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Demóstenes

Nos Tribunais do Júri ele brilhava. Com a  toga e aquela altivez maravilhosa,que fazia seu olho ficar ainda mais azul, aquele sorriso contagiante,a desenvoltura que era sua marca registrada,até os opositores babavam,e davam mão à palmatória,ele era bom mesmo!
Lembro-me bem que o via passar semanas  inteiras e estudando um processo. Quando já se aproximava o dia de um julgamento, ia para a piscina e eu o via lá corpo bronzeado, lendo a pilha de processos a sua frente,e falava sozinho,e ensaiava o seu texto.Acreditava no que fazia e vivia em cada detalhe aquela defesa ou acusação.
Depois quando tomava banho e ia se arrumar ficava na frente do espelho ensaiando o discurso do dia,eu ficava quietinha a olhar e ele me vendo espiar,pelo espelho me olhava e sorria,e dizia deita ai na cama me ouça e veja se está bom.Nossa que orgulho eu sentia,enchia meu peito e me colocava a ouvir,encantada por tudo o que ele dizia.
Quanto mais o via analisar o comportamento dos clientes mais sentia que queria estudar psicologia e era com ele ,meu Pai, advogado, que trocava figurinhas sobre as nuances do comportamento.
Dia do julgamento.
A casa já acordava meio tensa.Minha mãe tentava alegrar e colocar leveza no ambiente,som na caixa dizia ele! e a música enchia o ambiente,ele gostava de "My fair Lady",de My Way, a Banda dos Fuzileiros Navais  e ouvia na maior altura.
Dançávamos pela casa e ele tentando relaxar.Almoçava apenas uma salada,tomava agua e lá ia ele.Logo depois íamos nós a família assistir a decisão crucial. Lembro-me que muitas vezes fui contra ele pegar alguns casos, como o de um moço que entra num bar briga com um colega e atira pelas costas, o tiro acerta o olho da dona do bar que está atrás do balcão e a deixa cega, professora, mãe de duas crianças pequenas, lembro que papai defendia o rapaz mas chorava pela moça,e eu dizia:- Para que o senhor faz isso? E ele respondia: é o meu ofício,ele tem que ter defesa, todos tem direito à defesa...
E nossa, como ele sabia fazer aquilo!
Mas ao final da causa ganha ele sentia um profundo pesar pela vítima, mas tinha a consciência tranquila de que tinha cumprido sua missão.Quantas vezes discuti com ele por esse motivo.Mas entendia.
Ele escrevia artigos para o jornal local como pseudônimo de Demóstenes, o grande orador da Grécia antiga,o mais ativo e combativo e era lido e comentado.
Nas tribunas parecia que Demóstenes se incorporava nele.
E eu olhava fascinada para aqueles olhos azuis, aquele nariz longilíneo, que mais parecia de Grego mesmo, ficava encantada e orgulhosa do Pai que tinha.
Depois na ausência prematura da minha mãe, lá estava ele como pai e mãe, fazendo de tudo para que a passagem dela doesse menos em nós.
Hoje Demóstenes também se foi, a toga ficou, como símbolo de um tempo que eu fui tão feliz, a coloco diante do espelho e ainda o vejo lá a brilhar e um filme passa em minha memória, isso tudo que aqui escrevi é o filme visto por mim no dia de hoje,...Tirei  pó do armário e resolvi dar a toga,
sinto uma lágrima rolar em meu rosto, pela primeira vez me vejo diante do espelho,estou sorrindo e chorando ao mesmo tempo...Uma saudade boa me reconforta, mas sinto um toque em meu ombro,uma mão a me amparar,olho para o lado e não há ninguém,só um toque,olho para a cama e agora vejo meu Pai lá a me olhar e intuitivamente vejo-o dizer,sim dê a toga,agora discurso em outros Tribunais. Vejo que ele sorri, me olha também orgulhoso,sorrio,volto a olhar o espelho e por ele olhar papai,mas, a cama está vazia,ele se foi, só me resta agora aguardar o momento em que novamente eu e Demóstenes estaremos juntos e pra sempre.
Enxugo a lágrima,vou até a sala e coloco a música dos Fuzileiros Navais bem alta. O meu dia continua...
Syl Signoretti
Enviado por Syl Signoretti em 24/01/2006
Reeditado em 09/12/2014
Código do texto: T103090
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Syl Signoretti
Itajubá - Minas Gerais - Brasil
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