AO MESTRE COM CARINHO

Ao Professor Ricardo Rodrigues Marques, in memoriam

Fernando Pessoa, em seu poema Autopsicografia, revelou na primeira estrofe que “o poeta é um fingidor/finge tão completamente/que chega a fingir que é dor/a dor que deveras sente”. Esta expressão, um tanto exacerbada do grande artista português, mostra que o poeta, não só fala do que sente, mas do que recria ao sentir e do que extrapola ao sentir.

Este preâmbulo me remete a um poema do poeta Ricardo Rodrigues Marques, do impecável livro “Voo sem Pássaro” que tenho em mãos, intitulado Dialética, onde afirma que “verdade é que poucas vezes sou eu mesmo.”.

Ricardo Marques, entre Palavra e Lavra, teceu sua vida, entre amigos, livros, sentimentos sinceros, vivendo a grande dialética da vida, entre o ser e o não ser.

Há poucos dias, visitando o site da Rádio Clube de Patos, onde também prestou serviços, fez amigos e admiradores, deparei-me com a notícia de seu passamento, o que me deixou entre muito triste e demasiadamente perplexa com o inesperado da nota. Este fato me levou a relembrar a pessoa do professor Ricardo, como cidadão e professor, que, como os raros seres humanos, fazia jus a todas as excelentes características que lhe atribuíam. Passei o resto do dia relembrando fatos, revolvendo memórias das quais jamais me esquecerei.

No primeiro ano do curso de Letras, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Patos, nos idos de 1974, tive a felicidade de ser sua aluna. Identifiquei-me imediatamente com suas idéias, seu modo de respeitar e amar a literatura e de expor, com absoluta facilidade, o intrincado mundo da arte de escrever.

Lembro-me certa vez, quando a equipe que eu integrava, fizemos uma explanação sobre a Evasão através da Literatura, no Tempo e no Espaço, trabalho que foi rematado com a música interpretada pela cantora Marisa, Viagem, de Paulo César Pinheiro e João de Aquino, após a qual, o professor, ainda tomado pela emoção exclamou: “hoje, redescobri a alegria de ser professor...” Jamais me esqueci, não apenas porque avaliara em alta escala o nosso trabalho, mas porque nunca vi tanta humildade numa pessoa ao valorizar a nós, principiantes que buscávamos dar o melhor de nós. Vindo dele, era um incentivo precioso demais.

A partir daí, tomei coragem e mostrei-lhe todo o trabalho poético que tinha guardado, escritos desde os 15 anos de idade, e esperei, com a impaciência própria da idade, o retorno dos mesmos com os comentários dele. Mas, de certa forma, tendo sido o mais sincero quanto possível, senti meio que decepcionada, porque apresentou um comentário para cada linha do poema, num trabalho meticuloso de crítica literária. E falava apenas do que não gostou e do que deveria ser evitado ou alterado. Abandonei os originais por um bom tempo, até que os retomei.

Consegui desta feita, com tranquilidade, estudar cada comentário, cada palavra, toda observação e vi que muito tinha pra aprender e decidi colocar mãos e coração à obra e pude crescer com tudo que ele me ensinara e me ensina até hoje quando dele releio os trabalhos.

Quando minha família encontra dificuldade de se reunir, sempre busquei argumentos num poema do Ricardo, Crônica de Família, segundo o qual, algumas famílias se limitam a se reunir apenas quando um membro falece; termina dizendo “Em que dia virá a morte nos convocar outra vez?” Acho-o triste e muito verdadeiro. Isso vale para os amigos que privam de se encontrar e vale também pra mim, que não pude falar tudo isso ao meu eterno professor...

Ainda ajuntando os cacos dos “Estilhaços da Manhã”, senti que “A Poesia Pede Passagem”, e que tudo se tornou claro e cristalino, dentro do meu coração.

Termino essa oferenda, transcrevendo a última estrofe do poema Participação de sua autoria: “eu que queria/as mãos fechadas/os pés dormindo/a boca aposentada, me vejo de repente/oferta e ação.”.