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Numerais - Texto Teórico

NUMERAIS - TEORIA
                                                                                           

INTRODUÇÃO
Tradicionalmente, as gramáticas organizam as palavras em classes, que são definidas, de acordo com suas propriedades semânticas, morfológicas e sintáticas, em dez classes: substantivo, adjetivo, verbo, pronome, numeral, artigo, conjunção, preposição, advérbio e interjeição.
Azeredo (2000, 73) diz ser “inevitável” adotar aqueles critérios para classificar as palavras, pois são “entidades heterogêneas” rotuladas, em geral, por palavras, e que é “operacional” classificá-las daquele modo.
Portanto, dividir as palavras em classes “é permitir a descrição econômica e coerente de seu comportamento gramatical” (Perini, 2001, 74). Mas, há que se interrogar se “econômico” tornar-se-á satisfatoriamente viável, pois nem sempre quando classificamos uma palavra como substantivo quer dizer que ela será sempre substantivo; o mesmo ocorre com a palavra classificada como adjetivo, que nem sempre receberá essa classificação.
Para entender se há ou não viabilidade naquela classificação, recorreremos a critérios lingüísticos que, não esgotando as possibilidades, tornarão evidente a forma mais operacional de classificação das palavras.






1. OS VOCÁBULOS FORMAIS
É imprescindível que saibamos diferenciar o que são classes de palavras e o que são funções, porque várias palavras podem assumir diversas funções, mesmo sendo de uma só classe. Função – sintática – é “um princípio organizacional da linguagem”; classe, um conjunto de formas lingüísticas (Perini, 2001, 40), os vocábulos formais.
Os vocábulos formais, que se contrapõem aos fonológicos, são divididos, segundo Matoso Câmara, pelo critério morfo-semântico, em nomes, verbos e pronomes (Câmara, 1988, 78). Funcionalmente, podem, pois, os nomes e pronomes atuarem tanto como substantivos, adjetivos ou advérbios. Substantivo é aquele nome ou pronome que é o termo determinado de um sintagma; adjetivo, nome ou pronome que determina outro nome; advérbio, nome ou pronome determinante de um verbo -função essencial- ou de um adjetivo.
Recorrendo às definições tradicionais, vemos que substantivo é aquela palavra com a qual designamos ou nomeamos os seres; adjetivo é a palavra, em termos gerais, que qualifica o substantivo. Ainda recorrendo a essas mesmas classificações, numeral seria mais uma classe de palavras, como substantivo, adjetivo, etc. Mas, assim classificando, há uma incoerência, pois o numeral pode assumir função de substantivo como em O terceiro acabou de chegar, quando o numeral é substantivo; mas, no enunciado O terceiro andar está interditado, o numeral é determinante do substantivo andar.
Logo, percebemos que, chamando de classes distintas numerais, substantivos, e adjetivos, estaremos concordando que as palavras podem mudar de classes de acordo com as relações sintagmáticas que possuírem com outras palavras. Portanto, em Classes de Palavras, ainda sobre o critério de Matoso, colocamos os nomes, pronomes e os verbos, sendo que os primeiros podem assumir funções, em diversas expressões, de substantivo, adjetivo e advérbio.
Quanto ao nome, que é objeto deste estudo, e é aquele que “indica as ‘coisas’, quer se trate de objetos concretos ou de noções abstratas, de seres vivos ou de espécies” (Câmara 1981, 177), pode assumir funções várias; dentre os nomes, encontram-se os numerais, que possuem uma característica diferenciada daqueles outros nomes que assumem papel de substantivo ou adjetivo num sintagma, pois nem sempre são passíveis de flexão, diferente também daqueles que têm função de advérbio, pois esses não sofrem flexão alguma. Os cardinais, por exemplo, são, salvo um, do plural, “implicitamente”; variam em gênero apenas um, dois e as centenas superiores a cem. Já os ordinais, os multiplicativos e fracionários variam normalmente como qualquer outro nome, em gênero e número.
2. O NOME NUMERAL
O nome numeral possui uma função semântica, e, quando substantivo, assume papel de núcleo de um sintagma nominal; isto ocorre quando o cardinal denomina os próprios números e suas representações; também, com valor substantivo, quando, geralmente, o ordinal ou multiplicativo vem precedido de artigo. O fracionário é mormente empregado como substantivo. O nome numeral toma papel de adjetivo quando determina um outro nome, assumindo um “caráter explicitador”, aparecendo anteposto ao termo determinado. Abusando do uso de nomenclaturas, Azeredo (2000, 190) diz ser este o “determinante quantificador absoluto”, e está diretamente incidindo sobre o termo determinado.
Numa relação sintática, um numeral pode ser tanto sujeito como adjunto, objeto; assim, encontramos um numeral com propriedades adjetivas assumindo características de determinante. Mas, raro se torna encontrar um numeral como termo determinado num sintagma nominal – isto tomando determinado por um nome, já que achamos facilmente os dois foram muito bem, quando dois é substantivo pela elipse de um termo já conhecido anteriormente, e está sendo determinado pelo artigo o – ; mas dois milhões é um numeral composto de um chamado numeral primário mais um substantivo – classificação tradicional – , dois e milhão, respectivamente; este último variando em número, e, na relação sintagmática que há entre eles, dois é o numeral determinante e milhão o substantivo determinado.
Mas, a não ser nas linguagens poética e conotativa, e também no nível da oralidade, encontraremos um numeral determinado por um adjetivo:
Guga venceu por um incrível triplo 6/4; e
Foi um magnífico primeiro lugar.
Notadamente, percebe-se que, na primeira frase, incrível estaria qualificando o placar de uma partida de tênis, em que o famoso brasileiro venceu a partida por 3 sets a 0, e que todos estes terminaram em 6 a 4. Na segunda frase, há uma gradação, em que magnífico está qualificando primeiro e este, lugar. Percebe-se, mesmo fora de um contexto, que magnífico determina a qualificação de um competidor numa disputa, podendo ser substituído o sintagma primeiro lugar pelo substantivo vitória.




