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Uma mulher inequecível

Dona Josepha, Sá Sefa, tia Sefa, vó Sefa, muitas designações para uma só mulher. Mulher de fibra, batalhadora, incansável, a matriarca da família que ao lado de meu avô tornou memorável a casa do Páteo do Colégio, esquina com Praça da Sé.

Também mineira como meu avô, deixou a terra natal para estar ao lado do marido.

Generosa aninhava filhos, genros, noras, sobrinhos, netos, amigos ou simplesmente conhecidos. Quem quer que chegasse ao Páteo do Colégio teria acolhida calorosa e muita dificuldade pra se afastar, conquistado pelo seu jeito de ser e pelo tempero inigualável também.

A casa era ponto de encontro de muita gente de Minas e de parentes enquanto minha avó se dividia entre as tarefas de dona de casa e as de chefe de cozinha do Café da Sé, no mesmo endereço.

Provavelmente por essa razão o que era apenas um lar acabou se tornando pensão de fato. Tudo ali era  festa. Não faltavam dança, muita prosa, alegria e felicidade.

Viúva muito jovem sequer admitia a idéia de um novo casamento e continuou sua luta, uma luta recompensada por muito afeto, amizade e carinho que a envolveram a vida toda.

Imagino que seu “coração grande” e a necessidade de sobrevivência depois da viuvez precoce a  obrigaram  a manter a pensão, embora muitos hóspedes tenham deixado de pagar e ela evidentemente de cobrar.

Sem registros documentais cabem a dois ex-alunos de minha mãe o título de "inauguradores da Pensão". Qual dupla caipira,  inseparáveis, eram conhecidos  como Tonico e Joaquim e merecem destaque.

Seus demais pensionistas são lembrados até hoje com saudades. Diariamente, almoçavam lá dois funcionários da Casa Kosmos (Rua Direita), um contador do Banco Comércio e Indústria de Minas Gerais, muitos outros bancários, entre os quais aquele que viria a ser meu pai, além de policiais que  ampararam minha avó no momento de luto, enfim gente demais para ser relacionada.

O grande diferencial dessa pensão para moços de outras similares era o clima familiar que imperava nela, não só pelos laços efetivos de amizade e parentesco em alguns casos, mas pelo calor humano emprestado por minha avó.

A fartura à mesa e o atendimento especial a cada um sem distinção, afinal ali conviviam gente de muito dinheiro e outros sem um tostão, renderam a ela um lucro afetivo que respingava até em mim que recebia dos pensionistas todos os paparicos inimagináveis.

Por ser a única criança, entre outras coisas, eu recebia  papinha das mãos de homens engravatados que também me levavam a passear e tiravam fotos comigo, além de me ninarem.

o inusitado é que a pensão rendeu também casamentos, um dos quais justifica minha história, e só não deu lucro monetário.

O balanço final da pensão contabilizou muitas recordações até 1956, quando a casa foi requisitada pelos proprietários.

Depois disso em novo endereço, embora sem a pensão, nossa vida continuaria igual, pois minha avô passava a nova casa seu calor humano e alegria.

E ela viveu intensamente e compartilhou isso com a gente..
Só Suely
Enviado por Só Suely em 18/10/2006
Código do texto: T267296
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Sobre a autora
Só Suely
Itanhaém - São Paulo - Brasil, 68 anos
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