erre mais!  de Luis Antonio Sacconi. Segundo ele a obra está repleta de problemas e preconceitos, a começar pelo seu critério de organização. Sacconi se baseia nos supostos erros e tenta ensinar como falar a língua inglesa e termos ingleses com uma pronuncia correta, criticando a ortografia, inundando o seu livro com expressões, que Bagno considera preconceituosas, e deixa claro o seu ponto de vista em relação ao sentimento de desprezo ou menosprezo aos ignorantes que, com exceção a si próprio, considera todos os brasileiros como ignorantes no que diz respeito à língua. Infelizmente o preconceito lingüístico é apenas uma denominação para um profundo preconceito social e individual do falante.
A norma padrão constitui o português correto. Porém tudo que foge a ela representa o erro. Bagno reforça que não existe certo ou errado na língua, mas modalidades de prestígio e desprestígio que correspondem ao meio e ao falante, num discurso político e uma linguagem metafórica, comparando a língua a um rio e a gramática normativa a um igapó, em que fica clara a sua preocupação com os rumos do ensino da língua materna. Sua maior intenção é, no entanto, chamar a atenção e combater o preconceito lingüístico.
Na última análise da presença do preconceito lingüístico nos comandos paragramaticais, intitulado Beethoven não é dançado, Bagno utilizará como recurso de análise e avaliação rigorosa uma coluna de jornal chamada Dicas de Português, assinada por Dad Suqarisi publicada no Correio Brasiliense em 26.06.96 e republicada no Diário de Pernambuco em 15.11.98, com o título Português ou Caipirês? referente à viagem do presidente Fernando Henrique Cardoso a Portugal, quando acusou os brasileiros de serem caipiras. Neste texto a autora reúne os chavões utilizados na linguagem dos nordestinos que compõem o preconceito lingüístico, sociais e étnicos. O preconceito aparece já no título do texto em que o caipirês é associado a outros termos de conteúdo semântico preconceituoso, como o Jeca Tatu, personagem de Monteiro Lobato que representava a preguiça e a comodidade do povo nordestino brasileiro. Bagno ainda informa que uma rigidez na defesa de certos dogmas pode reforçar o preconceito quanto à forma.
Em relação aos lingüísticas Manoel Said Ali, Antenor Nascentes e Joaquim Mattoso Câmara Jr., Bagno afirma que eles reconhecem o fenômeno e está inserido em todas as classes sociais, cultos ou não, na língua falada e na escrita. Já em relação ao ensino da língua portuguesa ele afirma que há uma crise nascida na recusa dos defensores da gramática tradicional que não permitem a evolução da linguagem. É preciso, portanto, para mudar esse quadro, uma mudança de atitude em relação ao que é certo ou errado para que tenhamos um ensino mais consciente e menos preconceituoso.
Marcos Bagno propõe cisões para serem refletidas em relação ao preconceito lingüístico. Tais cisões partem do princípio de que não existe erro de português, o que existe são diferentes variedades de português. É preciso conscientizar-se de que todo o falante de uma língua nativa possui competência nessa língua, uma gramática internalizada. Tudo que os gramáticos chamam de erro possui uma explicação científica, pois a língua muda e varia. Deve-se então não confundir erro de português, que não existe, com erro de ortografia e respeitar a variedade lingüística, pois nós somos a língua que falamos. A obra de Bagno cria um caso de preconceito contra os lingüistas tratando de assuntos que dizem respeito ao campo da investigação da lingüística teórica e aplicada.






REFERÊNCIAS
BAGNO, Marcos. Preconceito lingüístico – o que é, como se faz. São Paulo: Edições Loyola, 1999.





ginaldo
Enviado por ginaldo em 08/03/2009
Código do texto: T1476365

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Sobre o autor
ginaldo
Aracaju - Sergipe - Brasil, 46 anos
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