VALEU ZUMBI!*

VALEU ZUMBI!

*Elaine Tavares

“Quando o governador de Pernambuco, Caetano de Melo Castro, decidiu colocar a cabeça de Zumbi dos Palmares num mastro para satisfazer os que se achavam ofendidos pela idéia de liberdade que ele representava e para dar uma lição nos negros que sonhavam em fugir para os quilombos, jamais poderia imaginar que estava dando asas ao herói negro. Tentando apagá-lo da memória e mostrar que estava mesmo morto e humilhado, o medíocre governador só conseguiu fazer com que os negros que olhavam a cabeça salgada, alongassem seu olhar para além da morte, para além da prisão, e vissem o horizonte de beleza que ele representava.

Zumbi foi vencido em 20 de novembro de 1695, depois de longas e acirradas batalhas. Mas qual! Essa é uma informação errada. Seu corpo foi violado, seu quilombo dizimado, mas a idéia que morava em sua cabeça jamais se rendeu. Seu nome criou asas, seu corpo foi se transformando em outros tantos corpos negros, que fugiam das garras da dor e criavam espaços de liberdade. Seu desejo de vida digna, de riquezas repartidas, de trabalho coletivo, seguiu cavalgando pelos campos, colinas e montanhas. O guerreiro é, tal qual dizia o seu povo, imortal.

É por isso que em todo novembro sua imponente figura volta a intimar as gentes. Ele reaparece, lança em punho, olhar ardente, a dizer que ainda há muito que libertar. Há o preconceito, a discriminação, a violência, o ódio. Há a pobreza, o desemprego, o tratamento desigual. E nós, ao vê-lo passar, sentimos que não fazemos ainda o suficiente, que é preciso mais. Zumbi nos inflama, nos desconforta, nos abre os olhos. Zumbi nos acena, majestoso, e nos convida a segui-lo. Ah, esse homem que foi traído, que perdeu a cabeça e a vida, ali está, no asfalto, na cidade, buscando os seguidores para um novo quilombo. Não mais Zumbi, o neto da princesa Aqualtune, mas o que passou a ser quando sua cabeça circulou pelos fundões do Brasil. O espírito. Então, quando nas noites deste novembro escutamos o rumor delicado do vento, sabemos: eis o espírito... E o acompanhamos, para o mundo que virá, construído por todos nós!”

Partilho com vocês este texto maravilhoso de Elaine Tavares- Jornalista no IELA - Instituto de Estudos Latino Americanos/UFSC.

Que a África em nós revelada em tantos aspectos da cultura, da religiosidade, do jeito de ser e viver e ATÉ no tom da pele, nos irmane no respeito às diferenças, à diversidade de cada etnia.

Que as homenagens ao dia Internacional da Consciência Negra nos façam, no mínimo, repensar nossos conceitos, refletir que preconceitos de qualquer ordem nos amesquinham, nos desumanizam.

Meu filho disse-me certo dia: -Mãe, não entendo como uma pessoa pode discriminar outra porque é negra...e na perplexidade de seu olhar, a tristeza da minha resposta:

-Também não entendo, meu filho e envergonho-me diante de atitudes como o racismo, que desrespeitam a raça humana.

- Valeu Zumbi! Valeu !