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FRANÇA, LUZ DE OLINDA!

        Era final de expediente, abri o meu e-mail e lá estava a fatídica notícia. De uma paulada só, meu amigo Ivan Marinho anunciava-me as mortes dos poetas pernambucanos Alberto e França. Do primeiro, nada posso afirmar, muito embora o poeta Malungo tenha me informado tratar-se de um dos maiores poetas do Pernambuco, com fama além fronteiras. Por ele sinto também, mas foi por França que o lamento bateu mais forte no meu peito. Coincidência ou não, a notícia me veio logo no dia em que iria participar de um recital na Aliança Francesa. Como que por capricho do destino, o sarau fora adiado. Na minha imaginação de poeta era como se a Aliança Francesa estivesse de luto. Lá, faria referência à morte dos dois grandes vates, homenageando-os com um poema do meu Viagens ao além-túmulo.
       Conheci França na véspera do 14 de março (Dia da Poesia), que aqui em Natal comemoramos com pompa e circunstâncias. Também fui apresentado a Miró, grande poeta e declamador. No dia seguinte, Natal fervilhava. Os jornais destacavam nos cadernos de cultura, poesias de estilos, formas e temas diversos. Cedinho, os poetas de cada esquina se encontraram para o tradicional café com poesia, na Capitania das Artes. E lá estava França, inconfundível com sua boina a la Bob Marley, seus patuás, mochila de lado, barbicha em riste, e em meio a tantas falas e gestos, permanecia quase imóvel, andar em slow motion, numa discrição contrastante com a inquietude de Miró. Na Capitania, se bem me lembro, não declamou. Guardou voz, emoção e gestos para a praça, porque a praça é do povo, como o céu é do condor. Sentei-me ao lado dele, que sorvia uns tragos numa latinha bem conhecida. Perguntei-lhe se não iria declamar. Sem alterar a voz, respondeu-me que só se fosse convidado. Convidei-o e ele declamou. Não me perguntem o título do poema, que frases ecoaram às margens do Potengi. A memória me trai, mas posso dizer que o seu jeito peculiar de declamar, emudeceu o ambiente. Evocava ali o Recife sofrido, marginalizado e o fazia com tanto sentimento, com tanta paixão que era impossível não se emocionar. Foi a única vez que vi o poeta declamar, mas bastou-me para ter a certeza  de sua vitalidade poética. Sei que realizava saraus pelas ruas do Recife. As noites e os luares, as gentes e os lugares estão tristes, mas França continua brilhando como as noites em Paris. Para Sempre!
Marcos Cavalcanti
Enviado por Marcos Cavalcanti em 22/10/2007
Reeditado em 26/11/2007
Código do texto: T705402

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Sobre o autor
Marcos Cavalcanti
Santa Cruz - Rio Grande do Norte - Brasil, 44 anos
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Marcos Cavalcanti