3. CATEGORIAS DOS NUMERAIS
É válido apresentar as categorias desta classe especial de palavras, “espécie do nome que indica o número de seres” (Câmara, 1981, 178), para nos aproximarmos de suas características.
3.1 Cardinais
Estes são os nomes que exprimem a idéia da quantidade em si mesma, e dá a quantificação exata de seres e objetos. Sua denominação, cardinal, vem de cardinālis, adjetivo latino que significa “principal”, o que traz a idéia de ele ser o principal numeral, donde derivam-se os demais. Agregado a este conceito, sabemos que o cardinal pode substituir o ordinal, por este último possuir um quadro “muito complexo” de nomes, e, segundo Matoso Câmara (1981, 178), sua utilização se torna complicada para o falante, especialmente para o “homem do povo”. Usa-se o cardinal, também, na designação dos fracionários e dos multiplicativos.
3.2 Ordinais
Do verbo latino ordināre – “pôr por ordem; ordenar” –, ordinais são os nomes que indicam a ordem dos seres ou coisas numa determinada série. Os ordinais possuem pouca freqüência na linguagem cotidiana, quando se prefere, como dito anteriormente, o uso do cardinal. Assumem, quase sempre, papel de quantificador, determinando um substantivo.
3.3 Proporcionais
São os nomes que indicam idéia de aumento ou diminuição proporcionais; denominam-se, respectivamente, multiplicativos e fracionários.


3.3.1 Multiplicativos
Indicam a multiplicidade dos seres e coisas. Popularmente, usamos apenas os nomes duplo, dobro e triplo; para as demais formas, usamos daqueles nomes numerais ditos principais mais a palavra vezes. Então, comumente, encontraremos doze vezes e, raramente, duodécuplo.

3.3.2 Fracionários
São os proporcionais que indicam a diminuição por frações da quantidade. Possuem apenas as formas próprias meio e terço, e emprega-se o ordinal para as demais formas. Para as formas compostas, observemos a explicação do mestre Matosa Câmara:
“oitavo, para oito, tirou-se, por metanálise um sufixo –avo, que passou a substantivo, suscetível de plural, para indicar o elemento fracionário em si mesmo; ex.: cinco avos, um avo, etc.” (Câmara, 1981, 178).
Antecede, pois, ao fracionário o cardinal para designar o número de partes da unidade: cinco doze avos, três quintos, etc.
3.4 Coletivos
São aqueles nomes que se assemelham aos nomes coletivos – tradicionalmente, substantivos coletivos–, e se caracterizam “por denotarem o número de seres rigorosamente exato” (Cunha, 1985, 359), definição que não esgota o significado destes; denota, pois, um conjunto de coisas ou seres, substituindo um numeral, como, por exemplo, dúzia, que significa um conjunto de doze objetos quaisquer; década, porém, pode designar, segundo Aurélio (1993), um espaço de 10 dias ou 10 anos.



4. CONCLUSÃO
A organização das palavras em classes gramaticais é “economicamente viável” para um primeiro momento do ensino da língua. Mostrar a outra face, segundo a organização morfo-semântica de Matoso Câmara, é algo como o professor de História, guardadas as proporções, demonstrar aos alunos que determinado autor tem uma versão um pouco diferente daquele dado fato histórico, mas que ele não pode estar fugindo da realidade demonstrada por um outro autor.
Mais econômico parece a organização entre nome, pronome e verbo, dando ao nome funções semânticas no sintagma que são conhecidas como classes – substantivos, adjetivos, advérbios – ; já os sintagmas nominais, segundo Perini, podem exercer função sintática sujeito, predicado, objeto, etc. Assim, Perini propõe a organização por classe particulares de formas, os sintagmas, abrindo ainda mais a discussão sobre a organização das classes gramaticais.
Já basta, aqui, identificarmos o numeral como um nome que pode exercer a função morfo-semântica de substantivo, adjetivo ou advérbio, e que rotulá-lo como uma classe gramatical seria uma ingenuidade, lingüisticamente falando.






5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALI, M. Said. Gramática Histórica da Língua Portuguesa. 8 ed. revisada e atualizada. São Paulo: Companhia Melhoramentos; Brasília: Editora UNB, 2001.
AZEREDO, José Carlos de. Fundamentos de Gramática do Português. Rio Janeiro: Jorge Zahar, 2000.
BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 37 ed. revista e ampliada. Rio de Janeiro: Lucerna, 2001.
CÂMARA JR., Joaquim Mattoso. Estrutura da Língua Portuguesa. 27 ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 1998.
____________. Dicionário de Lingüística e Gramática. 9 ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 1981.
CUNHA, Celso & LINDLEY, Cintra. Nova Gramática do Português Contemporâneo. 2 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
HENRIQUES, Cláudio César & SIMÕES, Darcília (orgs.). A Redação de Trabalhos Acadêmicos: Teoria e Prática. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2003.
PERINI, A. Perini. Para uma Nova Gramática do Português. 10 ed. São Paulo: Editora Ática, 2001.
TORRINHA, Francisco. Dicionário Latino Português. 2 ed. Porto: Gráficos Reunidos, 1942.

Trabalho Acadêmico - Estágio Supervisionado no IAP-UERJ - 2004
Rogerio Bandeira
Enviado por Rogerio Bandeira em 22/01/2011
Código do texto: T2746188
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Sobre o autor
Rogerio Bandeira
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 41 anos
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